segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

FRÊMITO pAris


FRÊMITO pAris

Natasha Centenaro

         Aliás, se todo o lugar-comum acontece na repetição, Paris é, sem dúvida, o efeito bem produtivo de um imaginário que me precede. E provoca. E como expressar as provocações incitadas por esse lugar-comum de cidade-luz? Repito, até se tornar o meu lugar-comum, Paris é a cidade-som. A cidade-ruído. Paris é frêmito. Essa ideia foi gestada e replicada antes de mim, redundância. Então, nessa minha vez de falar sobre os seus barulhos, escolho o que ressoou em mim, dessa Paris que me foi possível escutar.
A música de um jovem compositor e violinista brasileiro, Kalie Akel, me permitiu outra escuta de um mergulho particular. O barulho do vapor saindo da panela de pressão me fez ouvir e perceber como uma relação acontece num domingo – o domingo de cozinhar feijão. E o refrão de mulheres com camadas, porém sem casca, me fez imaginar essa música-toda que só é possível de ser ouvida por nós, as mulheres com tantas camadas.
         FRÊMITO pAris é uma série de poemas em texto, vídeo-poemas e áudio-poema, nessa saborosa mistura de linguagens e suportes. Esta é a primeira parte de uma escuta.
 Dos três movimentos de mergulhar 



Como fazer feijão novo em Paris ou
como comprar feijão preto em Châteu Rouge

para Akel Fares Akel
A receita do feijão novo nosso de cada dia
é uma receita muito simples
O que importa é o feijão de molho e a
pressão da panela a espantar mau-agouro
Feijão só é feijão se for feijão do dia
nem requentado nem repetido nem ajeitado
de segunda para quarta guardado no pote
de sorvete da geladeira de sábado
Feijão é feijão novo e é novo porque do novo
se pode pescar o gosto do louro em meio ao
caldo grosso de grão cebola-roxa alho fresco e cheiro-verde
Cheiro-verde! Ah esse cheiro de floresta
que o desinfetante de pia tenta imitar e o amaciante
promete recuperar nas fibras do tecido
O cheiro-verde da floresta dá o ar de novidade
para o feijão com pimenta-do-reino e sem sal
- Sal pra quê? - Ele pergunta sabendo a resposta
Diante de quem não cozinha sal com feijão
o samurai pede ao mestre missô com legumes e grão-de-bico
O sal só distrai os que têm acostumado
no céu-da-boca a companhia do mar
Pois ele prefere sem sal e ela tem no armário
aquele vidro com tampa de pinguim
desde o último ano de faculdade
Saleiro sem sal e um sofá que aberto
leva ao Japão e a algum lugar perto da Bulgária,
mas eles também não sabem
Apenas que não gostam de sal, fazem feijão novo
no domingo e retornam o encosto do sofá de camurça
amparado numa parede branca de uma segunda-cinza
Será que na Bulgária o sal é como cravo-da-Índia
ou como a batata frita da morte em drive-in?
Eles também não sabem, mas parece que lá
falam uma mistura de árabe com polonês
e o nome da personagem do filme vai ser
o mesmo nome da moça que atende na feira
de terça, sexta e segunda à tarde
Na mesma rua em que se vende o feijão preto
(pode ser fradinho ou lentilha ou feijão carioquinha)
o louro a peruca de 10 euros o amendoim torrado
o relógio Made in China a bolsa Vitor Hugo Made in Indonésia
e o cachorro a pilha que late e balança o rabo
porque lá tem de tudo o que tem no Brasil também
No mesmo prédio em que as escadas são casas de pomba
e o corrimão separa portas azuis e tapetes vermelhos
Seis andares e no primeiro os vinte e três degraus
se abrem em vertigem para que o looping da descida
seja esquecido no cansaço da subida
Estamos em Château Rouge, esse organismo Paris-África
- Aqui é o bairro congolês - Ele me diz
Todo o movimento da feira, da panela, da subida-descida,
da faca na tábua de madeira e a cebola-roxa no azeite
fritando gosto de cheiro-verde e queimando o fundo
da frigideira foram para honrar o altar
do feijão novo nosso de cada dia
feito num domingo de água na janela e abrigo no chão
ou uma taça de vinho meio cheia porque meio bebida
Mesmo que o nosso seja o domingo do feijão novo
da receita simples e mesmo que falte
a folha de louro a boiar na panela de pressão
Mesmo que ele coma de colher e ela não tempere com sal,
mesmo assim foi o dia do pensamento que
usa óculos embaçado e não consegue, por isso, pensar
Mesmo assim aquele foi o domingo do feijão
novo nosso de cada dia
O problema é que o tempo não é relativo
e quem sobe as escadas, segura-se no corrimão,
pisa no tapete e entra no banheiro não é
quem faz o feijão novo ser novo e nosso de cada dia
Pois que seja o nosso de cada dia esse
novo feijão enquanto a concha ainda não-comprada
venha a ganhar espaço entre facas de cabo de alumínio
e copos do homem-aranha
Pois que seja da ironia de um tempo não- relativo
de uma segunda-dupla e com sotaque de repetição
de não-ditos uma corda esticada de um domingo
de feijão novo nosso de cada dia
Pois que seja feito este novo arranjo
e o feijão novo nosso de cada dia se torne
a comida oficial do domingo
C’est dimanche à Paris

Paris, outubro-novembro de 2017

camadas de uma mulher sem casca


a primeira camada-refrão está entre a
pálpebra e o movimento de treinar o
olho ainda não-preparado à luz

assim como o silêncio é a nossa
língua-natural, a escuridão é a
mãe de todos os sentidos

porque a ela, facilmente,
nos acostumamos

nossas pupilas se dilatam em cinco
em dez em quinze segundos

já a segunda camada-refrão
depende de qual estímulo
somos vítima primeiro 

há os que nascem-falando
há os que nascem-caminhando

e há as mulheres
as mulheres que se tornam
mulheres e são música-toda

música de muitas camadas para
um mesmo refrão sem-harmonia:
do prazer de ser e da dor de estar-estando-se 

porque dói ser a causa de todo o mal-estar
e ainda tornar-se da mulher que
se está-estando para ser a mulher,
aquela do desejo de ser

o mal-estar do mundo de Eva de minissaia
e de Pandora, a bêbada
o mal-estar de Maria violada pela fé
e de Joana, a bruxa queimada
mas Maria e Joana são de fé

[a Geni também]

de que fé elas são?, pergunta o
que nasceu-falando
não sei, mas precisamos prendê-las,
responde o que nasceu-caminhando

falta a casca para Maria e Joana
sobram camadas de Pandora e de Eva

para as mulheres sem casca a terceira
camada-refrão escorre pelas pernas
e bagunça a paleta de cores do sistema
com uma aquarela-mais-viva e
pegajosa  do que tinta-a-óleo sobre tela

calma! não há com que se preocupar,
é tinta que a água lava
lava e leva as camadas de
aquarela-viva de mais um período

daí que nos chamam de boas atrizes
descamamos descascamos
descabelamos desacordamos
nos despedimos de nós mesmas 

o problema é que atribuem para nós,
 as mulheres sem casca, infinitas
camadas-refrão ou quase só refrão: 

é verdade que queremos uma cozinha
bem grande para cozinhar pães

é verdade que queremos um espelho
enorme na sala - a sala-de-estar
[pois adoramos receber visitas]

e é verdade que não vivemos sem nos
enfeitar, só mais um acessório por favor

somos feito árvores-no-outono-descamado,
com raízes no inverno-desacordado
e caules-de-primavera-descabelada

para chegar no verão sem casca é
preciso muita, muita seiva vermelha  

as mulheres sem casca
atravessam camada por camada

mas esse refrão é nosso 

Esse REFRÃO é nosso
Esse REFRÃO é nosso
Esse REFRÃO é nosso
Esse REFRÃO é nosso

Das mulheres sem casca
e com todas as camadas
  
Paris, setembro de 2017



Gratidão, criativa e afetiva, às artistas e aos artistas parceiros(as) desta série:  Kalie Akel, Maria Helena Sponchiado, Franciele Aguiar, Akel Fares Akel.

xxx

Natasha Centenaro é jornalista, escritora, mestra em Letras – Escrita Criativa e doutoranda em Teoria da Literatura (PUCRS / CNPq). Desenvolve pesquisa sobre a representação paterna na literatura brasileira contemporânea. Integrou a coletânea do Prêmio Lila Ripoll de Poesia 2010. Vencedora do Prêmio Literacidade 2014 Jovem autor com o livro de contos Aquela e outras mulheres. Seu romance-peça Histórias de silêncio para encenar foi finalista do Prêmio Sesc 2015. Para teatro, destacam-se O retrato de Laura, esquete vencedora da Casa de Cultura Mario Quintana e a colaboração na dramaturgia de Sonhos [Im]possíveis, peça premiada em diversos festivais no RS. Tem textos publicados em antologias e revistas. 


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