terça-feira, 15 de maio de 2018

O Peso do pássaro morto

O peso do pássaro morto © Mariana Keller

O Peso do pássaro morto
Aline Bei

acordei num Salto com minha mãe chamando
- vamos.
eu tinha prova
logo na primeira aula, no café da manhã eu sabia mais de sono do que de
matemática, meu pai testou como eu estava
me fazendo perguntas
diretamente do livro, já um pouco estragado, de tanto ser aberto e
fechado além de
esquecido no chão também do banheiro. eu não soube responder pergunta nenhuma, queria comer sucrilhos eternamente e colocar óculos escuros igual ao seu luís. cheguei a pedir 1 óculos pra minha mãe que disse preferir olhar nos meus olhos quando estávamos conversando.
tudo bem.
eu vou fazer um óculos de bolacha maria assim que acabar
a semana
de prova.
minha rotina no colégio
era a pior parte do meu dia. eu tenho
muito medo de borboleta e minha escola cheia de verde
era cheia de asa
também. eu tinha 1 amiga que
imitava borboleta pra mim, pra me provar que não era tão terrível estar perto de uma.
a imitação ficava muito boa. tão Boa que, às vezes, eu sentia medo da minha amiga chamada
Carla, mas
passava
assim que acabava a
brincadeira.
contei pra ela sobre o seu luís,
a carla não sabia o que era
benzedeiro.
- é uma pessoa
que arruma qualquer coisa dentro da gente sem precisar abrir com faca.
ela ficou curiosíssima, também porque eu disse isso
D e v a g a r.
prometi que a levaria na casa dele pra ela ficar boa, mas Antes
ela tinha que pegar uma gripe ou qualquer coisa
assim.
ela me disse que ia tentar, mas a carla tinha
uma saúde
de aço ou a mãe dela colocava um saco
invisível nela protetor de doença e machucado.
nunca ouvi a carla tossir.
ela nunca deu choro de ralar joelho, pelo menos um roxo, Nada, Carla
a menina Intacta.
fora a inteligência
dela que me explicava
divisão durante o intervalo fazendo assim:
- 2 sanduiches
para 2 meninas
é = a
1 sanduiche para cada menina e
zero fome.
falando desse jeito e depois comendo
o lanche eu entendia
Tudo, pensava
que moleza,
!,
mas na hora que a Prova me olhava nos olhos,
minha barriga
virava gelo e a cabeça
um Choro
parecido com aquele que rádio faz quando o carro está chegando na Paulista.
numa tarde de pudim perguntei pro seu luís por que rádio chora só nessa rua comprida.
- não é choro, é
chiado. o rádio chia porque a casa dele está perto. é o jeito dele dizer que está perto, uma espécie de
Reconhecimento.
(fiquei com cara de nuvem. seu luís
tirou os óculos.
Nunca tinha visto
uma fundura de olho assim pequenininho cor de pedra
lá dentro da testa
com água de meleca nos cantos virando
o canto
mais Triste que já ouvi. perguntei pra minha mãe por que tanto olho no fundo do seu luís. ela disse que era segredo, me contaria se eu jurasse.
jurei e ela soprou no meu ouvido:
é catarata,
a pessoa vai deixando de ver o mundo.
mas se ele benze
tudo
por que não benzer o olho morto pra voltar normal?
será que ele prefere não ver?
imaginar o mundo
deve ser mais bonito mesmo.


**

O peso do pássaro morto © Mariana Keller

em são paulo
o Vento ganhou banho,
levou ponto,
tomou vacina.
o veterinário disse que foi corajoso
meu ato
sorri sem jeito.
- ele ficou até com cara de menino. - eu disse
passando a mão no pelo dele.
- não ficou? mas olha,
foi bom você ter falado nisso.
porque mesmo que não dê pra gente saber qual é a idade exata dele,
dá pra saber que ele já é bem idoso.
- claro. - respondi
entendendo que o tempo
sempre leva
as nossas coisas preferidas no mundo
e nos esquece aqui
olhando pra vida
sem elas.
em casa eu disse pro Vento
- chegamos.
ele me ouviu de lado
batendo o rabo
no vaso
que espatifou no chão.
- deixa isso pra lá, depois eu limpo.
ele subiu no sofá,
se ajeitou como pode naquilo que, com certeza,
era a melhor cama que ele já teve, os olhos derramando porto
mais que vinho.
- não me importo - eu disse pra ele - que seja breve o nosso encontro.
porque no tempo da minha
memória
somos pra sempre. não existe morrer dentro, é como uma canção.
as canções não morrem nunca porque elas moram dentro das pessoas que gostam delas. você conhece aquela da rua? se
essa rua
se essa rua fosse minha?
eu mandava eu mandava ladrilhar
com pedrinhas com pedrinhas de brilhante
para o meu
para o meu
Vento passar. nessa rua nessa rua tem um bosque. que se chama que se chama solidão.
dentro dele dentro dele mora um
Vento
que roubou
que roubou meu
coração.
ele dormiu,
exausto.
(apaguei a luz)
fui pro quarto e fiz
o mesmo
apesar do buraco que senti quando
sentei o olho no telefone lembrando do lucas.




Aline Bei, O Peso do pássaro Morto, São Paulo, Editora Nós, 2017

XXX



Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte e colunista do site Livre Opinião- Ideias em Debate. O peso do pássaro morto é o seu primeiro livro. Aline Bei participou da 5° edição do Printemps Littéraire Brésilien.



Mariana Keller é nascida em Guarulhos em 1983, trabalha e estuda em Paris. Formada em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, tem formação complementar em fotografia, cenografia e artes visuais. Desde 2013 desenvolve séries fotográficas tendo como tema os Espaços de Paisagem. Em 2016 inicia o master em Esthétique parcours « Téorie Culturelle » na Sorbonne e atualmente cursa a Licence menção « Langues, Littératures et Civilisations Etrangères et Régionales » parcours « Portugais » na Sorbonne.

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