segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Deputado Odorico



Deputado Odorico


 Carlos Eduardo Pereira

O deputado federal Odorico Magalhães Pederneiras (um republicano, da coligação PHC/PMS/PPBdoB, além de outras sete legendas, não menos representativas do povo brasileiro, e do grande estado do Amapá, em especial a querida gente de Laranjal do Jari, no Magazão, verdadeiramente honrado pela confiança nele depositada, e orgulhoso dos quase quarenta mil votos, a votação mais expressiva da história, em primeiro mandato), trancado em um banheiro da sua residência, no Setor Noroeste, SQNW 309, em Brasília, DF. Com ele, apenas o assessor Capitão, conterrâneo, raposa velha de Pedra Branca do Amapari. Na sala de visitas, dona Janete Avelino, esposa do deputado, que é neta de Valdenor Fernandes Avelino. Ela ajeita um quadro na parede, que teima em ficar torto, ao mesmo tempo em que oferece a terceira rodada de café ao detetive Paranhos, que, cumprindo à risca o combinado, antes de se fazer anunciar, deixou lá fora, com o colega de turno, na viatura descaracterizada, seus óculos escuros e seu colete da Federal. Sem qualquer tipo de identificação, acreditamos quando diz bom dia, meu nome é detetive Paranhos, eu vim pra acompanhar sua excelência na agenda prevista pra hoje. E com isso acreditamos mesmo que ele é ninguém. A filha do deputado Odorico, Patrícia Avelino, encontra-se recolhida a seu quarto, desde a madrugada, quando chegou, vinda de uma festa privê em casa de amigos, escoltada pelos seguranças particulares. Ela tem vinte e três anos, a idade do estagiário Raimundo, um sobrinho do assessor Capitão, matriculado no segundo período de Direito na Católica e que, de uns tempos para cá, vem se tornando elo de confiança absoluta na dinâmica cotidiana dos Avelino Pederneiras e, no presente momento, é o único autorizado a circular livremente pelos cômodos da casa, na medida da necessidade.
O deputado Odorico Pederneiras, junto com o assessor Capitão, repassa detalhes importantes para a maratona de compromissos do dia: primeiro, o café da manhã com a liderança do partido (e com autoridades do governo, que convém não identificar), em um local a ser anunciado trinta minutos antes das oito, em ligação para o telefone celular número quatro; depois, o gabinete do nobre senador Toninho do Posto, representante da oposição (entrando pelo prédio anexo II, no acesso B, portaria de trás); dali, ao plenário da Câmara, para o pronunciamento; ao final, seja lá como terminar a coisa toda, os advogados do escritório Cavalcante, Meyer & Castro, e o detetive Paranhos, que a essa altura já terá encaminhado a mala com os documentos das empresas internacionais com as gravações das conversas, e com outras coisas, para os seus superiores.
O deputado Odorico pergunta ao assessor Capitão se está tudo em ordem, se não acha melhor ficar com as mãos livres para ir recebendo folha por folha do discurso, conforme a leitura. Discurso impresso em papel branco, fonte tamanho 16, espaço duplo entrelinhas, para enxergar com mais clareza, pois não parece adequado se apresentar em público, ainda mais em um momento como esse, usando óculos. E o assessor Capitão concorda dizendo ok, Odorico, eu consigo apoiar a plaquinha com as palavras de ordem na base da bandeira nacional, logo atrás de onde você vai discursar ao país, de um jeito que as câmeras, obrigatoriamente, estarão registrando, de forma que fico sim com as mãos livres pra ir pegando, uma por uma, as folhas do discurso, não se preocupe com nada além da sua performance.
Ambos revisam o texto, lido em voz alta pelo deputado Odorico, de dentro do Banheiro Imperial, o melhor da casa, devido à sua acústica impecável. Interrompendo a leitura de tempos em tempos, corrigindo o tom da oratória, substituindo uma palavra por outra, o deputado Odorico perguntando tem certeza, Capita, que é a mesma coisa se a gente evoca abolitio criminis ou absolvição sumária? Parando o cronômetro a cada interrupção para consulta, porque é aconselhável sustentar um ritmo (em média) de quarenta e dois segundos por frase. Acentuando-se as pausas quando for conveniente. Acelerando um pouco em algumas partes, pontuando outras com toda calma.
Agora, os procedimentos necessários, essenciais, em favor da democracia. Os dois então passam a checar se o contraste entre os tons de cinza – do paletó, da camisa e da calça –, formaram mesmo uma combinação entre o sóbrio e o elegante, e se acertaram no caimento. Se os sapatos pretos estão adequadamente engraxados. Se o broche dourado está bem preso à lapela direita. Se o nó italiano da gravata de seda foi dado de forma correta, como ensinou dona Janete. Se o bigode está bem aparado, medida fundamental para disfarçar o nariz adunco, que se tornou famoso. Se o creme suavizador das olheiras dos últimos dias cumpriu devidamente o seu papel. Se o penteado está bem composto, capaz de camuflar as orelhas nem tanto de abano, mas pontudas, maiores em tamanho do que o normal das orelhas humanas. Se o microfone a ser utilizado vai ser de fato o da bancada do centro, porque assim não se corre risco de um ângulo desfavorável frente as telas da tevê.
O assessor Capitão lembrando o deputado Odorico dos movimentos de articulação. Dizendo cuidado com os plurais, Odorico, muito cuidado, não se pode escorregar nos plurais, o mesmo vale pras aspas, lembre de dizer abre aspas, na hora que nós combinamos, isso é fundamental, e evite aquela sua mania de gesticular com a mão direita, aquele dedo em riste que você tanto usa em seus comícios, às vezes chacoalhando pra tudo que é lado, às vezes apontando pra alguém na plateia, não me faça uma bestagem dessas, outra coisa é o sorriso, eu sei que é sua marca registrada, que o resultado do clareamento ficou bastante bom, mas não sorria, Odorico, não improvise, faça tudo como a gente ensaiou. Lembrando também que vai haver casa lotada acompanhando o pronunciamento, que vai haver gritos e interrupções exaltadas, que o posicionamento dos colegas presentes pode variar de forma repentina, que a ilustre deputada Professora Solange, seguramente um bom termômetro da audiência, pode até se levantar e deixar a sessão antes do fim, o que talvez seja um bom sinal, que o deputado Odorico não se abale se isso acaso acontecer.
Estão nessas tratativas quando o estagiário Raimundo adentra o Banheiro Imperial, com o telefone celular número quatro em uma das mãos. Ele aguarda uns instantes até que sua presença seja oficialmente percebida. Então limpa a garganta uma, duas vezes. Segue-se um breve silêncio. O deputado Odorico e o assessor Capitão dão-se a última olhada nos olhos. Suspiram cada um de sua parte, praticamente ao mesmo tempo. Depois se beijam. Não o beijo-estalinho automático das outras ocasiões, mas um beijo demorado.

xxx


Carlos Eduardo Pereira nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1973. Cursou História na UFRJ e Letras na PUC-Rio, na habilitação Formação do Escritor. Acaba de lançar, pela editora Todavia, Enquanto os dentes, seu romance de estreia.

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