quarta-feira, 4 de julho de 2018

Sou aquela

Paula Rego, Mist II

Sou aquela

Eliane Fittipaldi


Sou aquela
que morre a cada dia
que se desfaz
em osso
em pó
suor e sal
que se desmonta
se desatina
sem arte e sem cura
a que é partícula de um si sem ressonância
mera reentrância
de um corpo ausente
mas que se sente
se contorce
e se ressente
descontente
do que entende

porque entender
com a pele que não há
é ser lúcida chaga
aberta ao ar
exalando a infecção
do seu tormento
que consiste em ser
puro fragmento
de um idem que já foi
e não é mais.

Sou aquela
que se remonta a cada dia
toda torta
voz de morta em afasia
sem sintaxe
sem ritmo
e harmonia
peça desconexa
que se afasta
autônoma
de outras peças
poucas
que se arrastam
em busca de uma forma
e de poesia.

Sou o não da vida instituída
o não ser
o não fazer
não crer nem pertencer
lasca descontínua
descorporificada
e ensandecida.

Resto de uma dor sem moradia
desancorada e arredia.

A mera evocação de uma alegria.

Maio, 2013

DESRAÍZES

Tuas raízes excedentes –
árvore-monstro
que avultas
constante e solitária
no declive de minha suposta propriedade
(que é tão minha
quanto é meu o universo
em que despenco
a cada dia que é
supostamente meu quando desperto,
se é que algum dia despertei,
sonâmbula que sou,
inconstante e solitária,
flutuante e nebular,
despossuída e desterrada) –
tuas raízes transbordantes,
árvore-medusa,
que assentam tão-somente a ti
em meus assim chamados domínios,
essas raízes tuas
que se fincam, pesam,
colam, prendem-se, aderem
em robusto movimento
como âncoras
como tetas
como veias
como ancas
como lesmas
como teias
ante meu desgarramento atônito,
elas incham, saltam e se alongam
enquanto me mantenho
mesmérica, pasmada,
de meu frágil real estacionado;
surpresa
de teu aparente simulacro
simulado;
curiosa
dos sentidos subterrâneos
que teces ao acaso
(ou não)
no solo irrealizável
que não toco;
intrigada
do mito obscuro
que fabulas
às ocultas,
criação
que te articulas, sigilosa,
à minha revelia,
magia coagulada
em minha moradia,
e que virá a sobrepor-se
em um futuro dia
ao pequeno conto tosco e linear
que é minha vida:
fantasmagoria
desbotada e esvaída,
possibilidade
fosca,
esvanecida,
a quase-flor quase irrompida
na terra
produtiva,
inutilmente
a mim
oferecida.

Ibiúna, outubro, 2009

Bertrand Flachot, Arborescences#07

AUTO-CLAUSURA

Por entre as reticências pasmas do pavor,
tece, demiúrgica, tua teia de segredos.
Encerra nela, defesa e proibida,
a sabedoria do erro e da paixão
e te enriquece, cínica e esquisita,
da tua própria dor, mastigada e cuspida.
Por entre as letras quebradas do brinquedo
constrói o caos e a ordem do teu ser
e desfaz em sonho, caco, pó e veneno,
a estúpida doença do teu sexo
nem forte nem frágil – desconexo.
Do alto do palácio de metal
ordena à gente que se desfaleça
e cai em pranto, bruxa arrependida.
Torce o fio que te mantém atada à vida,
tece a tela que revela a tua ferida
e te derrete em dó
em cor
em luz
em sol.


QUERO, NÃO QUERO

Não quero a poesia gritada
Em praça pública.
A poesia diluída,
desnuda,
oferecida,
dissoluta,
prostituta de ribalta,
superexposta,
descomposta,
gasta,
arrefecida.
Quero a poesia sussurrada
em minha nuca,
caprichosa,
insidiosa,
intimista,
absoluta.
A poesia força bruta,
que arranha e que cutuca,
que arrepia e subjuga.
Que se impõe, pretensiosa,
e que machuca.
Quero a poesia
orgânica,
venérea,
vulcânica e invasiva,
injetada em minha artéria,
corrosiva,
pulsando por dentro
e implodindo no ventre,
inconsciente.
Poesia em medida certa:
que assalta e subverte,
impõe sua pauta,
cobre a falta
e me faz poeta.

Anne Touquet, Escapade, détail.


ESSA NOSSA DELICADA CONDIÇÃO
A VIOLÊNCIA

Entre tua faca erguida
e o meu olhar,
a minha vida
suspensa,
aturdida:

distância sofrida
da tua ferida
ao meu mal-estar.

Da boca cerrada
(meu preço de viver)
à tua raiva
(urgência de querer);

de minhas mãos amarradas
à arma com que ameaças;

da mordaça que me cala
à indecência da tua fala;

da tua violência que acua
à minha impotência nua,

a não palavra:

desgraça que lavra
o contrato do assalto,
o ato do sequestro.

A surda inconsciência
da única saída:

a rima suprimida
que aproxima e que separa

o ser do poder
e o poder de ser

Egon Schiele
Em um dia do calendário,
eu sei que vou morrer.

Sei que então não terei lido
os livros todos que há
na biblioteca de Babel.
Não terei arrancado
os versos todos
que entrevejo no papel:
não comporei poemas
que tenho em mente compor.

Não resolverei problemas
que a humanidade me impôs.
Não direi tudo o que penso.
Não satisfarei desejos,
não beijarei todos os beijos.
não viverei certos amores...

Nunca terei o bom senso
De disfarçar meus bocejos
Quando me pregam sermões.
Não ganharei troféus,
Não terei um mausoléu.
Não chegarei ao céu
Por não ter feito orações.

Não terei sido dançarina,
esportista,
clarinetista,
menestrel...
Terei sido feminina,
Concubina,
Heroína
Da história que contarei.

Sei que não encontrarei
todas as pessoas
que vale a pena conhecer.
Levarei muita saudade
de amigos que nunca farei.

É pena, não serei maestrina.
Das profissões, a que combina
com todo o meu jeito de ser,
a que daria mais prazer:
levantar uma batuta
e fazer o mundo encher-se
de música.

Eu sei que jamais vou saber
o mínimo necessário
para ser um pouco sábia.
Mas tampouco serei rústica
ou inculta.

Estarei sempre na luta,
resoluta
até o fim.

Talvez nunca vá à Arábia
ou à Calábria.
Já sei, não viajarei
pelos cinquenta países.
Nem verei o fim das crises.

Talvez nunca economize.

Lamento, não escutarei
todas as boas canções,
nem tocarei violões, tambores ou rabecões.

Mas sei que não vou morrer
sem ter amado o bastante,
sem ter tido a embriagante
experiência do corpo.
Eu morrerei toda plena
de experiência terrena.

Sei que vou como bacante
num rodopio elegante,
primor de delicadeza.

Planejo sair de cena
com um salto fulgurante.
Não quero ir-me à francesa,
anônima figurante.

Quero uma morte arrogante,
toda cheia de beleza.
Uma morte retumbante,
alucinante,
chamejante,
predominante.

Uma morte de princesa.

Xxx



Mestre e Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Tradução, Eliane Fittipaldi foi professora de Teoria da Literatura, Língua Francesa, Literatura Norte-Americana e Crítica Literária na PUC, de Comunicação Empresarial na FGV e lecionou Literatura Portuguesa na USP. Hoje, dedica-se a traduções literárias, cursos livres e palestras nas áreas de Literatura Comparada e Tradução Literária e realiza pesquisas na USP.

7 comentários:

  1. Caramba! Saí toda bagunçada, obrigada

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  2. Parabéns pela profundidade e pela sensível rítmica de seus versos!!

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  3. Sinceros parabéns pela sua escrita! Abraço.

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  4. CONGRATULAÇÕES.
    Lealmente.
    Marcos Limoli { Linkedin }
    Porta-Voz.
    REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL>

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