sábado, 3 de fevereiro de 2018

Apaixonadamente, amo e odeio perdas


Apaixonadamente, amo e odeio perdas


Leonardo Tonus

Quando você acorda pensando em encontros literários. E nos debates que neles surgem. E que, por vezes, se encaminham na direção de um questionamento blasé. Lembrando aos que com este termo não estão familiarizados. Oriundo do neerlandês blasen, o vocábulo sugere um inchamento  decorrente do abuso de fortes licores que nos torna insensíveis e indiferentes a vivas emoções. Ao ódio. Ao amor.  À paixão. À paixão pelos livros.

Sou um homem de paixões, à moda rawetiana. À moda daquele que tudo amava e tudo odiava.  Apaixonadamente, segundo as próprias palavras do escritor. Sou rawetiano. E por isso amo cachorros. Odeio hipocrisia. Amo amigos. Abomino o clientelismo. Amo meus estudantes. Meus familiares. Meus livros. A pele do pêssego.  E encontros literários. Mesmo em seus questionamentos blasés. Sobre aparatos críticos. Procedimentos de escrita. Sobre as nossas paixões livrescas. Sobre meus livros de cabeceira. Aqueles que teriam inaugurado este périplo. De escritor. De leitor. De professor. Um périplo que, no entanto,  nunca se esquece da inútil existência do homem comum. 

Em tais circunstâncias nunca sei o que responder. Mas evito procrastinações.

Opção um, permaneço  entre homens e mulheres de boa companhia.  Kafka. Clarice. Proust. Balzac. Genet. Não, definitivamente.  O santo traidor francês, como diria Sartre, não condiz com as regras impostas pela boa conduta  literária. Seja ela qual for. Opção dois, volto aos meus amores. Papillon. Sidney Sheldon. Turma da Mônica. Vila Sésamo. 

Dos ohs ! e ahs ! que me asseguram um lugar confortável no campo do espetáculo socio-intelectual despenco para um pifff desiludido que, no entanto, me aproxima daquilo que me define : fome, sede, cansaço, alegrias, amor e o banal das dores. E das perdas. *

Dores e perdas constituem o fio condutor do livro que acabo de ler. 

O peso do pássaro morto de Aline Bei relata a vida de uma mulher. Uma vida banal dos 8 aos 52 anos. Desde as singelezas cotidianas até as tragédias que persistem. Uma geração após a outra. Uma perda após a outra. A começar pela própria linguagem lisual, segundo a terminologia do crítico David Gullentops. Pela lisualidade textual evidencia-se no romance o confronto entre o lisível,  o visível e o visual.  Pela arquitetura visual do discurso narrativo emerge no processo de leitura a experiência cognitiva de uma sensorialidade que nos obriga, a nós leitores,  buscarmos o significado do texto para além do texto.

Nas brechas do diálogo entre os recursos visuais e linguísticos surge ao longo do romance o desconforto de leitura que anula qualquer experiência blasée.  Do desconforto emerge um mal-estar. A vertigem que me leva a agarrar as bordas da cama. Como durante minha última crise de labirintite. Que me empurra para fora da poltrona. E dos seus macios estofamentos. Direto para chão. Lá onde devo ficar. Onde nós leitores que recusamos o consenso devemos nos posicionar : no dissenso crítico com,  para e perante o mundo. O dissenso que provocam também a dor das perdas. E que  em nada têm de misterioso, como já afirmava Elizabeth Bishop.

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério.



                                                       XXX


Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte e colunista do site Livre Opinião- Ideias em Debate. O peso do pássaro morto ( Editora Nós, 2017) é o seu primeiro livro.

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