sábado, 10 de fevereiro de 2018

O migrante num país em transe


Foto Marcelo Correa

Autor captura a realidade do migrante
num país em transe
                                                                      

A literatura se nutre do real.
          Cyro dos Anjos
                                                                                     
Ronaldo Cagiano (*)

Finalmente chega a Portugal um dos mais importantes escritores brasileiros, cuja obra é um marco na bibliografia brasileira por fazer um recorte da realidade de um país em transformação a partir da realidade de seus personagens, particularmente o migrante nordestino, que em grande marcha desde os anos cinquenta do século passado, deixou o interior agreste e sem perspectivas para tentar a vida e a sorte nas grandes metrópoles.

Já tendo vivido alguns anos em Lisboa na década de 60, Antônio Torres é (re)descoberto em Portugal em dose tripla, com a publicação pela Editora Teodolito, de três de seus principais romances: “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo Fundo da agulha”, trilogia que tematiza esse deslocamento geográfico, temporal e psicológico de seus protagonistas, cujo lançamento aconteceu recentemente na Livraria Ferin, com apresentação da escritora Teolinda Gersão e presença do seu editor Carlos da Veiga Ferreira.


Como assinalou a anfitriã em recente resenha no Jornal de Letras, a obra de Torres é um retrato “de um Brasil profundo, resiliente e vibrante de contradições e contraste, onde o sonho de triunfar na grande cidade se transforma em grande fracasso”. E a figura de Totonhim, o narrador-testemunha da transição porque passam os personagens e o País, é um elo entre o presente e o passado, território físico e afetivo onde deambulam os sonhos, esperanças, frustrações, fracassos e fantasmas de cada um nesse percurso  entre as suas origens e o mundo idealizado da metrópole.

“Essa terra” – um dos mais emblemáticos e aclamados romances do autor –, panoramiza a família pobre e sem horizontes, ao deslindar a figura de Nelo, que mudou para São Paulo à procura de emprego e melhores condições de vida e depois retorna a Junco, seu torrão natal, sem outra sorte, senão o próprio fracasso e as marcas psicológicas e materiais dos impactos em sua vida. Ao voltar, sem eira nem beira, depois de sua mulher tê-lo largado para viver com um primo, tendo sofrido o diabo nas mãos da polícia, suicida-se após uma bebedeira com o irmão Totonhim, vergado pelo peso de seu próprio destino que lhe torceu a corda ao pescoço.



Em “O cachorro e o lobo”, concebido vinte anos após “Essa Terra”, Torres dá sequência à crônica existencial dessa geografia permeada de dissabores e diligenciado por contrastes que se alternam na saga de uma família de migrantes. Aqui, quem toma as rédeas é Antão (Totonhim), cuja experiência igualmente dilacerante, tece no seu inconsciente e no fluxo de suas uma aguda e cáustica observação sobre um destino comum. Preparando para regressar, após o suicídio do irmão Nelo e para comemorar os oitenta anos do pai, encontra um ambiente transformado, que lhe apresenta um cenário de melancolia e puro desalento: “E assim se passaram vinte anos, pensarei, ao chegar lá. Assim se passaram vinte anos sem eu ver estes rostos , sem ouvir estas vozes, sem sentir o cheiro do alecrim e das flores do mês de maio.” Então, depara-se com um Junco diferente, inclusive o progresso sulcando mudanças na cidade, no rosto e na alma pessoas, como em seu pai, que já não o reconhece, e nesse diapasão de interdições,  vão se desenrolando, entre memórias e espantos, recordações da infância, as cicatrizes da ausência, a marca inexorável do tempo em suas vidas e corações.

“Pelo fundo da agulha” fecha com chave de ouro a trilogia desse sutil mapeamento geográfico, existencial e afetivo, focando em Totonho, já aposentado, mas solitário na cidade grande, tendo perdido a mulher, os filhos para a separação, e o melhor amigo. Nessa viagem de retorno, dez anos depois, para rever a mãe, já velha, mas profundamente lúcida e com visão privilegiada que ainda lhe permite olhar o mundo com as lentes ou o farol de sua experiência. Aqui reside a grande metáfora do livro, pois pelo pequeno orifício ela consegue passar o seu fio existencial e resgatar pela memória os tantos tempos de uma vida, sem perder a direção ao remendar o tecido das lembranças. O filho mergulha nessa sombra em que os diversos tempos e nuances da caminhada se interpenetram numa relação simbiótica, em que os paradoxos e possibilidades da trajetória individual (ou coletiva) constituem parte de um discurso narrativo cáustico, mas profundamente humano e poético, em que emerge uma (in)tensa e densa reflexão sobre o nosso destino, a identidade perdida, a procura de nossas raízes e ancestralidade, quando já se aproxima o inevitável crepúsculo, estação de que não se pode fugir.

Ao chegar a Portugal, a obra de Antônio Torres celebra não apenas a vitalidade da ficção brasileira contemporânea, na voz de um de seus mais virtuosos escritores, mas, acima de tudo apresenta um caleidoscópio fiel e sem máscaras de um cenário tão pouco explorado pela literatura em nosso País, ao abordar esse drama tão antigo e que se renova cada vez que a sociedade e o estado entram em crise, obrigando seus filhos a (i)migrarem, seja dentro da própria terra ou atravessando oceanos, para escapar à crueldade que lhes é imposta pela condição política, econômica ou social, como é o ciclo que hoje estamos experimentando.



A bibliografia de Antônio Torres homenageia o que há de melhor na prosa lusófona e também atualiza essa percepção de um país em transição, cujas metamorfoses têm alterado vidas e separado famílias, em busca de uma sorte imponderável e imprevisível noutros sítios. A exemplo de Faulkner, Gabriel García Márquez, Juan Carlos Onetti e Juan Rulfo, que em suas míticas Yoknapatawpha, Macondo, Santa María e Komala reverberaram os conflitos e dilemas próprios do ser, as situações e vivências de sua universal e tolstoiana Junco são encontradiças em qualquer sertão do mundo, pois as histórias desse baiano cosmopolita de Sátiro Dias são especulares dos temas ou tormentos que atravessam a humanidade em qualquer tempo e lugar.

É um ator, como poucos, a exemplo de Amando Fontes, Roniwalter Jatobá e Luiz Ruffato que, peculiarmente, realizam uma investigação literária por meio de seus romances, sobre os deserdados, os insularizados, os deslocados e proletários de todos os tempos e lugares que habitam nossa história como povo e nação.

XXX


(*) Ronaldo Cagiano nasceu em Cataguases (MG), formou-se em Direito, morou em Brasília e São Paulo e vive em Portugal. Colabora em diversos jornais e revistas. É autor, dentre outros, de “O sol nas feridas” (Poesia, Ed. Dobra – Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012) e “Eles não moram mais aqui” (Contos, Prêmio Jabuti 2016).

Um comentário:

  1. Gostei muitissimo das novidades sobre Antonio Torres, escritor entre os grandes que me inspiram sempre à leitura.

    Ranieri Caetano - Bahia

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