terça-feira, 22 de maio de 2018

O ofegante azul



Plage de Syracuse | Nicolas de Staël |1954
O ofegante azul


Verbal
Poderia ser uma ferida simples
                            um corte menos dolorido
                            um rasgo em madeira de sustentação
Ou uma válvula de suspensão que lembra,
a cada rompimento,
sua resistência

Corte: avermelhado inchado
Sem contato com ar - impercetível
Insiste em calar o descontente
Insiste em ser ferida arrombada
Afere com diligência o comando

Poderia ser uma camada simples
                            um pouco menos dolorida
                            um prego em madeira de sustentação
Ou um desejo de suspensão que lembra,
a cada queda,
sua existência.

Na travessia alimentar
Do prazer,
o incomodo
impera,
testemunha gengiva, dentes.

Poderia ser um corte simples
                          um golpe menos dolorido
                          um parto como madeira de sustentação
Ou uma rota em suspensão
que lembra, a cada secreção, sua essência

e rege,
Impele a mordaça,
acalma, reabre em delicados movimentos.
Da boca ao freio, o imperativo da palavra é refeito.


Faro
7h23
fresta aberta, cortinas

8h31
ouve-se a porta,
tremor em divisas de gesso.
No corredor, fio condutor,
recita-se o coletivo
do odor de frutos do mar,
sem arestas de sol,
ao meio dia, domingo.

A euforia-criança
nas botas da manhã
as tubulações vivas
                         a acumul-ar,
                                        cheiro teso, estridente.
O cheiro da ingestão
                                sem vazão
faz do ambiente sono, sobreposições, camadas
                                                              níveis de trançar no fósforo, acumulo alimentar e dejetos pessoais.
O cérebro tenta
confuso
distinguir          a amálgama,
mescla sua,
partilha nossa.

8h32
Tenta-se escoar os cheiros,
         abre a porta da varanda
-  que veda, com vidro-duplo -
tenta: respirar                          talhando o diafragma
de fora e puxa                         rápido.

8h48
Consegue-se sair dos odores?
Antes
ao tangenciar a rua,
anula,
e
cai em um cigarro aceso,
tosse e atravessa.

Linda Sanchez, S'il y a des moucherons, c'est qu'il doit y avoir des araignées, 2007

Matéria
A palavra
é ampulheta virada,
que transcreve códigos,
perfura estatísticas,
cruza o tabuleiro
e atira dados.

É roldana feroz
assertiva, errante
na corda bamba,
com braços
faz-se trôpega,
repositório sem rumo
nem linha.

Abre letras,
numerais, sentenças.
fecha estilos,
rostos, nuvens
e membros.

No limite
passada a limpo
em papel carbono,
omite a pista e
seda o significado.

Inventário
São vinte ao todo.
São dez na altura do quadril.
São dez na altura do cimento.

Elas têm tamanhos,
                                  formatos,
                            Cores,
               Raízes.

Elas podem ser duras,
        Podem ser macias,
        Podem ser redondas,
        Podem ser quadradas,
        Podem ser ornamentos,
        Podem ser delicadas,
        Podem ser comidas,
        Podem ser moídas.

Elas perfuram espectros,
        perdoam ansiedade,
        perdura empasses,
        provem sabugos,
        provam bagos,
        precisam de poda,
        prescreve brilho.
               
Elas cavam, elas encravam.
Elas,
as unhas,
fiapos de vida,
subscrição de beiras
no trespassar das encostas.



Primavera
No diário canteiro,
o abrigo casca de ovo,
absorve ardores em borras de café,
e tornam rugosas as frutas.

Delicados traços de vento
balançam os cabos intrépidos,
dançam em pêndulos avermelhados.

Arrepiam fagulhas,
e brotam alvas,
gema ao centro,
flores
gotas
polidas de morango.


Anil
Corre,
encobre os ouvidos e
prevê o ofegante do azul.

XXX



Lívia Bertges (1987, Juiz de Fora - MG) apaixonou-se pela literatura quando integrou o grupo Contadores de Histórias do Colégio Metodista Granbery. É doutorando em Estudos Literários no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem - PPGEL/UFMT (Cuiabá, MT) e desenvolve projeto sobre Poesia Visual Contemporânea. Realizou estágio doutoral na Sorbonne Université (Paris, França), onde participou da organização de eventos com enfoque na produção Literária Brasileira Contemporânea. É mestra em Estudos Literários (PPGEL/UFMT) e também em Langues et Cultures Etrangères (Université Stendhal/Grenoble III). Publicou poemas no site Ruído Manifesto e artigos acadêmicos relacionados a poesia nas revistas Outra Travessia, Desenredo, Recorte e eLyra.




Nenhum comentário:

Postar um comentário