domingo, 11 de março de 2018

Tainá, estrela amante

Tainá, estrela amante
( mitos  dos índios Karajá)

Por Ciça Fittipaldi


No tempo de Kanamahadô, o primeiro Karajá, certa vez, uma jovem chamada Kurimatutu estava olhando pro céu, encantada,  vendo uma estrela que era mesmo a mais linda, clareando tudo com seu jeito dourado.
Apaixonada por sua beleza, a moça disse que queria pegar a estrela na mão, como flor. Depois disse que queria brincar com Tainá-hekã, a estrela grande, que se balançava, feliz, pendurada no céu.
A estrela ouvia tudo isso, contente.
Calorão do tempo seco, Kurimatutu foi tomar banho na ponta da praia. Praia do Berohoky, rio Araguaia, de areias brancas e quentinhas, onde as tartarugas tracajás vem desovar e onde se esconde, traiçoeira, a arraia com seu poderoso ferrão.
De dia mesmo, o claro da estrela batia no fundo d’água, vinha refletir na superfície, espelhando os encantos de Tainá.
Kurimatutu desejava:
- Ah, como eu queria essa estrela! Queria pra namorar... […]

À noite a estrela veio. Desceu como gente.
Chegou na casa da moça bem no meio do escuro, ninguém podia ver direito.
Chegou muito velho, cabelo branco, pele manchada, faltando dente.
Veio para casar com ela.
Só que quando Kurimatutu o viu de perto, não quis mais. Moça nova, bonita, queria casar com jovem também. Não queria porque ele estava velho demais.
No outro canto da maloca, Myreikó, mãe da moça, deitada na esteira, começou a falar, na sua língua especial, mais puxadinha e cantada que a língua dos homens:
- Esta é a minha casa, a casa das minhas irmãs e seus maridos, das nossas crianças e futuros maridos das nossas filhas... Kurimatutu já tinha um primo para se casar, moço, do jeito dela. Ficou desejando outro!...E continuava:
- Karajá só gosta de casar com gente da mesma idade. Com velho não dá. Velho não aguenta trabalhar. […]

Cedinho, Tainá saiu para pescar. Não tem coisa de comer que Karajá goste mais: pirarucu, que é enorme, a pirarara, muito forte, o matrinchã, o tucunaré, que tem estrelinha no rabo, a traíra e aquele montão de pacu.
Boto, Karajá não pesca. Deixa ele lá, encantando as águas.
Tainá trouxe muito peixe. Era uma coisa descomunal, então, Myreikó mudou de idéia:
- Este velho é grande pescador, ele ainda está muito bom para trabalhar.  Kurimatutu pode casar com ele. Tava desejando tanto...  ele veio.
Mas não adiantou nadinha, ela não quis mesmo.
A segunda filha de Mireykó também não queria, disse que já tinha marido escolhido. E acabou casando com o Hokumari, a cobra, um ser sobrenatural, da “gente do fundo”, gente que mora no fundo das águas.
Loyuá, a filha mais nova, quis. Sentiu ternura pelo velho que desceu do céu.
Então casaram. […]

Depois das festas, Tainá começou a fazer, escondido e sozinho, uma roça grande.
Ninguém sabia o que ele andava fazendo. Saía de casa cedinho, procurava terra boa e mais alta, que não ficasse alagada no tempo das chuvas, quando as águas do Araguaia  e dos riozinhos sobem e invadem as matas.
Loyuá lhe mostrava “haté”, a planta selvagem que, antigamente, alimentava os Karajá. Mostrava “hatamõ”, outra planta menor. Mas nenhuma das duas era muito gostosa, Tainá queria roçar.
Dono do milho era Tainá-hekã. Quer dizer, mais do que possuir, ele  é que conhecia e controlava o seu plantio e o seu uso, assim como das outras plantas cultiváveis.
Ninguém sabia essas coisas ainda. Os índios Karajá nunca tinham visto uma roça. Caçavam um pouco, um caititu aqui, outro lá e pronto. Gostavam mesmo é de pescar. Bastante.
Tainá trouxe as sementes do céu, da sua casa. Lá é que tinha roça grande. Aqui só tinha mangaba, caju, jatobá. Só fruta do mato...
Ele plantou mandioca, milho e abóbora. Batata doce, cará. Urucum, algodão, melancia, um bocado de coisas que antes não existiam. [….]

O casamento com Loyuá era bom. Ela fazia carinho no velho, dormia com ele na sua esteira estendida no chão. Noitadas de calor, ficavam enrolados na esteira fora da casa, na praia, dormindo debaixo da noite estrelada.
O pessoal da aldeia ficou com um pouco de raiva dele porque casou com índia nova, mas ele sempre trazia coisas boas pra casa, carne de caça, frutas, mel, bastante peixe.
E Loyuá gostava muito dele.
Logo tiveram um filho. Depressinha, já estava um menino forte.
Quando Tainá saía para trabalhar, sempre sozinho, o menino ficava procurando por ele, queria ir também.
Um dia, Loyuá e o garoto resolveram segui-lo. Foram se esgueirando entre as árvores, pisando de levinho, sem barulho, para não serem surpreendidos.
Já de longe, Loyuá viu um rapaz muito bonito, alto, forte, cabelo grande, trabalhando na roça.
Ficou assustada pensando que não era seu marido e o chamou.
Tainá respondeu, era ele, sim. Veio pra junto dela e do garoto. Estava muito jovem, a pele lisinha, cabelo comprido e trançado, com uma beleza resplandecente de estrela mesmo.
Quando estava na roça, Tainá tirava a pele mais velha, ficava rapazinho. Deixava a pele velha pendurada, pra usar depois.
Parecia imortal, só trocando a pele que nem cobra.
Estrela demora  muito pra morrer.
Nesse dia, Tainá ficou no mato trabalhando, enquanto Loyuá e o filho voltaram pra casa. De tardinha ele voltou pra aldeia, como velho.
Loyuá dormiu com ele velho mesmo. Fazia carinho, gostava de ficar com ele. […]



No outro dia ele foi pescar. De volta, vinha jovem, cabelo comprido, bem trançado. Vinha com pulseira, liga de algodão nas pernas, brinco de penas, colar.
Vinha todo pintado de jenipapo, com seu diadema de penas de arara e colhereiro que parecia o sol.
Vinha remando, na proa da canoa.
Ninguém o reconheceu…não tinha rapaz bonito como ele na aldeia.
Kurimatutu, aquela moça que, primeiro, queria brincar com ele, ficou olhando aquele moço lindo que chegava. Ficou deslumbrada com a beleza dele.
Tainá chegou na casa, sentou na esteira ao lado da sua mulher, começou a desfazer a trança.
Kurimatutu que olhava tudo, ficou loucamente apaixonada.
De novo, Kurimatutu queria namorar a estrela. Começou dizendo que ele era tão bonito…porque não casou com ela?… e que agora ela queria casar.
Depois disse pra mãe que ía pentear o cunhado.
_ Minha irmã quer pentear você… - Loyuá falava com o marido – Ela quer namorar com a sua beleza.
_ Ela pode pentear meu cabelo de velho – ele respondia.
Kurimatutu queria casar com ele moço, bonito. Queria deitar na esteira, bem junto do cunhado. A mãe não deixava. Kurimatutu insistia, teimava, ficava repetindo a vida toda:
_ “Wanybysò tyby biré karoikre”…Quer dizer:
_ “Pai do filho de minha irmã mais nova, venha para minha esteira”…
Ficou repetindo, chorosa, chorosa, a noite toda aquela choração, até virar kwakwari (quaquarí), coruja pequena, de boca larga e olhos redondos. Tainá- hekã falou então:
_ Pode voar e ficar chorando a noite toda. Você tá com vontade é disso.
Por isso é que esse pássaro canta desse jeito choroso, uh, uh, uh, gemendo sem parar. […]

Tempo depois, as sementes que Tainá trouxe do céu começaram a vingar. O milho estava nascendo que nem rabo de biri, o periquito. Melancia, começando a arrastar.
No outro dia já estava dando fruta doce e no mês novo, tinha tudo pra comer.
Tainá levou o sogro e a sogra para conhecer a roça. Depois levou toda a gente, para ensinar. Ía mostrando e dando os nomes. Rachou a melancia madura e ensinou a comer, tirando as sementes pra plantar. Abóbora também. Mandioca, ensinou tirar o tubérculo da terra e enterrar parte do galho pra nascer outra vez.
- Milho tem que cozinhar para comer – ele ensinava – Quando a espiga secar, a gente debulha e guarda os grãos numa cabaça grande e daí espera o tempo certo pra plantar, antes da estação das chuvas.
Por isso, tem milho na Terra. Tainá deixou tudo isso para os Karajá.
Aí, deu uma vontade doida de voltar pra sua terra. Tava com saudade do céu. Queria ficar espiando a gente lá de cima, ver chegar o tempo chuvoso, da roça cheia e das festas de Aruanã, com suas danças de máscaras de bichos que tem uma banda de gente, máscaras de espíritos sobrenaturais.
A mulher e os filhos de Tainá que nesse tempo já eram mais cinco, viajaram com ele pro céu. E estão lá até hoje. São a constelação das Sete Estrelas, também conhecida como Plêiades. O nome em língua Karajá é Lorobyto, o periquito estrela.
Tainá-hekã é o planeta Vênus, que daqui da Terra a gente vê como a estrela mais brilhante que tem no céu.

xxx


Professeure d’illustration et de Design Editorial à la faculté des arts visuels de l’Université Fédéral de Goiás, Ciça Fittipaldi collabore au Programma des Nations Unies pour le développement et l’éducation des cultures autochtones dans le domaine de la communication et de l’art.  Elle é écrit et illustré plus d’une cinquantaine d’ouvrages sur la question des Indiens et des populations noires au Brésil. Ses livres ont remporté d’importants prix au Brésil et à l’étranger. Ciça Fittipaldi participe aux activités du Printemps Littéraire Brésilien 2018. 

Consultez le programme sur le lien 
: https://www.printempslitterairebresilien.com/











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