quarta-feira, 29 de março de 2017

Rencontre luso-brésilienne

Rencontre Luso-brésilienne
Leonardo Tonus

Toutes les civilisations anciennes s’accordaient sur un même point : l’étranger était un hôte. Or, depuis la crise des migrants et  les attentats en Europe, un sentiment d’insécurité s’est installé dans nos  villes transformant l’hôte en un  être indésirable qu’il faut éloigner. Les enjeux de la fraternité, de l’égalité et de la liberté, sont au cœur de nos valeurs républicaines. Et pourtant, les événements tragiques de ces dernières années, voire d’hier, nous rappellent que l'intolérance, le racisme, l'antisémitisme et les radicalisations identitaires s'intensifient chez nous et de par le monde.  Qu’arrive-t-il à nos sociétés ? A l’heure où l’on criminalise le «délit d’hospitalité» ou de «solidarité», à l’heure de l’individualisme, de la peur de l’autre, de la concurrence exacerbée entre les individus, des injustices flagrantes tant économiques que sociales, du repli sur soi et du communautarisme, le vivre-ensemble, a-t-il encore un sens ? 


Lorsqu’Emmanuel Kant écrit sur l’hospitalité, les Etats-nations étaient en train de naître et l’argumentaire n’était pas celui de la fermeture des frontières. Si depuis la définition de la nation s’est stabilisé, de nos jours, plus personne ne sait précisément ce qu’est une nation. La seule façon de remplir ce signifiant semble être une pensée nationaliste qui divise entre «nous» et les étrangers. Comment alors réapprendre le vivre-ensemble ?  Comment ne pas mourir tous ensemble comme des idiots, comme le disait déjà Martin Luther King ? Comment établir un dialogue, ne serait-ce que luso-brésilien ? La littérature peut-elle encore apporter une réponse à la crise des valeurs que connaît le monde ?  


Vous n'étiez pas présent hier soir pour la rencontre littéraire luso-brésilienne avec Rui Zink, Marcia Tiburi et Rodrigo Ciríaco !

Écoutez ou réécoutez la conférence en cliquant sur le lien ci-dessous :



segunda-feira, 13 de março de 2017

Vidas minúsculas

                               
                             
                              Vidas minúsculas

Franklin Carvalho


Elemento ar

Soltava de vez em quando um suspiro que a desmontava, como se expulsasse do peito um anjo gordo:
- Ahhhhh (não havia pontuação ao final, não havia final, apenas o imaginávamos, mas o suspiro a aliviava, alma descarnada partindo num sopro, para sempre!)
E o desafogo, assim à vontade, não constrangia aquela dona, que sequer sentia ter bafejado. Continuava a conversa e coçava o quadril com as unhas grandes, ou com estas mesmas unhas partia os cabelos ralos e longos, expondo o couro da cabeça, quase azul de tão branco.
Em pé junto ao fogão praguejava contra a vida - essa roupa justíssima -, perdendo a vista entre os frascos de tempero. Quando coava o café, tragava-lhe o primeiro copo sob as auréolas da fumaça de um cigarro.
Depois que ela morreu, foi na minha cozinha e não na sua que a vi, no vidro de azeite quase cintilante, no frasco de pimenta que mesmo ardida mofa, e na prateleira repleta de rótulos vencidos. Chorei sobre a pia de pratos, lembrando de quando cozinhávamos, do óleo daqueles anos cheios de amigos. Chorei? Nem senti. Suspirei? Não vi. Não era eu, não estava ali.



O sono da razão

Ismael às vezes dorme. Aguenta um dia ou outro sem beber, sustentado por uma réstia de fé que atravessa a sua visão, e vara as longas horas das noites sóbrias como um santo faz penitência.
Nem planeja essas raras abstinências, mas as julga necessárias e bastantes, nas vésperas de visitar a mãe ou de tirar documento, ou de encontrar com médico. Simplesmente deita calado e adormece por um tempo o corpo de cinquentão gordo, inchado pela bebida de prática ordinária.
Ele tem seus pudores: no geral do cotidiano, disfarça a contumácia alcóolica que o devora e talha seus recursos. Trabalha duro numa loja escura, é amável com os vizinhos e jamais aparece nos bares do centro da cidade, onde mora. Compra longe as suas garrafas, e as leva escondidas para casa, metidas em sacos de cereais.
Mas mais estranho que Ismael são suas noites lúcidas que demoram a passar.
Em uma hora tardia, quando o último vagabundo do bairro desiste de proveito, e os ladrões se aquietam e as putas roncam sobre seus amantes verdadeiros, os que não têm dinheiro e dormem suados, e os padres do mosteiro ainda não acordaram para as laudes, e os porteiros de edifícios cochilam com o chiado de rádios roucos, nessa hora Ismael desperta insone.
Ele vem de sonhos confusos, os olhos miúdos esmagados pela imensidão escura que é o quarto, e está desarmado, nenhuma bebida. É uma vigília, um tributo.
Cheio de medos, senta-se na cama e espera pela volta de sua alma, que ainda vaga entre os ratos, na lama das tortas e imundas ruas do centro, do seu sonho, do centro, do seu sonho.
Além de ouvir nossas vozes, que nele falamos e o confundimos. Não dorme mais.

Ruídos

Tia Anita,  nós a sós no sofá em seu apartamento, explica que os ruídos no teto, as moedas que quicam, os passos no andar de cima e o som de móveis arrastados não são coisas dos vizinhos, mas tentações do além, a nos seguir aonde formos.
Mudamos de posição e lá no alto sentimos cair um peso – dito e feito!, na parte onde paramos. Fomos ao meio da sala, e logo algo estalou sobre o lustre. Cada qual tomou outro posto, pois, e o inimigo em dois se rendeu.
-Outro dia subi e falei com o casal do quinto andar. Ela  é  professora, é fina pele de pêssego,  dorme cedo, não ouve nada. O marido é argentino, músico e cozinheiro, vadia à noite, e o dia inteiro não aparece. Só agrada a moça se ela ameaça ir embora. Mas o pandemônio no prédio é o que pesa de vidas passadas. Ou futuras, eu não sei.
Olhei as rugas precoces da minha tia, cinquentona e solitária, amante do silêncio, a TV desligada. Após uma pausa, mirou o teto como se céu fosse:
- O além cabe aqui dentro, menino, se escora nestas paredes, venta as cortinas, sacode as esquadrias. O além só não me varre a casa. Mas de tudo faz um pouco, e muito bem.



Valores

Não conheço ninguém na Vila do Canto da Ema. No entanto, quando passei a pé, cruzando o chão seco de suas ruas sem sombras, uma velhinha miudíssima, acocorada ao longe, gritou:
- Oi…. Já casou?
- Nããããããõooo…. - Respondi, aceitando uma amizade eterna, que terá só esse histórico de conversa.
Continuei fugindo do calor do meio-dia, e não disse à velha como fui parar ali.
Viajava de ônibus para a cidade vizinha mas perdi o dinheiro.  Sem passagem, sem condição, sem condução, desci no meio do caminho. Já casou? Não, por isso viajo sozinho. Que lugar é esse, meu Deus, de rio de lama rachada, de asfalto torrado e duro, de gente que espia da janela o fulano perdido? Falei com os nativos da vila e contei a minha história, e aceitei uma cédula emprestada, e prometi voltar para devolvê-la. 
Então parou um carro repleto de estranhos e o motorista, simpático, se disse meu parente remoto e falou de convívio antigo.
- Sim, sou eu – Associei-me.
Após deixar na Ema o dinheiro que me confiaram, parti daquela terra árida. Voltei para casa ouvindo os hinos religiosos que o povo do carro entoava, com a sensação de tarde perdida, passada num lugar perdido, de uma hora em que Deus me viu despido, transpassado. Deus na glória, no céu, e eu com a boa vontade dos homens.

Carreira e prestígio

Vestia a mesma condição da infância: a pobreza, velha chaga, apesar de ter juntado algum dinheiro. Trajava-se mal e mal, com roupas tronchas como tiras repuxadas no dorso e nos quadris, e não gastava um tostão nos minuciosos e dolorosos tratamentos que quando não curam o corpo, a pele e o cabelo, ao menos lhes adiciona o brilho sedoso da seiva do papel moeda. Advogada sim, esforçada, mas no que cuidava de estética tinha mínima autoestima.
Era antes de tudo econômica. Comia neste restaurante e onde fosse mais barato, e achando os fartos pratos feitos dilatava a fita da cintura. Comprava revistas femininas mas não sabia virar as mulheres da capa, quase as mesmas mês a mês. Desavisada, dava-se aos refrigerantes gasosos achando neles seu maior gozo diário.
Não tinha amigos nem namorados, e o que é pior, nem colegas nem parceiros nos jogos sociais que satisfazem os interesses da advocacia. Falava apenas com as garçonetes que, honestas, tratam mal todos os clientes.
E por que me lembro tanto daquela dona que vinha aqui, nessa pocilga onde avio o jogo do bicho para o pessoal do Tribunal de Justiça? Só porque ela me dava seu jornal já lido, todos os dias, para eu passar a vista depois do almoço? Porque comigo uma vez, numa tarde de céu de chumbo, nós presos na chuva, me contou das bonecas quebradas e riscadas e imundas do seu tempo de menina?
Porque estou com saudades ou ciúmes da gorda que – soube agora mesmo – sumiu por ter se casado? Não, não é isso, e faz apenas duas semanas que ela não aparece. Mas me preocupo e indago se o seu marido (um pé-rapado da Xerox do Fórum) saberá amá-la e respeitá-la.
Aqueles olhos melancólicos se escondiam nas bochechas cheias de feijão. Aqueles olhos mudos e tristonhos se afogavam no mar de cabelos desgrenhados, que quase gritavam quando ela mastigava. Comer era a sua forma mais dolorosa de chorar.



Xxx




Franklin Carvalho é jornalista, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho e assessor de imprensa do Tribunal do Regional do Trabalho. O baiano é autor de dos livros de contos independentes “Câmara e Cadeia” (2004) e “O Encourado” (2009). Em 2015, recebeu o 2º lugar no Prêmio de Jornalismo Barbosa Lima Sobrinho - Direitos Humanos, da Seção Bahia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA), na categoria Webjornalismo. Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), o mais importante do Brasil para autores inéditos na categoria. Franklin Carvalho participará da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien em Paris. 


sábado, 11 de março de 2017

Como aprender a amar

Como aprender a amar
Simone Paulino

“Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar.”
Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres


Amar, eis uns dos verbos mais difíceis de conjugar. Pois em geral confundimos amor com desejo, amor com necessidade, amor com segurança, amor com egoísmo, amor com medo.

Existe amor em Clarice. Mas na gramática clariceana, assim como a felicidade fácil não aparece, muito pouco ou quase nada encontraremos de amor romântico açucarado. O amor em Clarice é sempre algo mais latente e complexo. Um amor quase sempre conseguido a duras penas.

No livro Água viva, a personagem diz: “Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor”, admitindo para si mesma a sua falta de desenvoltura e sua necessidade de aprender a amar, de se iniciar na arte dos amores difíceis, conduzida pela mão de alguém mais apto, exatamente como Clarice parece querer nos conduzir.

Quando desisti de estudar Clarice na universidade, tive que escolher outro autor, como acontece com quem abandona o amor verdadeiro contra sua própria vontade e precisa aprender a amar uma outra pessoa que a vida coloca no seu caminho.

Na impossibilidade de estudar Clarice Lispector, estudei João Antônio. Um grande, mas pouco conhecido escritor brasileiro, que já foi chamado de “poeta dos escombros”, por ter retratado como ninguém as dores das camadas pobres da sociedade brasileira.

Durante parte da pesquisa realizada no acervo do autor, que está na Universidade Estadual Paulista (UNESP), na cidade de Assis, interior de São Paulo, encontrei entre os livros que pertenceram a João Antônio, um livro de Clarice, autografado. Nele estava escrito: “João Antônio, este livro é para aprender a amar. Você já sabe. Da sua, Clarice”.

Foi um momento de forte emoção encontrar aquelas palavras de Clarice para João. Um espanto ver ali unidos dois autores que me ensinaram tanto da vida. João Antonio me mostrando o que é viver ao rés do chão, e Clarice me mostrando a que alturas é possível chegar.

O fato é que, desde a descoberta do livro autografado, o romance, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, ganhou um significado muito maior para mim, em especial pela fala cristalina de Clarice ao classificá-lo como um livro “para aprender a amar”.

Clarice, sem meias palavras, explicitava ali a “intenção didática”, digamos assim, que havia por trás das suas palavras. E eu, como boa aluna que sempre fui, me coloquei na postura de quem desejava ardentemente ler para aprender.

Mas a verdade é que uma parte de mim não queria amar. Acreditei, desde muito cedo, que entre amar e ser amada, a melhor escolha era ser amada. Havia uma intuição muito fina de que amar era sinônimo de sofrer. Então, o mais inteligente, me parecia, era não amar. Como Lóri, a personagem do livro, talvez eu achasse até então que “eu te amo” fosse “uma farpa que não se podia tirar com um pinça”, que amar fosse “a farpa na parte coração dos pés”. Amar, uma dor. Então preferi não.

, até que amei.

No livro Uma aprendizagem, Ulisses ensina Lóri a amar, dizendo entre outras coisas: “Eu já poderia ter você com meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar”.

Eu, de minha parte, não sei se me faltava corpo ou alma para amar. Talvez, tudo já estivesse ali, pronto, à espera. Do quê? “O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão”. É o que diz Clarice (ou a personagem G.H.), já dona de algum entendimento, já de “alma formada”.

Talvez o amor já estivesse ali, faltava eu.

Mais tarde, em algum lugar, escrevi que o amor é quase sempre um erro de interpretação. E foi um espanto, quando, mais tarde ainda, li outra frase reveladora de Clarice: “Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente”.

Assim como passei a amar Clarice quando deixei de lado a pretensão de entendê-la, acho que só pude amar quando desisti de entender racionalmente o amor, quando abandonei os cálculos e aceitei o mistério e o risco.

Sim, porque amar é um risco. Em pleno dia, também se ama. E o amor pode sim estar ali na esquina, à espreita, à espera. Como saber? Acreditando que “é só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber” e que “por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece”.

Xxx



Simone Paulino é  jornalista, escritora e editora. Com mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP – Universidade de São Paulo, escreveu vários livros. Entre eles, o infantil O sonho secreto de Alice, o livro de contos Abraços Negados, e o gift book Minha Mãe, Meu Mundo, com mais de 400 mil exemplares vendidos. Participou das antologias Grafias Urbanas, Histórias Femininas, Olhar Paris e Escrever Berlim.  Desde 2015, colabora na realização da Primavera Literária Brasileira, promovida pelo Departamento de Estudos Lusófonos, da Université Paris-Sorbonne. Como Clarice Lispector pode mudar sua vida (2017, Buzz Editora) será lançado durante as atividades do Printemps Littéraire Brésilien 2017.



segunda-feira, 6 de março de 2017

A Galinha dos ovos de outro

Chambre 237, Christopher Chiappa

A Galinha dos ovos de outro
(Avareza)
Andrea Nunes

Jussara bateu com mais firmeza na porta do casarão sombrio que ficava na parte alta da rua. Conferiu discretamente o endereço que pesquisara, e concluiu que só podia ser ali mesmo, naquele fim de mundo.
Ajeitou o xale cafona por sobre os ombros e se preparou para incorporar sua nova personagem assim que a velha atendesse a porta.
Com uma folha corrida que intercalava atuações em peças medíocres, fugas de agiotas e detenções por estelionato, Jussara acreditava ter sido uma grande sorte ter sabido da história de dona Suzana, uma velha solitária que estava causando sensação na cidade. Suzana, diziam os vizinhos, enriquecera subitamente após a aquisição de uma misteriosa galinha, e passara a gastar em poucos meses mais do que gastara a vida inteira. 
Dizia-se à boca miúda na cidade que a velha Suzana  estava criando a galinha dos ovos de ouro, e mantinha o animal escondido de todos, sendo o galinheiro construído no lugar mais escondido do quintal do casarão, e os ovos da  ave também   nunca eram vistos.
Jussara era um golpista muito experiente para acreditar em bobagens como aquela, mas o simples fato de ter acesso a uma velha solitária, com dinheiro sobrando e recém-adquirido, era como acertar na loteria: uma rápida pesquisa em cartórios, a amizade com um parente distante da vítima e algumas buscas na internet tinham dado a ela todas as informações necessárias para aplicar seu novo golpe. 
Quando dona Suzana finalmente entreabriu a porta do casarão, com ar desconfiado, a estelionatária lacrimejou de modo afetado e enroscou as mãos na ponta do xale:
- Zaninha, minha querida! Meu Deus, você não mudou quase nada, sabia? Está um pouco mais magra e parece mais baixa, mas essa expressão nos olhos... oh, querida, eu a reconheceria em qualquer lugar!
A velha deu dois passos para trás , desconfiada:
-Zaninha? Faz mais de quarenta anos que ninguém me chama assim. Quem é você?
Jussara estalou a língua com ar indulgente:
- Ah, minha prima querida, seria muito esperar que você me reconhecesse, não é? Afinal, faz tanto tempo... Mas eu estou vendo que você ainda usa o mesmo medalhão, não é? Igual ao meu, veja!
Quando Jussara puxou de dentro do decote a réplica que fizera do medalhão de prata igual ao usado por Suzana, a velha saltou para frente arregalando os olhos:
- Lázara? É você, minha prima? – ela examinou a joia falsa com os dedos trêmulos e, depois de alguma hesitação, sem qualquer palavra , deu dois passos para a estelionatária entrar em sua casa. Não houve cumprimentos efusivos. Na verdade, não houve emoção alguma. Apenas uma resignação mansa e reverente pela chegada da parente inesperada.
Jussara se instalou na casa de Suzana com grande facilidade. Seu papel era o da única prima da idosa, que havia sido muito próxima dela na infância e adolescência, mas que, depois de adulta, desaparecera sem deixar vestígios. Suzana levava uma vida solitária e não tinha contato com familiares. O surgimento da galinha misteriosa e do súbito enriquecimento despertara a atenção de alguns malfeitores e curiosos, e o assunto acabou chegando ao conhecimento a estelionatária, que vivia na cidade vizinha.
No decorrer dos dias, o diálogo entre as primas era muito escasso. Encontravam-se apenas nas refeições, e havia uma prosa protocolar sobre assuntos corriqueiros. Jussara havia se preparado para algumas perguntas e reminiscências de infância das duas, claro. Mas percebeu com alívio que a sua anfitriã não tinha muito gosto em falar sobre a família ou o passado. Na verdade, começou a questionar se haviam sido tão próximas como apontava a pesquisa, já que a idosa parecia apenas tolerar sua presença e evitar contatos próximos.


Mas o importante ela estava conseguindo: descobriu que, de fato, a misteriosa galinha existia, e Suzana a chamava carinhosamente de Gelsa. O galinheiro era trancado com dois cadeados, e, como diziam as fofocas, os ovos não eram vistos nunca. Mas os sinais de súbita riqueza da velha eram evidentes, como a reforma do casarão com materiais caros e sofisticados, móveis novos e um automóvel zero quilômetro na garagem. Jussara imediatamente passou a aproveitar o tempo livre para vigiar, à distância, a famosa galinha. Ela era alimentada com esmero por Suzana, que de vez em quando saía furtivamente de casa com pacotes e voltava com novos objetos, como obras de arte valiosas e outras aquisições refinadas. Mas a galinha permanecia trancada durante suas saídas, de modo que não seria possível investigar o mistério.
Determinada, Jussara certo dia contratou Ciro, um vigarista conhecido seu para arrombar o galinheiro assim que Suzana se ausentasse em suas saídas misteriosas. Ciro examinou os cadeados e disse a Jussara que precisaria de, pelo menos, meia hora para resolver aquilo, pois eram cadeados de última geração, e ainda havia um alarme para ser desativado no galinheiro, que ela nem havia percebido.
Satisfeita com a competência do jagunço, Jussara aproveitou enquanto o homem trabalhava para inspecionar documentos pessoais de Suzana no primeiro andar, e acabou descobrindo nessa inspeção  fotos antigas que não tinha tido acesso, da velha e da prima verdadeira brincando num jardim, depois frequentando a mesma escola na adolescência, tudo documentado em álbuns bonitos, alguns com dedicatórias carinhosas e muita organização. Jussara concentrou-se em examinar todos os álbuns com interesse, intrigada com o porquê da frieza da velha, já que, de fato, tinha havido uma amizade próxima entre as primas.
De repente percebeu que tinha perdido a hora nesse exame, e desceu correndo as escadas direto para o galinheiro. Encontrou-o aberto, os cadeados arrebentados e nem sinal do vigarista. Com o coração aos pulos, correu do quintal para a entrada dos fundos, e já na cozinha, ela descobriu toda a cena:
Em cima da mesa de granito recém-adquirida por Suzana, a galinha Gelsa jazia inerte, brutalmente decepada e com as pernas arrancadas. Da sua cloaca se via uma incisão onde, a olhos vistos, havia sido violada, e ao seu lado, a imagem grotesca das vísceras retiradas há  pouco tempo.
Tremendo, Jussara sentou atordoada na cadeira junto ao animal retalhado. Não devia ter confiado a um pilantra como Ciro ter acesso à galinha sem que ela estivesse por perto. Lembrou que, na fábula da galinha dos ovos de ouro, a ganância e a curiosidade do dono haviam culminado com o ato insano de abrir a galinha para ver por dentro como se operava aquele milagre, e assim, a animal morrera e as pessoas se tornaram pobres de novo. Tendo finalmente pegado a galinha e constatado seu dom precioso, o estúpido do Ciro deve ter raciocinado do mesmo modo, abrindo a ave como a criança que quebra o brinquedo para ver por dentro a engrenagem da magia. Agora, a única possibilidade real de riqueza da vida de Jussara jazia morta à sua frente, abandonada após a constatação de sua anatomia comum, como um bicho sacrificado num altar pagão.
Suspirando e imbuída do necessário espírito prático que a situação exigia, ela lembrou que só lhe restava agora limpar aquela sujeira e tentar consertar as coisas a seu modo.
Após ligeira assepsia da cozinha, ela correu na granja mais próxima e adquiriu uma galinha da mesma cor e tamanho de Gelsa. Por sorte, a ave era um bicho com a cor das penas e a compleição comuns, com ela observara durante o seu período de hospedagem ali. Com os cadeados recuperados e o alarme reativado, subiu as escadas e , exausta, adormeceu antes mesmo da chegada da prima.
Veio acordar no dia seguinte assustada com a figura austera do padre à sua frente, segurando o envelope entre as mãos.
A casa estava silenciosa como sempre, mas o homem de batina negra a olhava consternado, estendendo o papel para ela.
- Onde esta minha prima Zaninha? – ela inquiriu com a voz fraca, saltando da cama e pegando o envelope. – O que o senhor está fazendo aqui?
O padre pigarreou e murmurou um pedido de desculpas por entrar sem bater, mas não havia empregados na casa e a situação era urgente.



Prima Lázara,
Se você recebeu essa cartinha, é provável que eu já esteja bem longe desse casarão mal-assombrado.
Me perdoe se a caligrafia está tão trêmula, é que nunca escrevi para pessoas que já morreram:  estou tão assustada que minha vontade era largar tudo e sair correndo, mas o dever familiar me obriga a  te dar algumas explicações.
Há aproximadamente uns seis meses, recebi uma  herança secreta do nosso avô, com a recomendação de que deveria ser dividida apenas entre nós duas, eu e você, suas únicas netas.  Era muito dinheiro, mas mesmo assim eu não mandei te avisar, porque estava precisando consertar o casarão, e me permitir alguns luxos que não tive ao longo da vida. Fui alvo de intrigas e especulações quando comecei a gastar o dinheiro que recebi dessa fortuna, portanto, tento manter um estilo de vida muito reservado desde então. Há muitas histórias fantasiosas nessa cidadezinha em que vivo, e  há quem ache até que meu súbito enriquecimento vem de uma fonte mágica, imagine você. Às vezes fico chateada com o pedido de vovô para nunca divulgarmos a origem dessa herança, já que somos suas netas em virtude de um relacionamento extraconjugal. Mas por outro lado, foi muito generoso da parte dele nos deixar tanto dinheiro sem ao menos nos conhecer, não é?
Como você deve ter percebido, a princípio fiquei desconfiada com sua chegada repentina depois de tantos anos. Tenho vergonha de dizer, mas cheguei a pensar que seria uma impostora. Depois me dei conta de que deveria ser você mesmo, pois a notícia da herança deveria ter chegado aos seus ouvidos e você vinha me cobrar o quinhão que lhe cabia e eu não te repassara. Confesso que fiquei comovida em descobrir que você não viera com raiva nem mágoas, e parecia querer uma reaproximação genuína comigo antes de tocar no assunto da herança. Afinal, fomos mesmo primas muito ligadas na infância.  Quando aceitei isso, fiquei tão contente que fui ao mercado comprar ingredientes para fazer um belo almoço de domingo em sua homenagem. Eu ia cozinhar Gelsa, aquela galinha de capoeira que você viu no quintal, que  estava engordando para uma ocasião especial.
Mas ao chegar na cidade, fui avisada que havia chegado uma carta para mim nos Correios com data de três meses atrás, que veio com atraso em virtude dessas greves de funcionários do serviço postal. Guardei a correspondência para abrir e ler com calma em casa, em virtude do adiantado da hora. Quando voltei, meu primeiro susto foi surpreender um ladrão tentando arrombar o galinheiro, veja você que audácia! Assim que me viu, o covarde fugiu. Aí, matei a galinha e comecei a tratar.  Botei o feijão no fogo para o almoço que seria no dia seguinte- no caso, hoje. Sentei na mesa e abri a carta. Então eu soube.
Fiquei transtornada quando li a carta e recebi de nossa tia Eufrasina a notícia de que você, Lázara,  já havia morrido há três meses. Três meses!  E eu só tomara conhecimento dessa tragédia  naquele momento, com sua alma penada bem ali, na minha casa. Você tinha vindo me assombrar, porque eu não avisara a você da nossa herança? Será que você morreu pobre, precisando desse dinheiro que nunca te dei? Ah, meu Deus, perdão! A primeira coisa que fiz foi correr à Igreja e rezar um terço pela sua alma, para que você retornasse ao mundo dos mortos. Você nem imagina minha surpresa, prima, quando voltei e encontrei a galinha Gelsa, que já tinha sido depenada e aberta, ciscando tranquilamente no galinheiro quintal. Nunca tinha visto alma penada de galinha depenada, e não achei certo rezar por alma de bicho. Aí compreendi que eu estava sendo era castigada pela minha avareza, com todas essas almas penadas me assombrando em casa. Só faltava vovô aparecer também e puxar minhas orelhas! Resolvi pegar toda a minha fortuna e doar para a Igreja, para caridade, e ir-me embora de vez daqui.
Deixei toda a fortuna da nossa herança na Igreja, com o padre, para caridade. Inclusive foi assim que essa cartinha chegou também às suas mãos, já que eu mesma entreguei a ele. Espero que você me perdoe não ter avisado da herança, prima Lázara – pense que, de todo modo, você não poderia usufruir dela, já que morreria logo em seguida também.
Descanse em paz, e por favor leve embora  com você Gelsa, a galinha penada,  quando partir de volta para o Além.
Com amor e arrependimento,
Suzana *

XXX


Andrea Nunes é Promotora de Justiça de combate à corrupção em Recife, e autora dos romances policiais O Código Numerati e A Corte Infiltrada, que já recebeu elogios de Raimundo Carrero e Mary del Priore. Ganhou em 2014 a menção honrosa de melhor escritora do Nordeste no Prêmio Dulce Chacon, da Academia Pernambucana de Letras. Participou das antologias Olhar Paris (2016) e Escrever Berlim (2017) ambas publicadas pela Editora Nós. Andrea Nunes participará das atividades do Printemps Littératire Brésilien 2017 em Lisboa.  



Conto publicado originalmente na antologia Sete Pecados capitais em Prosa e Verso, organizada por Cassio Cavalcanti.


domingo, 5 de março de 2017

Para você, cabeça de vento!



Flor e Chagas, fotografía de Ayrson Heráclito (Foto: Divulgação)

Para você, cabeça de vento

Eu estou falando com você
Você que não fez a história
Eu venho de um país de pé
Saqueado pelo Galo e a Águia

Eu não sou nem cristão, nem católico
Que causou a guerra de cem anos
Nem a metrópole da religião capitalista
Pregando resiliência, fabricando miséria

Eu sou a mãe, mãe da Liberdade
Abandonada pela ignorância de desigualdade
E destruída pela Casa Grande
Em um mundo implacável de dificuldade

Eu tenho raízes humanistas da minha infância
Sem compromisso e com coração
Eu mostrei-lhe o caminho da razão
Nós éramos inseparáveis na época

Eu sei que minha vida é guerra
Você aprecia a força de meus filhos
Tratando-os bons trabalhadores como escravos
Com trabalhos pesados por um salario de miséria

Eu não sou nem a lixeira da América
Se você utilizar minha pobreza
Para construir suas cidades de beleza
Você é sanguessuga com sua ajuda humanitária!

Filhos de povoamento privilegiados!
Filhos de exploração marginalizados!
A história dos povos não é uma ficção
Porque nós somos todos os produtos de importação.



Yambi. Photo : Simon Tshiamala

Samba não é Portugal, samba é Colonial

Samba é negro, samba é Brasil
Samba é flor de nosso verão
Tocar tambor, dançar até suar
Para mostrar o mundo a razão de nosso coração

Samba é África, samba é Brasil
Samba é fruta dos anos 1500
Uma herança intrépida
Que não tem cor agora
Cheia de convivência de-cor
Samba é símbolo do Nordeste do Brasil
O rim do mercantilismo à época
Hoje o sertão desemprego e das mazelas
Por causa da monocultura
Da cultura da família Real
Tocar tambor, dançar até suar
Para mostrar o mundo a razão de nosso coração

Samba é alma de Zumbis dos Palmares
E Liberdade de expressão de nossas feridas históricas
Samba é o carnaval do Rio
Onde o mundo bebe amor e alegria

Com Samba eu rio História até o fim
Tocar tambor, dançar até suar
Para mostrar o mundo a razão de nosso coração.




Oi terra!

Tanta dor de desigualdade no mundo
Humanidade é igual ao princípio de contrario
Yin-Yang, terra e céu, calor e frio...
Existirá paraíso ou inferno?
Tanto grito de marginalização sem felicidade
A gente ordena suas leis para governar
Metrópole e colônia, escravidão e liberdade
Existe capitalista ou humanista?
Tanta paixão de divergência
Entre as raças e as categorias do mundo
Sobre o vestido da sensação humana
Para criar a discriminação no diário.
A terra se torna como a selva
“Viver Juntos” parece inusitado
Substituindo por capciosa palavra
Para estabelecer a diferença
O homem contemporâneo está infectado
Pelo veneno de ódio no espírito
O mundo evolui deixando seus efeitos
E suas marcas no cérebro humano
O inferno é a prisão mental dos infelizes
Viva a vida como ela está com os desafios!
Brancos e pretos, ricos e pobres!
A terra, nós somos todos herdeiros.

XXX

Quem é você Rei Seely? 

Eu sou haitiano: refugiado feijoada radicado em Curitiba desde 2014. Eu nasci em Gonaives no Haiti. Eu sou formado em Letras e Filosofia.