terça-feira, 29 de maio de 2018

A Vós, A Voz


« Prendre la parole », Christian Boltanski
A Vós, A Voz
Por Mário Rodrigues *

A premissa de toda escrita é o gesto, não a palavra.
Leonardo Tonus


O Escritor está no metrô de Paris.
          Está em algum ponto entre Porte de Clignancourt e Gare du Nord. Ao seu lado, o Professor da Sorbonne. Em Château Rouge, entra no vagão um grupo de portugueses.
          Os lusos falam baixinho, mas o Escritor reconhece a língua, sua língua. O Professor da Sorbonne lhe esclarece (muitos de seus alunos são portugueses expatriados):
          “Os portugueses que migram para Paris, em sua quase totalidade, têm uma característica: a discrição. Desejam passar despercebidos, não ser notados. A maioria exerce profissão humilde, sem prestígio. Querem ser incógnitos.”
          No dia seguinte, o Escritor vai sozinho à Sacré-Cœur.
          Depara-se com um grupo de jovens alemães. Falam alto, são altos, seus topetes em destaque (graças aos flancos raspados) são altos. Observa os germânicos ostensivamente. Eles não se incomodam em ser identificados como tal. Orgulham-se de sua voz, de seus sons guturais.
          O Escritor se espanta: sua língua, silenciada.

Um corte no espaço-tempo.
          O Escritor está no metrô de São Paulo.
          Está entre as estações Trianon-Masp e Consolação. Ele e seu irmão mais velho vão à Paulista. Não lembra bem fazer o quê.  MASP, talvez.
          O Escritor é ainda muito menino. Seu irmão fala baixinho. Não quer denunciar o sotaque. (Sotaque que não é apenas nordestino, não é apenas pernambucano, não é apenas do interior de Pernambuco, não é apenas do Agreste, mas é do Agreste Meridional. Caso não saibam: aquela mesorregião tem seu próprio sotaque.)
          Escuta os primos mais velhos. Muitos já anularam o sotaque, por isso aumentam a voz. Outros já adotaram o sotaque paulista, emulando o “S” sibilante e o “R” retroflexo dos paulistanos daquele tempo (hoje é diferente). O tom de voz dos primos aumenta de acordo com a ausência de sotaque.
          O escritor se espanta: seu sotaque, silenciado.

 « Prendre la parole », Christian Boltanski


Novo corte no espaço-tempo.
          O Escritor está diante de seu projeto literário.
          Tem uma opção: pode anular seu sotaque. Ou ridicularizá-lo por torná-lo folclórico, pitoresco, novelesco-global. Pode macaquear a voz que o mercado lhe pede, lhe impõe. O Escritor lê a pesquisa da estudiosa da UnB: quase não há autores como ele, do interior do Nordeste, nas grandes editoras do país.
          Há uma escolha a fazer.
          Então, o Escritor lembra do Professor da Sorbonne, aquele da viagem pela periferia parisiense: “A premissa de toda escrita é o gesto, não a palavra.”
          Sim, o gesto precede a palavra.
          Escrever são gestos, posturas, tomadas de posição.
          O Escritor faz parte da geração que não precisou migrar; que não achou natural dizer às mulheres “vá-pilotar-fogão”; para quem homossexuais não são “bichas”; negros não são “crioulos”; índios não são “bugres”; para quem o trabalhador braçal não é apenas “orelha-seca”. Os tradicionais lugares de chancela e as famosas instituições corroboradoras estão, para o Escritor, caducas – superadas.
          Não abrirá mão desta voz: Sua Voz. Não falará baixinho. Não será ele a perpetuar os estratos e as castas.
          Então, faz o gesto. E o gesto é postura. E a postura torna-se voz. E a voz é grave e é alta.
          O Escritor se espanta: assim devem ser todas as vozes.
          Todas.

XXX


Mário Rodrigues nasceu em Garanhuns, Pernambuco. É formado em Letras e especialista em Língua Portuguesa pela Universidade de Pernambuco. Em 2016, venceu o Prêmio Sesc de Literatura, com os contos de Receita para se fazer um monstro (Record). Em 2017, foi finalista do Prêmio Jabuti, com o mesmo livro. Em 2018, acaba de publicar o romance A cobrança (Record). Mário Rodrigues participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien.

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