segunda-feira, 25 de junho de 2018

Na catedral



Lágrimas de São Pedro – Acalento ao Sertão Nordestino" de Vinícius S.A..

Na catedral

Ricardo Ramos Filho

É horrível assistir à agonia de uma esperança.
Simone de Beauvoir

Pois é, Simone, ontem eu assisti, até me lembrei de você. Quando entrei na igreja, missa de sétimo dia, procurei acomodação mais perto do altar. Gosto de ficar na frente, segunda, terceira fileira. Falando assim, parece até que tenho o hábito de frequentar a casa de Deus. Mentira. Não me dou assim tão bem com Ele. Mas quando parte algum amigo e preciso aparecer em cerimônias religiosas, prefiro me posicionar perto da família do finado. Talvez pela fraternidade que caracteriza minhas amizades. Como somos irmãos, arvoro-me o direito de postar-me não muito distante do meu parente. Fico ali, Simone, vendo a nuca da viúva.
Conforme ia dizendo, foi do jeitinho que você afirmou: horrível!
Você me conhece bem, nem tão simpático sou, não é mesmo? Mas atraio as pessoas. Muita gente se aproxima, estabelece conversação. Tratam-me como se fossem meus conhecidos, convivessem cotidianamente comigo. Por educação aturo tais contatos tão imediatos. Ontem foi assim, Simone.
Estava ali contrito como é usual em catedrais, pensando no amigo findo, quando a moça com um lenço branco cobrindo a cabeça, carregando suas tralhas em um saco, sentou-se ao meu lado. Veio arrastando-se, parecia cansada, pouco agasalhada para o dia frio. Eu devia ter olhado para o lado oposto, evitado conexão visual, mas o pensamento vagando solto nas tristezas da ocasião tornou-me um homem desprevenido. Nos enxergamos, ela sorriu, foi logo pedindo dinheiro. Estendi-lhe uma nota de pouco valor.  Não aceitou. Argumentou precisar de bem mais, desejava comprar uma passagem para Brasília. Por que essas coisas acontecem comigo, Simone? Expliquei que se ela pedisse para mais gente falando de sua situação, em não muito tempo reuniria o montante necessário. A igreja estava cheia naquele momento, o perfil dos amigos do meu irmão celebrado condizia com a boa vontade indispensável para que conseguisse viajar. Insisti para que ficasse com o quanto lhe ofereci, pouco, mas um começo. Recusou.
A missa começou, com ela a função de rezar daqueles afeitos ao hábito. De minha parte permaneço quieto, Simone. Mesmo sabendo os dizeres, as palavras das orações, há em mim teimosa recusa em pronunciá-las. No meu silêncio fico ali brigando com Deus, mesmo não acreditando Nele. Culpando-o. Quieto, o vozerio se distanciando e se aproximando, indo e vindo, acabo sonolento, mergulhado na modorra, mantendo-me acordado pela necessidade de levantar e sentar, levantar e sentar, sem nunca me ajoelhar.
Novamente nossos olhares se cruzaram. Eu não me corrijo, Simone. E a retirante começou a chorar. Soluçando afirmou que seria presa e morta. As lágrimas pulavam dos seus olhos tristes e sem futuro. Deu-me então um medo enorme, foi como se cada gota de dor escorrendo pelo rosto da moça carregasse junto um pouco de minha coragem. Sobrou apenas fraqueza. Precisei me afastar, abandonar a visão familiar da nuca da viúva, mudar de lugar. Talvez pudesse ter feito alguma coisa, Simone, tentado salvar a mulher com seu lenço na cabeça. Acovardei-me, porém. Havia violência demais naquele rosto sofrido.
A última imagem que ficou foi dela ajoelhada, rezando. As coisas da fé buscando salvar aquele mundo particular. E eu que não creio, Simone, escondido ali na catedral imponente, assistindo a agonia de uma esperança. Amém.

Ricardo Ramos Filho
Junho/2018

XXX
 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura nas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).  Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. É roteirista de cinema com roteiros premiados. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista das revistas literárias eletrônicas Escritablog e InComunidade (portuguesa), onde publica mensalmente. Participa como jurado de concursos literários: Proac, Oceanos, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE (União Brasileira de Escritores) de Literatura Infantil. Vice-presidente da UBE. Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural, realizando festivais e feiras literários. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).





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