sábado, 30 de junho de 2018

Na cama com Anna Monteiro


Na cama com Anna Monteiro

Leonardo Tonus

Você relutou o dia todo. Venceu as tentações. Resistiu aos apelos. Realizou atividades diversas. Você terminou o artigo atrasado. Leu o trabalho de seus estudantes. Passou aspirador em casa. Nadou quase duas horas. Jantou frutas. Não tomou vinho. Você não fumou o último cigarro. E evitou o café. Você fez tudo, ou quase, para vencê-la : a famigerada  insônia.

Ontem você estava feliz e contente com seus progressos. E foi assim que resolveu ir para a a cama. Deitou. Colocou os seus tampões de ouvido. E deixou-se levar pelo sono. E pelo sonho em que, profundamente, mergulha.

Flores, muitas. Campos, muitos.

Sonho frequentemente com flores e campos. Aos quais acrescento, por vezes, elementos e tons inusitados. A maratona de Berlim, na semana passada. Um show de Rita Lee, há dois meses atrás. E chocolate. Muito chocolate, ontem.

Entre minhas flores e campos tradicionais, nadava eu, ontem, num mar de chocolate. Chocolate amargo, como deve ser. 87%, pelo menos, de cacau.

Ontem nadava num mar de chocolate. Desejando me afogar para superar, provavelmente a fome do jantar tão frugal. Acabei, no entanto, por sucumbir ao estômago vazio.  E a ela. À velha companheira de minhas noites de angústia.

Acordo engasgado às 2 horas da manhã. Todo o trabalho da véspera, por água abaixo. Por chocolate abaixo.

Você levanta. Você vai até a cozinha arrastando os pés. E as pálpebras. Toma água. Anda pela casa como um zumbi. Abre o computador. Abre o face. Abre o Twitter. Abre o Insta. Você se sente menos solitário ao ver alguns de seus amigos do outro lado do atlântico, online. Talvez realizando  o mesmo  ritual do sono. O ritual contra os olhos inchados. As olheiras. As pálpebras cansadas. Contra os chocolates amargos que você finalmente acaba por devorar às 2 horas da mãnhã. Adeus dieta ! Adeus regime ! Adeus tanquinhos !

Você responde a alguns emails.  Arruma seus papéis. Arruma suas canetas. Abre a mala ainda não arrumada da última viagem. Meias. Calças. Camisa. E livros. Há sempre livros em suas malas. Livros comprados. Adquiridos. Livros oferecidos pelos amigos, sempre tão generosos. Você gosta das dedicatórias dos amigos. Você gosta dos amigos. Dos antigos. E dos novos. Você gosta dos amigos escritores. E das amigas escritoras. Você gosta dos livros deles. E delas.

Granulações. É o título de um deles. Granulações. Curioso.  Instigante.

Automaticamente você o traduz para o francês. E pensa em grãos. E pensa em peles. Você imagina peles granuladas. Ásperas. Sensíveis. Que provocam dor. Você pensa na dor da pela granulada e relê o título. E o analisa, às 2 horas da manhã. Paratexto. Estabelecer o contrato narrativo. Sugerir o tema. O gênero. O paratexto com suas funções de legibilidade. Com seus mistérios eternos.  

Você abre o  livro e nele mergulha. E nele se abondona.  Como no mar de chocolate de agora há pouco. Doce e amargo. O livro também é doce e amargo. Como suas primeiras linhas.

« O céu negro. Não se vê nada adiante dos olhos. Chove, uma daquelas tempestades de verão das quais o Rio de Janeiro é pródigo. Noite de ano novo. Sem luz. Fogos. Trovoadas. Eu, cada dia mais velho. A rua Jardim Botânico submersa, lama, lixo, correnteza de água da chuva que corre para o canal e atinge a Lagoa ».

O estilo é sóbrio, como gosta. Um estilo que o deixa respirar. Você gosta de livros que não desprezam a respiração do leitor. Mesmo que ofegante. Mesmo que trágica. Como um mergulho nas profundezas da dor que delineia o texto logo no segundo capítulo.

« não te amo mais ».

O romance de Anna Monteiro tem início com uma ruptura. Com um fracasso. A declaração do fim de um relacionamento. Um amor que fracassa. Entre Nina, a jornalista idealista e ambiciosa. E Pedro, o fotógrafo experiente e premiado. O final do amor é o ponto de partida. As histórias se alternam.  A cada novo capítulo. Um novo elemento que vem recapitular suas memórias individuais. Inseridas na memória coletiva do país.  Uma radiografia da memória afetiva.  Dos meandros daquilo  que eram antes. E naquilo em que se transformaram. Naquilo em que nós nos transformamos. Hoje. Apesar.

São 4 horas da manhã de uma noite de verão. Você sente novamente as pálpebras pesadas.  As olheiras. Você não terminará  o livro. E não o contará para o leitor que estas linhas descobre. Você sente certo prazer em não o fazer. Pois quer que ele também descubra as granulações de Anna Monteiro.

O cansaço desaparece. Você respira. O sono volta. E você mergulha. Mergulha calmamente nele. À flor da pele de Anna Monteiro. À flor. Sempre.

Leonardo Tonus
Entre 2 e 4 horas da manhã do dia 30 de junho de 2018.







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