sexta-feira, 8 de junho de 2018

Uma caneta

Flávio Cerqueira, Sobre tudo, mas não sobre qualquer coisa - 2016. Foto © Romulo Fialdini




Uma caneta
Andrea Nunes
Porque era ele. Porque era eu
Michel de Montaigne


A morte de meu pai às vésperas do Natal de um ano eletrizante da minha vida foi mais ou menos como um apagão. Não lembro como desmontei o pinheiro da sala, cuja cintilância feria meus olhos enlutados. Não lembro que roupa usei, nem nenhum presente trocado naquela ocasião normalmente tão festiva.  Aquilo de certa forma parecia uma última zombaria de um intelectual de esquerda que tinha ojeriza à esquizofrenia consumista provocada nas pessoas pelo Natal.

Papai foi  um homem de poucas vaidades materiais. O seu ego morava no intelecto. Conhecia algo acerca de grifes, mas apenas o que convinha para zombar da babaquice da sociedade de consumo. Seu maior tesouro eram livros, pessoas e sabonetinhos de hotel, essas coisas inoxidáveis pela ação corrosiva da cobiça humana.

Entretanto, apesar desse desapego ao consumo, papai tinha ciúme dos seus presentes. Era incapaz de trocar um livro duplicado, ou repassar uma bermuda que não lhe caía bem. Tinha uma prateleira de perfumes que nunca usaria, e gravatas de estampas pavorosas que nunca saíram da embalagem. Mas jamais se livraria desses inutensílios , pois representavam o carinho das pessoas que tiveram o trabalho de procurar um objeto e sair de casa para, com aquela oferenda, homenageá-lo. Eu achava aquilo engraçado na época, mas hoje percebo que papai conhecia melhor do que a maioria de nós o significado da palavra "presente": a única coisa que justificava o amor pelas coisas era o elemento humano que elas representavam. Era a conotação das presenças que ressignificavam os presentes.

Quando papai partiu desta vida, eu quis guardar uma lembrança dele, e não conseguia decidir o quê. Lembrei então de uma caneta Mont Blanc que ele ganhara de amigos, e se tornara um objeto de estimação. A caneta, que ele ostentava orgulhoso no bolso do paletó, participara de reuniões com ministros de Estado, palestras e conferências internacionais, e servira para assinar documentos que mudaram a história da Educação no nosso país.

Pronto, estava decidido: a caneta Mont Blanc agora moraria no bolso do meu blazer, e rodaria por vários lugares representando glamourosamente a lembrança de papai nas sessões de autógrafos dos meus livros.

Perceber que a caneta era uma falsificação grosseira foi, primeiro,  um choque: ela era leve como uma BIC, e descascada nas extremidades. Uma caneta visivelmente barata.

Nutri sentimentos sucessivos de raiva, por ele ter sido enganado, pena, e depois resignação. No fim, o que importava era o que o presente significava pra ele, não o seu valor de mercado.

Continuei usando a caneta nos meus eventos literários, palestras e solenidades. Conforme ia usando, percebia, pelo olhar das pessoas, que eu não era a única a saber que aquela era uma Mont Blanc falsificada, e isso me trouxe algumas lições. A primeira delas foi sobre a relatividade do que é precioso: eu jamais deixei de usar essa caneta, nem a trocaria por uma de ouro maciço cravejada de rubis. Porque o valor de um objeto nem sempre é algo que a aparência possa mensurar.

Nenhuma caneta teria escrito a história de papai tão bem quanto aquela. Comecei então a suspeitar que carregava no bolso o objeto mais inestimável do universo. E, naquele momento, pensei que aquele sentimento era porque da caneta ainda emanavam as tintas panfletárias e apaixonadas com que meu pai combateu a superficialidade dos valores capitalistas. Todo dia eu a tomava nas mãos com um orgulho solene de quem carrega o mastro de todas as bandeiras de resistência.

A caneta Mont Blanc de meu pai. 

Mas a segunda lição que aquela herança me trouxe foi desprendimento. Não me importava mais com o que as pessoas iriam pensar em me ver com a caneta descascada e enferrujada. Não era mais importante do que ter a lembrança de meu pai comigo nos momentos mais importantes da minha vida intelectual. E, ao me desapegar dessas vaidades , me percebi crescendo como ser humano.

Se me fosse dado, só por uns instantes, a dádiva de usar a caneta para escrever uma carta ao céu, eu diria :

Obrigada, papai, por me ensinar com seu presente- presença . Espero que, quando eu partir, alguma de minhas filhas ponha essa caneta no bolso e saia pelo mundo escrevendo a história. Pelo menos , a nossa história.

Ah: Preciso te dizer que comecei usando esse objeto pensando que o faria puramente por saudades suas. Depois, percebendo o simbolismo que ele carregava, passei a usá-lo para homenagear suas lutas. Então ela foi se tornando um precioso presente do seu bonito passado. Mas a caneta Mont Blanc, em sua falsificação barata, me ensinou verdades que não têm preço. Assim, estou particularmente afeiçoada a ela. Como o objeto mágico que é, foi me reescrevendo de tal modo que hoje, ela representa uma parte indissociável do que eu aprendi a ser.

XXX



Andrea Nunes é  membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba, membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e  Terror - ABERST e Promotora de Justiça. Publicou os romances policiais O Código Numerati- 2010 e A Corte Infiltrada (editora Buzz, 2017). Foi colaboradora da coluna Realidade Alterativa (Revista Superinteressante, novembro de 2017). Recebeu  da Academia Pernambucana de Letras a menção honrosa de melhor escritora nordestina no Prêmio Dulce Chacon .  Participou da Printemps Littéraire Brésilien na França, Alemanha e Portugal . Faz parte da delegação de escritores convidada para o VII Colóquio Internacional de Literatura Brasileira Contemporânea, a se realizar na Dinamarca , em dezembro de 2018

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