quarta-feira, 11 de julho de 2018

A distância do agora



A distância do agora
Rafael Gallo


Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender seu tempo.
Giorgio Agamben


O escritor lê as notícias no jornal e, certas vezes, pergunta a si mesmo se não deveria escrever, de forma direta, sobre aqueles temas e acontecimentos. O mundo convulsiona bem à frente dele e demanda atenção. Mas a história que martela na cabeça do escritor é outra. Por mais que ele se afete pelas contingências de sua época, por mais que elas o perturbem, o que o acaba por (co)mover à escrita é outra coisa. Ideias que nos momentos de maior insegurança devem parecer-lhe, assim como pareceriam a tantos outros se comentasse com eles, um completo disparate.

É fácil prever essa opinião alheia. Ele vive a escutar sentenças semelhantes, vindas de seus colegas de escrita, face a estímulos equivalentes. Muitos dos autores respeitados de sua época estão a repetir: é preciso escrever sobre o que se está passando, é preciso engajar-se nos confrontos sociais, é preciso ser agente das transformações da realidade, esse é o dever do artista. O escritor ouve tais alegações, pode sentir o ar de acusação velada que algumas delas trazem consigo. Ele, que escreve aquelas histórias tão distantes do aparente fervor histórico.

Não faz isso por se achar melhor do que os outros, por se ver como alguém acima da realidade que o cerca. Nada disso. Muito menos é uma tentativa de se fechar na tão falada torre de marfim ou de defender a arte pela arte. A questão é ser uma outra coisa, ter um corpo que responde com reflexos diferentes quando afetados por tais estímulos. Ele mesmo tem dificuldades em explicar; apenas tem a impressão de que se escrevesse uma ficção de acordo com as diretrizes do que é tido como engajamento em sua época, não se sairia bem, assim como um pianista pode fracassar terrivelmente ao tocar um samba quando é ótimo no repertório de concerto. Ou vice-versa.

Nessa perspectiva, pode fazer mais sentido escrever uma história absurda, frontalmente irreal, se é isso que sabe fazer bem e honestamente, do que se devotar a realidades e posicionamentos cujo sotaque não domina. E, talvez, uma personagem ou uma trama metafísicas, uma linguagem estranha, possam ressoar mais os acontecimentos de nosso mundo do que a própria descrição deles. O escritor tenta convencer-se da validade de seu trabalho; pouco depois, duvida de si mesmo, contesta as próprias noções chamando-as – como fariam alguns de seus colegas, especialmente pelas costas dele – de alienação, covardia, conivência.

Para testar suas capacidades e para sair de sua zona de conforto, ele tenta pensar em alguma história que, então, retrate e ataque a situação de seu tempo. Pensa, pensa, pensa e, em sua imaginação, tais eventos se transfiguram até quase perderem a forma original; tornam-se metafóricos, hiperbólicos, íntimos, monstruosos, misteriosos. Adquirem outros nomes, outros aspectos, outros contornos. O escritor desiste, sua cabeça funciona de outra maneira e prefere aceitar essa organização do pensamento a combate-la, feito o guerrilheiro que não é.

O escritor tem a impressão de que muitos de seus colegas, dentre os que defendem a totalidade do engajamento, podem estar se arriscando em um combate delicado: ao se agarrarem ao agora, na tentativa de confrontá-lo, se vão com ele, agarrados ao que sempre há de se tornar passado rapidamente. Ele pensa, por exemplo, no tempo em que começou a trabalhar no livro prestes a ser concluído: o “agora” de dois anos antes. Quantos temas urgentes haviam ali, que o seduziram, em vez da história por fim eleita... e como eles seriam recebidos hoje? Nem mesmo o escritor se afeta tanto mais com essas atualidades que já não o são.

Ele, então, vai até sua estante de livros. Tenta recordar autores que tenham falado de forma frontal do momento que viveram, que tenham tido o “agora” deles como matéria central de suas histórias. Claro, as ambiências e costumes sempre entram de alguma maneira na substância das histórias, mas ele busca algo mais... corrente, denotativo de sua temporalidade. Nenhum nome lhe vem à cabeça. É tentado a dizer que esse tipo de literatura depois cai no esquecimento - diferente do que aconteceu com os tantos clássicos pelos quais ele passa os olhos e que ainda o sensibilizam - mas sabe: no fundo, o esquecimento é só dele, que nunca se afiliou a tais vertentes, para guardá-las no coração e na memória. 

O mais provável é que haja espaço para as obras mais engajadas e para as dele também, não é? Ele não consegue imaginar um limite para o espaço de criação, como se pudessem chegar a um ponto onde nada mais cabe.

Abre um livro de seu gosto, um clássico com mais de cem anos e de milhares de quilômetros de separação dele. Por que quando relê essas páginas a crosta dos séculos desaparece, a roupa dos eventos é despida? Como ainda pode estar exposto esse calor de pele nua em linhas tão longínquas? Que força é essa, que não tentou aferrar-se a um determinado “agora”, mas parece ter sobrevivido a ele justamente por perpassá-lo sem se prender?

Finalmente, o escritor pensa: a distância segura que um livro sobrevivente ao tempo tem do “agora” é mais um de seus traços permanentes. Um pouco distante do “agora” original, de quando foi criado, a obra não se prendeu a ele - apartando-se, assim, dos infindáveis “agoras” que ainda viriam pela frente. Muito pelo contrário: pôde orbitar ao redor deles, assim como orbitou em proximidade desde o começo, magnetizando-se a outros tempos, inclusive o desse “agora” em que o escritor está com o livro antigo e pertinente nas mãos.

Por fim, o escritor ironiza a si próprio: sua inteligência permite elaborar grandes desculpas filosóficas, como essas, mesmo quando não tem tanta crença assim nas próprias alegações, nas próprias defesas. “A distância do agora” - ele ri do conceito, é um belo nome para o traço de sua escrita que, muitas vezes, parece-lhe mais uma fraqueza de caráter do que maravilha da imaginação. Ele não quer escrever conforme a cartilha do engajamento contemporâneo e não saberia como, mesmo se tivesse essa vontade. Então, tenta esquecer os tantos ruídos na cabeça, dos quais jornais, colegas e outros meios tentam convencê-lo. Vai mesmo escrever outra história estranha, absurda e irreal que não lhe sai da cabeça. São essas as que o deixam razoavelmente satisfeito com o resultado, quando concluídas; sabe que mal não farão. Talvez se tornem obsoletas com o tempo, talvez comovam alguém que se importa com as mesmas coisas que ele. Não há como um artista prever os sentidos que suas criações adquirirão conforme os tempos e as visões de mundo se transformem, ressignificando-as. Será que, algum dia, um número considerável de pessoas chegarão a ler esse texto que ele pretende iniciar agora? Será que daqui a dez anos ainda será lembrado? Será que não, está condenado ao olvido, soterrado por artistas mais comprometidos com a realidade do que ele? Se ficar pensando nisso, não vai chegar a lugar nenhum, apenas enlouquecer. E é melhor escrever do que enlouquecer, sempre foi.

Então, escreve. E assina seu nome no final.

Quantos nomes poderiam ser o desse escritor ou escritora, dos quais nos lembramos, com quem nos comovemos.   

XXX


Rafael Gallo é autor de Rebentar (Record, 2015), romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien.




3 comentários: