domingo, 26 de fevereiro de 2017

Journée Portes Ouvertes - Sorbonne/Portugais




JOURNEE PORTES OUVERTES
Portugais
Université Paris-Sorbonne ( Paris IV)


La Journée Portes Ouvertes est un temps d’échange et de conseil pour choisir une formation, rencontrer les enseignants, les personnels et les étudiants de l’université Paris-Sorbonne, s’informer sur les débouchés des filières, connaître les procédures d’inscription, découvrir les services de l’université
  
Venez rencontrer les enseignants de portugais et découvrir l’ensemble de nos  formations et de nos activités





Licence de Portugais-Français Langue Etrangère
Licence Portugais ( Langue, Littérature et civilisation)
Spécialisation Traductio
 Bi-Licence Portugais-Espagnol
       Licence LEA ( Droit, Economie et langues des Affaires) 
            Diplôme d’Université – Langue portugaise et cultures lusophones

           
Master Etudes Lusophones
           Master LEA ( Droit, Economie et Langues des affaires)
           Master Professionnel - Etudes ibériques et latino-américaines appliquées, 
entreprises et échanges internationaux.
            Doctorat Etudes Lusophones


Stages linguistiques au Brésil, au Portugal (Faro, Porto, Lisbonne, Coimbra, Braga), 
en Italie (Venise), en Espagne (Salamanca) et en Allemagne( Berlin).
            Voyage d’étude au Portugal et au Brésil
            Tutorat et groupes de recherche
            Activités culturelles, conférences, concerts et colloques. 
Rencontres avec des écrivains portugais, brésiliens et de l'Afrique lusophone.

            
       
      Samedi le 04 Mars 2017
 Centre Universitaire Malesherbes
108, Boulevard Malesherbes 
75017 - Paris

11h00 - 17h00
Métro :  Malesherbes ( Ligne 3)




Pour plus d'informations sur nos formations, consultez la rubrique 
CURSOS dans le Blog.

Ou écrivez à Leonardo Tonus, responsable de la section de portugais à l'Université Paris-Sorbonne : jose-leonardo.tonus@paris-sorbonne.fr








sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

À Procura de Hemingway

À Procura de Hemingway

Por Fábio Pereira Ribeiro


Procuro uma cadeira, sei que vou ter que esperar. Pego um livro da mochila para passar o tempo. Começo a ler Pileques – drinques e outras bebedeira de F. Scott Fitzgerald. Engraçado e prático, principalmente de um escritor amigo de Hemingway que bebeu e viveu, não necessariamente nessa ordem. Lendo o texto Manuseie com cuidado, me deparo com uma frase interessante e convergente com tudo o que está acontecendo. Scott afirma: Ao longo de trinta e nove anos, meu olho observador aprendeu a detectar onde o leite é batizado com água, onde se põe areia no açúcar, onde o diamante é falso e o estuque passa por pedra. É Scott, estamos no mesmo barco com os nossos trinta e nove anos. Dizem que entre trinta e nove anos e quarenta anos uma vida inteira passará pela sua cabeça. Será que a leitura de Scott é mais um sinal sobre tudo o que está acontecendo, ou prestes a acontecer? Enquanto espero aquela leitura, aquele livro parece conversar comigo. Parece que ao pensar em tudo o que está acontecendo Scott tenta falar algo diretamente para mim através daquele texto.  Scott dispara mais uma, O velho sonho de ser um homem por inteiro, por tradição de Goethe, Byron e Shaw, com um opulento toque americano, uma espécie de combinação de J.P. Morgan, Topham Beauclerk e São Francisco de Assis, foi relegado à lixeira onde vão parar as ombreiras usadas por um dia pelos calouros no campo de futebol americano de Princeton e o quepe da Força Expedicionária Americana que nunca chegou a ser usado. E daí? Eis o que penso hoje: o estado natural de um adulto senciente é uma infelicidade com reservas. Querer ser algo, principalmente algo que não é verdadeiro e no fim só faz sentido para os padrões da sociedade, na verdade só lhe trará infelicidade. Literalmente Scott escreveu aquele texto para mim. Bem no dia que terei uma revelação, espero eu. O próprio texto era um sinal? Pelo menos me dava uma direção. Eu pensava no que realmente faria sentido para mim. Estou com os meus trinta e nove anos e cheguei a um momento onde tudo o que fiz, salvo os bons lances da vida, o resto não tinha mais sentido algum. Nós só devemos fazer o que realmente nos dá prazer. Devemos ter um cuidado imenso para não entrar no jogo da vida comum, pois depois para sair, é mais do que óbvio que nós magoaremos muitos jogadores que vivem a mesma mediocridade que você. Não podemos nos enganar, precisamos ser mais fortes e enfrentar a partir de uma escolha que realmente faça sentido para nós.


− O senhor pode subir! – fala a atendente para mim.
− Você me acompanha?
− Não, a faxineira irá lhe acompanhar lá no andar. Por favor suba a escada, ela estará na porta da suíte 14 lhe aguardando.
− Obrigado. – agradeço.

Meu coração dispara. Esta porra de ansiedade um dia me matará. Subo as escadas como um moleque. Praticamente um salto para cada 5 degraus. Entro naquele pequeno corredor e avisto a faxineira me esperando com uma chave na mão. [...] Encosto a porta, e vou direto para o armário e avisto o cofre. Bingo, o mesmo está fechado. Abro-o rapidamente com a chave enviada e pego o único envelope que havia. Dobro-o e enfio na calça, tento esconder o máximo. Tranco novamente o cofre e escondo a chave no bolso. Vou até a janela e observo o ambiente. Respiro fundo e abro a porta do quarto. [...]



Vou até algum lugar para ler o conteúdo do envelope. Já são onze e trinta, vi que esperei bastante no hotel. Preciso comer algo, pois só estou com um café e uma água com gás no estômago. Já que vou para Saint-German-dés-Prés aproveito e como algo no Le Procope. O restaurante é uma instituição parisiense. Entro na Rue de L’Ancienne Comédie e logo encontro o mesmo. É considerado o mais antigo de Paris ainda em atividade. Foi aberto em 1686 e tem muita história. Os “pais” dos Estados Unidos estiveram aqui. Entro no restaurante, peço uma mesa. A recepcionista me leva até uma sala coberta de ornamentos. Sento, e por incrível que pareça, o garçom é muito simpático, coisa rara em Paris. Antes dele me mostrar o cardápio, já peço o prato do dia, sem saber o que seria, e uma taça de champagne Pommery, para mim, além da Veuve Clicquot, uma das melhores champagnes da França. Junto uma garrafa de água. Prontamente o garçom já percebeu que não estou para delongas.

Abro o envelope e encontro uma carta. Uma só folha. Sem chave ou outro enigma. Passo o olhar rapidamente e vejo que parece ser dirigida para mim mesmo. O texto começa assim:

Paris, 14 de outubro de 1921.

Ao Amigo do Futuro,

Caro Amigo, eu tinha certeza que iria lhe encontrar um dia. Mesmo que tarde, mas na vida o “tarde antes do que nunca”. Sei que você me procura, e também sei que posso te ajudar na sua busca, pois a sua procura não é pela minha pessoa mas sim pela sua própria pessoa. Você se encontra em um momento sem sentido para a sua vida. É natural. Mas entenda que os nossos diálogos precisarão ser francos! Só a verdade lhe ajudará. E eu preciso ter confiança em você. Não alarde e não alerte para nada. Deixe nossa conversa fluir. Seu desafio é encontrar o verdadeiro sentido para a sua vida, e você terá que escrever sobre isso, é a minha condição. Escreva só a verdade, e deixe a mesma fluir em sua mente. Seja firme, e não deixe o medo tomar conta de você. Esteja amanhã as quatro horas da tarde no 74 da Rue Cardinal Lemoine. Era onde eu morava. Em frente tem um bar. Peça uma garrafa de vinho tinto, bem seco. E me aguarde. Deixe o dia livre. Perderemos e ganharemos muito tempo.

Outra coisa, esqueça Gertrude Stein, tudo não passa de uma tremenda bobagem, além da arrogância natural.
Um grande prazer! E nos veremos amanhã!

EMH

Li, reli, li novamente. Nem percebi que o garçom já tinha colocado a entrada na mesa. Porra, o que está acontecendo? Observo que a recepcionista me olha atônita. Será que ela acha que vi fantasma? Vi sim! Que carta estranha esta. Eu sempre imaginei que nos textos de Ernest Hemingway encontraria muitas respostas para os problemas da minha vida. E no momento que vivo, chegando aos quarenta anos, não imaginava que os meus pensamentos poderiam tomar corpo real. Entrei no jogo, agora vou até o fim. Leio de novo a carta. Mas poxa, Hemingway está morto. Tem alguém brincando comigo? Literalmente devoro o prato. Não deu nem tempo do garçom virar as costas. Preciso sair daquele restaurante, por mais história que tenha, deixo para um outro dia. Agora é hora de refletir, preciso andar, ou melhor flanar por Paris. A cidade me ajuda a pensar e refletir. Será que já é hora de por no papel como Hemingway me instruiu? *

Xxx


Vice-Presidente de Estratégia do Grupo Educacional CAELIS, Fábio Pereira Ribeiro foi sócio-diretor do pólo Santos do IBMEC on line e Diretor de Marketing e Relações Internacionais do Grupo Anima e da Strong/FGV. Viajou o mundo ministrando palestras e desenvolvendo programas educacionais, em especial na África de Língua Portuguesa. É autor de quatro livros. Um dry Martini para Hemingway é o seu  primeiro romance. Fabio Pereira Ribeiro participara da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 



*Trecho do romance Um dry Martini para Hemingway (Editora Simonsen, 2016)






domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Silêncio da Jabuticabeira

O Silêncio da Jabuticabeira
Marcelo Maluf
Para Daniela

Personagem em movimento contínuo, levando objetos de um lado para o outro.
         Esses peixinhos, esses dóceis e inocentes peixinhos. Dona Clarice os matou. Ela me jurou que foi sem querer. E Clarice já me salvou tantas vezes que não consigo acreditar que ela esteja mentindo. Todas as vezes que eu precisei, ela me disse sim. E sempre dissemos sim uma à outra. Fosse para um pouco de açúcar, um pó de café ou o mistério de uma palavra perdida em mim. Há muito tempo que somos vizinhas. Clarice nunca me negou nada. Como é que pode alguém, propositalmente, matar criaturas tão frágeis? - ela disse. Seria completamente diferente se os mesmos peixinhos fossem abocanhados por tubarões em alto mar. Lá é assim que se vive, não é? É natural. Sempre achei digno morrer para servir de alimento ao outro. Se eu pudesse escolher a minha morte, gostaria de ser devorada por uma jibóia branca às margens do Rio Negro.  Mas aqueles peixinhos pareciam o Nemo. Não é justo que tenham morrido em vão dentro de um aquário. Não foi por mal, Dona Clarice se distraiu e deixou tempo demais os peixinhos sem comida. É isso que dá ficar transportando essas lembranças.


Personagem em movimento contínuo, levando objetos de um lado para o outro.
Se vocês morassem aqui na minha cabeça, saberiam o que eu estou dizendo. Essas coisas, esses objetos e livros que estou carregando, de lá pra cá e de cá para lá. Todos têm o seu lugar certo, o seu jeito de caber no tempo e no espaço. O difícil é saber qual é o lugar de cada coisa. Em qual lugar cada um desses objetos é mais inteiro, mais pleno, mais potente? “A insustentável leveza do ser”, do Milan Kundera, sempre me coube aqui no meu abdômen, às vezes desce e se aloja quatro dedos abaixo do meu umbigo. Eu gosto de pensar que me encaixo no intervalo entre esse meu corpo e a minha sombra, e vivo como se estivesse deitada numa montanha da Ucrânia. É que eu sempre quis conhecer a Ucrânia. Já perceberam quanta gente interessante vem de lá? Depois me levanto, e exatamente ao meio dia eu consigo ficar mais completa. Era assim que eu me deitava debaixo daquela jabuticabeira e ficava esperando as bolinhas negras caírem sobre mim e me provocarem cócegas. Ali espichada na grama eu sonhava com o meu futuro, com as diversas possibilidades de ser: bióloga, atriz, manicure, taróloga, professora, cantora, psicóloga, jornalista da National Geographic. Sempre me foi difícil pensar em mim como uma peça única, sempre me percebi muitas.


Personagem em movimento contínuo, levando objetos de um lado para o outro.
Quem está aí? É você? Ela sempre faz isso comigo. Minha sombra sempre me assusta, me ASSOMBRA. Que é que foi? É você, de novo? Olhe aqui, você nem é capaz de me encarar, não é mesmo? Olhe pra mim e vê se me deixa. E daí eu subia no pé e espremia com o meu corpo os galhos lotados de jabuticabas, algumas eu caçava com a boca. E lá de cima eu assistia minha sombra chorando no chão, depois minha avó me chamava e me sentava no colo para dizer que eu tinha os olhos grandes como jabuticabas maduras. Depois ela fazia a melhor geléia de jabuticaba do mundo. Hoje, quando eu vou ao cinema, ao teatro ou leio um livro, eu procuro aquele gosto, aquele sabor. Esse é o meu parâmetro estético. Se tiver aquele gosto eu sei que é bom. Ou se as jabuticabas aparecerem em algum lugar. Foi assim que eu me apaixonei pela performance do Joseph Beyus com o coiote. Não foi pela ousadia, pela dimensão poética da ação, foi por que os olhos do coiote eram duas pequenas jabuticabas, e naquele gesto havia um risco, algo desconhecido que poderia irromper do instante e mudar o curso das coisas. Por isso é que eu gosto de mudar as coisas de lugar, gosto dos oceanos agitados e do movimento bruto das tempestades, dessa força que vem sei lá de onde. Gosto de afogar as mãos na terra úmida, de consertar portas, parafusar janelas, perfurar metais, cortar galhos de árvores velhas, tirar restos de cabelos do ralo, fazer tudo com ações precisas, para desafiar a lógica do meu ser, encontrar nos gestos mais simples do cotidiano minha grande alma. Talvez minha grande alma seja uma velha bruxa descalça comendo jabuticabas e cuspindo a casca na terra para servirem de adubo. É isso. Talvez eu seja o conjunto das cascas cuspidas por uma velha bruxa descalça. E com essa consciência de casca eu percebo que fico despejando os meus desejos para lá e para cá, para cá e para lá, tentando encontrar o lugar exato no tempo e no espaço onde eles possam viver para sempre, como esse abajur.

Personagem em movimento contínuo, levando objetos de um lado para o outro.
Queria que a Dona Clarice fosse a minha avó, e que todas as gavetas do meu corpo estivessem abertas como as gavetas da Vênus, do Salvador Dalí. E, aos poucos, eu fosse tirando as minhas miudezas de dentro das gavetas para usá-las como colar ou pulseiras.
Tive uma ideia outro dia que ficou em minha cabeça: fazer uma escultura da minha sombra, com jabuticabas. Depois de pronta, eu abraçaria a escultura até sentir as bolinhas negras explodindo. Com o líquido que escorresse eu faria uma calda doce e quente. Nua eu me banharia da cabeça aos pés, até que a sombra grudasse em meu corpo, até que eu compreendesse que a sombra sou eu. Até que eu não me assombrasse mais.

xxx



Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária. Mestre em Artes pela Unesp. Escreveu o livro de contos “Esquece tudo agora" (Terracota, 2012) e o infantil “As mil e uma histórias de Manuela” (Autêntica, 2013), entre outros. Em 2015, publicou o romance “A imensidão íntima dos carneiros” (Editora Reformatório),  livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos. Marcelo Maluf participará da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Navio Provisório


Orie, Lúcia Hiratsuka

Navio Provisório


                           Para Hugo e Renê

Tudo era pouco, mas havia a goiabeira do meio da roça.
E havíamos nós.

Meu irmão mais velho, meu primo e eu
Subíamos içados,
Cada um para o seu galho.

Proclamada navio, inventávamos,
E então ventava, o ar não tinha escolha.

Singrar. Mesmo sem saber dessa palavra,
A gente singrava.

Vivíamos do que se podia.
Algumas gaivotas vinham dar bicadas
Nos pescados de goiaba vermelha pendurados.
Naquele tempo, tinha o bastante para todos.

Bravia a água lá de baixo. Quem caísse
Seria tragado para sempre pelo infortúnio
E abandonado ao mar, já que o navio tinha que seguir.
Mas nenhum de nós caiu, nunca.

O mato cresceu muito. Aquele navio
Ficou inacessível para nós três.
E mesmo que se pudesse, tão pesados...

O navio foi o que teve que ser, a seu tempo.
Porque, leves que só, sequer notávamos
Que todo aquele verde era a corrente
Rumo ao nosso porto do futuro.

E hoje podemos, inclusive, plantar outros navios
Que venham embalar nossas crianças
Com aquele mesmo sonho que ventávamos.

(A musa diluída, Record, 2006)



O Trem


Na linha que seguia até sumir
Depois da curva ao longo desses trilhos
Eu esperava um trem que não passava
(Ou que passasse e, por alumbramento,

Sequer tenha notado, ou mesmo ouvido).
Restou, silente, a espera pelo próximo.



E tendo me escondido na estação
Com a distração dos outros passageiros
(Acompanhando as suas despedidas...),
Nas noites me encolhi de resignado.
Até quem em certo estio dessa angústia
Na curva um som de trem se aproximava.



Parado, tinha as portas semi-abertas
(Não sei se por algumas incertezas
De receber um novo passageiro;
Mas refletia a minha hesitação
Em ter de abandonar local seguro
E me lançar além do que enxergava.)



Já longe, à profusão dessa paisagem
- Paisagem que até hoje me acompanha –
Mesclou-se algo que, então, reconhecia.
Seguro e vulnerável no vagão,
Estranhamente eu me identificava:
(Achando-me-perdi, mineiramente.)



Tão nova e vaga e longa essa viagem...
Nem mar nem rio ou céu longínquo e claro
Ou qualquer ânsia onírica que fosse
Se equiparava àquela transcendência,
Que mesmo construindo uma distância,
Modificou a vida que eu levava.



Parti sem ter ciência do destino,
Ao qual me lancei cego e voluntário,
Sem pressa para qualquer desembarque.
Até que eu mesmo me tornei o trem,
Que vem se aproximando pelos trilhos,
Enquanto, na estação, você me espera.
( inédito)



homo ludens



te lanço o meu poema como um bumerangue
se volta a mim, eu pego e jogo novamente
mas quando cai nas tuas mãos, vem de repente
a sensação de um rico e belo bangue-bangue



e nesta avessa brincadeira, não se zangue
quando ele voa e escapa e vai passando rente
às mãos do pensamento que imagina e sente
o cheiro dessa lâmina sem corte ou sangue



te jogo o bumerangue feito de papel
que se desfaz na chuva, e apaga e rasga à toa...
(mas por ser leve e frágil é que ele tanto voa!)        



eu sei, não há poema e nem nada no céu...
mas finjo mesmo assim, pois nesta brincadeira
voa o bumerangue da minha vida inteira

(inédito)


XXX




Né à Rio de Janeiro en 1975, Henrique Rodrigues a suivi une formation en lettres ainsi qu’une spécialisation en journalisme culturel à l’UERJ. Il a soutenu son doctorat en littérature à la PUC de Rio de Janeiro et travaille actuellement au SESC en tant qu’assistant technique en littérature où il coordonne des projets qui promeuvent la lecture et la diffusion d’évènements littéraires. Il est l’auteur de plusieurs anthologies de poèmes pour adultes (A musa diluída, Record, 2006) et pour la jeunesse : Versos par um livro antigo (Pinakotheke 2007), Machado de Assis : O Rio de Janeiro de seus personagens ( Pinakotheke, 2008), O segredo da gravata mágica e o segredo da bolsa mágica (Memória Visual 2009), Sofia e o dente de leite (Memória Visual 2011) et Alho por alho, dente por dente ( avec André Moura, Memória Visual 2012). Il a participé aux anthologies Prosas cariocas : uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004), Dicionário amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Escritores escritor (Flâneur, 2010) Humor Vermelho vol 2 ( Vermelho Marino, 2010) Brasil-Haiti (Garimpo, 2010), Amar, verbo atemporal (Rocco 2012) et Vou te contar : 20 histórias ao som de Tom Jobim. Il est le coauteur (ou concepteur) des livres Quatro estações : o trevo ( Independente, 1999) ;  Como se não houvesse amanhã : 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana (Record 2010) et de O livro branco : 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bonus track ( record 2012). Henrique Rodrigues vient de publier son premier roman, intitulé O próximo da fila ( Record 2015).  Henrique Rodrigues participera de la 4ème édition du Printemps Littéraire Brésilien. 


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Escrever primeiro, ler depois


Escrever primeiro, ler depois

Por Marta Barcellos

Entre os escritores parece ganhar corpo uma crítica/mágoa sobre não existirem hoje leitores “puros” da literatura brasileira contemporânea, que não sejam aspirantes, também eles, a escritor. É comum, ainda, entre os autores estabelecidos, alguma ironia a respeito desses candidatos não serem lá grandes leitores.

A regra implícita é: primeiro leia muito; leia os clássicos. Só depois, bem depois, tenha pretensões literárias.

Sou de uma geração em que isso fazia sentido. Como a maioria de meus contemporâneos, tive uma infância/adolescência de menina tímida enterrada nos livros, por sorte disponíveis na estante de meu pai. Descobri a literatura naquela época.

Mas as coisas mudam, e como mudam, quando estamos todos dentro do trem-bala acelerado da tecnologia (uma imagem que adotei do sociólogo Laymert Garcia dos Santos). As transformações são tão vertiginosas que mesmo os espaços de resistência precisam ser repensados. Em outras palavras, penso que nós, os escritores, podemos estar sendo conservadores. Ou, pior, corporativistas.

Da sociologia da tecnologia, passemos a Sêneca. Nos tempos em que o mercado de livros não era uma questão, o filósofo romano recomendava a seus discípulos que intercalassem igualmente as práticas de leitura e de escrita. Porque ler em demasia dispersa. E escrever em demasia esgota.

Acho perfeita a ideia de a leitura alimentar a escrita, e a escrita alimentar a leitura. Mas por que não começar pelo processo de escrita que alimenta a leitura, se todo mundo escreve hoje na internet, nas redes sociais?

As oficinas literárias estão lotadas de escritores iniciantes (jovens e velhos). Muitos só vão começar a serem leitores sofisticados a partir da experiência de aperfeiçoar a escrita, num ambiente em que as referências literárias surgem naturalmente. O escritor que lidera a oficina comenta: Clarice também tem um conto sobre isso. A menina, que só tinha lido a saga Crepúsculo, acaba estupefata pela descoberta da maior escritora brasileira. Gosto de imaginar que ela não se deixará paralisar pela “angústia da influência”, coisa também de outros tempos, e se apropriará da descoberta de um jeito novo e particular, jeito de quem começou pela escrita, e só depois descobriu a leitura (vejam que interessante: para onde isso vai nos levar?).

Particularmente, incentivo todo mundo, todo mundo mesmo, a ser escritor. Ter algum projeto literário – pode ser um blog, a biografia da avó, poemas para a namorada, ou ser o primeiro brasileiro a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. As pessoas que escrevem são melhores do que as que não escrevem. As pessoas que escrevem costumam ser melhores leitoras do que as que não escrevem.

Se queremos fazer da literatura um ato de resistência cultural, o querer-escrever pode ser uma ótima porta da entrada para este lugar. Que mal há se todos formos, ao mesmo tempo, leitores e escritores? E se todas as livrarias quem ainda existem/resistem tivessem um pequeno espaço para oficinas literárias? Por que os projetos governamentais de incentivo a literatura (caso ainda existam) não se utilizam desse desejo autoral presente até mesmo em quem (ainda) não lê?

Em vez de empurrar uma pilha de livros clássicos (talvez na esperança de afugentá-los) aos escritores iniciantes, vamos convidá-los a entrar na festa da literatura, sem preconceitos com suas parcas leituras ou com suas pretensões. Eles serão nossos leitores. E nós, quem sabe, um dia seremos leitores deles.

Xxx

Escritora e jornalista, Marta Barcellos foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015 e do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2016 com o livro de contos Antes que seque, já na segunda edição, pela editora Record. É carioca, formada em jornalismo pela UFRJ, e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Tem vários contos publicados, incluindo dois na coletânea Sábado na estação (Ed. Apicuri), organizada por Luiz Ruffato, e foi cronista por oito anos no portal Digestivo Cultural. Está escrevendo seu primeiro romance. Trabalhou 18 anos como repórter nos jornais O Globo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Atualmente é colaboradora do caderno EU&Fim de Semana, do Valor, e colunista na Revista Capital Aberto. Marta Barcellos participará da edição 2017 do Printemps Littéraire Brésilien





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Peres e eu.

Jorge Macchi, Rendez-vous


Peres e eu.
Marcos Peres

Devo à conjuntura de amigos e cervejas o descobrimento das Edições Katchadjian. Na última Festa Literária de Paraty, fazíamos – eu, Henrique Rodrigues, Marcelo Moutinho, Rodrigo Casarin e Leonardo Tonus – nossa própria programação literária no Bar Coupê. Em algum obscuro ponto desta noite, ao ser indagado sobre a demora de uma cerveja, um garçom foi truculento. Recordo-me que, querendo impressionar meus amigos, disse que o garçom, e o bar, e a situação, e a nossa sede eram todos atributos de uma história kafkiana. O Henrique respondeu com um infame trocadilho, alguém disse que o cotidiano era repleto de situações kafkianas. O Tonus concluiu que, recentemente, lera o seguinte argumento de um romance: um presidente de um país do Leste Europeu recebe um e-mail ameaçador. Todos os seus podres foram interceptados e serão divulgados no Wikileaks. Os capítulos subsequentes tratam da aflição do Chefe de estado; a desconfiança de amigos, familiares, as crises de ansiedade; e, por fim, a angústia maior ao perceber que, dia após dia, nada acontece.

“Interessante”, falei. “De quem é?”

“Isso é o mais interessante, Comendador. A obra é assinada por ninguém menos que Kafka. O livro foi encontrado na biblioteca da Universidade. Chegou até minhas mãos porque está escrito em português, mas a editora, parece, é da Ilha da Madeira...”

Rimos, mudamos de assunto, de cerveja, de bar. No fim da noite, embriagado, pedi para ver o apócrifo romance. Dois meses depois, fui surpreendido com um envelope remetido de Sorbonne. ‘Para o Comendador com um grande abraço. Leo’ estava escrito no bilhete, ao lado do volume carmim desbotado; o título, em letras douradas, soava verossímil: O vazamento. Subtrai do enredo as referências temporais e conclui que o escritor de Funchal detinha um amplo conhecimento do autor de Praga: mudadas duas ou três circunstâncias, alterado o recebimento de um e-mail pelos mensageiros de O Castelo ou pelos oficiais de Justiça de O Processo, o tomo poderia ser facilmente (falsamente!) atribuído ao autor de A colônia penal. Escondida pela brochura, uma nota de rodapé explicava que o romance fora importado de Portugal por um estabelecimento de Ciudad del Este chamado Katchadjian. Ou coisa parecida.

Laurent Kropf, Dimanche, 2012

Esqueci de O Vazamento, até que, ao participar da Semana Literária do Sesc, em Foz do Iguaçu, lembrei-me de Katchadjian. Curioso, decidi atravessar a Ponte da Amizade; evitei o comércio fácil da Avenida Central, esgueirei-me pelo labirinto roto da cidade e fui levado pela sorte. Inútil dizer aos que não conhecem a região: convergem, na tríplice fronteira, judeus ortodoxos e muçulmanos que se ajoelham em direção a Meca. Coabitam – dividindo narguilés, cuias de mate e aguardentes de cereais – turcos, coreanos e índios guaranis. O criollo e o colonizador. O capitalista e o explorado. Tríplice, santa, também pecadora, feita de comércio, não só dos três deuses que ali habitam, mas também da carne de meninas, muitas delas impúberes. Aliás, foi por uma jovem que tive a primeira pista: ela me ofereceu companhia, respondi que procurava um local que vendia livros; por dez reais, guiou-me até um ocre estabelecimento de celulares usados. Um senhor de olhos grises respondeu-me com silenciosa aquiescência quando pedi por Katchadjian; entrou por um corredor estreito e me mostrou, enfim.

Depois de algum tempo, compreendi meu desapontamento. Esperava encontrar uma biblioteca feita de hexágonos, de um iterativo jogo da leitura e cópia de cânones. No entanto, a sala contígua era feita por prateleiras e pen-drives expostos sem ordem alguma. Perguntei pelo dono do empreendimento, e o senhor de olhos grises me respondeu que Katchadjian nunca se deixava ser visto. Vive percorrendo o mundo conferindo o trabalho dos escritores, a organização de seus prepostos. 

“A coisa é tão grande assim?”

“Si, por supuesto”, disse, como se eu tivesse perguntado uma obviedade. Voltei ao Brasil com pisco Mistral, Pringles, um Scotch – e com pen-drives que o senhor de olhos opacos garantia, por ele, carajo, serem de Dostoievski, Cervantes e Pessoa. Conectei o pen-drive em um notebook, servi-me das batatas, do scotch e li quase a primeira metade do livro atribuído ao russo – um caudaloso romance que tinha como protagonista um idoso Gorbatchev após a queda do império soviético; sob o título O último companheiro, pululava um febril monólogo interior, ironias azeitadas e um pensamento límpido, poderoso, digno de ser traduzido para algumas dezenas de línguas.

Aliás, faço aqui uma intervenção: o kafkiano O vazamento não fora escrito na Madeira; havia sido feito na região da Boemia e, depois, vertido ao português em Funchal. Estratagema semelhante foi empregado em O último companheiro: escrito em São Petersburgo, ganhou tradução portuguesa em Recife e depois foi levado até Ciudad del Este para se juntar aos outros romances apócrifos. Isso foi o que me garantiu o preposto da loja.

No dia seguinte, com ressaca e curiosidade, atravessei novamente a ponte, fiz o sinuoso caminho, entrei no estabelecimento de celulares e falei a senha – que se confundia com o nome do sujeito que não se deixava ver em hipótese alguma.



 “Tem literatura brasileira?” Perguntei, e o homem estendeu uma caixa de sapatos com pouquíssimos pen-drives.

Escolhi dois romances: um do Machado, outro de Moacyr Scliar. E, antes de pagar, fiz a temida pergunta: “Há algo de Marcos Peres?” O sujeito disse que não, mas poderia conferir na central. Não deixei de rir da minha ingenuidade.

Já no hotel, tomei uma ducha gelada, deitei-me e abri o arquivo atribuído a Machado – Os arcos da discórdia, um romance entre dois primos, um político e um magistrado, que se confrontam nos jogos olímpicos de 2016. Sem filtros de traduções, era ainda mais impactante ler um original, que era tudo, menos um original. Um romance ousado, uma profundidade psicológica invejável, um clássico em minhas mãos, senti, porém o paradoxo de um clássico adornado de referências atuais, de redes sociais, de nomes de futebolistas da moda. O Scliar adulterado, no entanto, foi decepcionante. Tratava-se do mesmíssimo argumento de Max e os felinos: um sujeito se lança em alto-mar e se vê em uma embarcação com um felino iracundo. O que Scliar falaria de uma cópia tão grosseira?

Dias depois, retornei para o modorrento serviço público, e o que se passou depois foi embaçado, feito talvez do mesmo tecido de que são feitas as ilusões. No meio de uma tarde, recebo um telefonema; o interlocutor diz que encontrou na central (na seção dos não relevantes, reiterou) um tal Marcos Peres. Perguntou-me se eu ainda tinha interesse.

“Sim, claro”, respondi, confuso. E em poucos dias um pen-drive chega até a minha casa. Com o coração acelerado, conecto-o ao computador e abro o arquivo: se o nome do autor era familiar, o título, no entanto, era exageradamente impreciso, exageradamente violento, exageradamente ruim para que eu pudesse dar credibilidade: “Quem tem fogo no cu?

Acho que ri, aliviado. Eu escreveria qualquer coisa, menos um romance inquirindo donos de ânus em chamas. Assim, deixei-me perder no texto que, logo em seu começo, anunciava um sumiço. Um romance policial, claro. Superficial. Óbvio. Em muitos pontos, soava como um pastiche, evocando desaparições e soluções clichês. Esperei, com sinceridade, que o meu romance paraguaio evocasse o mordomo como o assassino no final. No entanto, meu eu falsificado escolheu outro desfecho.
A diatribe feita por mim, para mim, não tem exagero. O que guarda a crítica em mordacidade, tem uma secreta face de alívio: me vi em um espelho deformado e me julguei melhor, como Dorian Gray diante de seu retrato. No entanto, só fui compreender o real significado do livro quando li um posfácio, escrito pelo próprio autor. Enfim, vi Peres.

O autor de Quem tem fogo no cu? se justifica em um pós-escrito e se apresenta como um tardio vanguardista. Um filho pródigo do experimentalismo. No romance, o sumiço é uma metáfora para a ausência de uma letra que não foi empregada, a vogal ‘A’. Nenhum argumento original aqui, apenas, como disse Peres no posfácio, “o ato de homenagear um autor que admiro muito”. Creio que nesse ponto alguns já adivinharam quem é o homenageado: George Perec, expoente da Oulipo (ouvroir de littérature potentielle), admirador de imbricações da matemática na literatura, escritor de La Disparition (O sumiço), em que não utiliza a vogal E.

Aqui chego à outra importante indagação: como admiro Perec se nunca li Perec? Tive que reler o romance Quem tem fogo no cu? (que, como viram, não contém a letra a) para chegar até a(s) resposta(s).

Primeiramente, compreendi que o tom de pastiche usado em todo o texto foi proposital. Um realce de que uma letra estava obliterada. Também credito o tom exagerado pela ausência de habilidade do autor em driblar a imposição de escrever sem o “a”.



Assim, compreendendo as limitações e os objetivos do Peres paraguaio, criei outro romance, recolocando a vogal suprimida – e alterando, consequentemente, palavras, orações, sintaxe. A conclusão foi impressionante: era como se eu já tivesse lido aquilo. Era como se o conteúdo já estivesse preso em alguma entranha do meu cérebro. Reconheci não apenas a voz, mas os truques de estilo, as simplórias comparações. Reconheci – e reprovei – as premissas de um autor que não se aprofundou (mais, que não quis se aprofundar!) naquilo em que devia estar imerso. Não há dúvidas que os mais execráveis defeitos são os que reconhecemos, nos outros, os que praticamos. De Quem tem fogo no cu? não pude reconhecer nenhuma virtude (porque, afinal, não conheço Perec), mas sim os defeitos, as imperfeições, as tautologias, os cacófatos, as falácias, as negligências. Kafka disse que brigar em um processo assim significa que você já perdeu – não me recordo se a sentença foi dita pelo autor original ou o falsificado.

Foi falado  muito, mas não foi explicado como meu eu falsificado admira um autor que nunca li. A resposta, apesar de abominável, não pode ser outra: Eu não li Perec. Eu lerei Perec. Ergo, admirarei Perec. Da mesma maneira que o Wikileaks e os jogos olímpicos seriam temas para cânones, se aqui estivessem. Julguei, assim, que os textos falsificados destinam-se ao impossível futuro dos autores copiados. Da mesma maneira que os temas sobrevivem, mas não os autores. Inútil dizer que, neste ponto, compreendi que o Peres oulipiano falava comigo de outro tempo – em que meu corpo já está, certamente, decomposto no cemitério municipal de Maringá.

Com temor, escrevo o nome Katchadjian no Google e vejo que há poucas informações; uma mulher (acredito que herdeira de algum escritor) descobriu o funcionamento das falsificações. Armou-se de advogados, ameaçou processar a empresa. A empreitada, claro, não foi frutífera. Katchadjian pode ser processado uma ou cem vezes, mas o negócio é maior que isso, por supuesto. Não é visto, não é reconhecível, muitos são seus prepostos, inúmeras são as linhas do cuidadoso esquema de sua máquina de falsarias. Se for condenado em uma ou outra instância, não significa que deixará de atuar. Não significa que não existirá.

Aos que ainda duvidam, justifico a existência do sistema de falsificações com dois argumentos, um de ordem geral, outro específico.

Ítalo Calvino descobriu que estava sendo falsificado por Katchadjian. Expôs o ocorrido em seu romance de romances Se um viajante numa noite de inverno:
“Há um complô de livros apócrifos que se estende em ramificações por toda parte. (...)”
E:

“Declarou-se indignado com o fato de que alguém pudesse fazer mau uso de meu nome (...), mas acrescentou que, afinal, não havia motivo para escandalizar-se, pois, segundo ele, a literatura vale por seu poder de mistificação e só na mistificação encontra sua verdade; assim, um produto falso, como mistificação de uma mistificação, equivale a uma verdade elevada à segunda potência”.

Por sua vez, Umberto Eco expôs em Sobre a Literatura:

A precede B cronologicamente, (...) por isso a discussão diz respeito somente à influência de A sobre B.
Todavia, não se pode falar do conceito de influência em literatura, em filosofia e até mesmo na pesquisa cientifica, se não se põe, no topo do triangulo, um X. podemos chamar esse X de cultura, de cadeia de influências precedentes? Para sermos coerentes com nossos discursos destes dias, chamá-lo-emos de universo da enciclopédia. (ou Katchadjian?)

A relação A/B pode colocar-se de várias maneiras: (1) B encontra alguma coisa na obra de A e não sabe que por trás existe X; (2) B encontra alguma coisa na obra de A e através de A remonta a X; (3) B refere-se a X e somente depois percebe que X está na obra de A.

Com isso tudo, fui demovido da ideia de mover um processo. Katchadjian se mistura com a literatura: é uma entidade invisível, atemporal, feitas de um novo amalgamar de antigas peças do tabuleiro.



De maneira afetada, copiei, neste texto, o estilo narrativo e famosos expedientes de um cânone literário que admiro (expedientes que assim poderiam ser resumidos: 1. O conhecimento de algo inusitado através de amigos e de um objeto – cervejas, um espelho ou uma enciclopédia. 2. O lento migrar para uma zona limítrofe entre realidade e ficção, utilizando-se, para tanto, o descrever de paisagens e pessoas reais em contato com o fantástico; 3. O uso de incertezas e imprecisões na narração, justamente para evocar verossimilhança e confluência entre o escrito e o vivido; 4 corroborar o inusitado com passagens de outros textos etc.).

Deliberadamente, não mencionei o nome deste cânone. É a resposta que dou a Katchadjian. Aliás, é a única resposta possível: confrontar o fabuloso tabuleiro já criado e, humildoso, tentar alterar algumas peças. Não me venham dizer que nada disse de novo. De novo, e de novo. Somos feitos, se não do sangue, ao menos dos resquícios da tinta de tantos Shakespeares. E de tantos Katchadjian.

Para Pablo K.
Para Maria K.

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Marcos Peres nasceu em Maringá. É bacharel em direito e atualmente trabalha no Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. Por sua estreia, O evangelho segundo Hitler (Record 2013), recebeu o prêmio SESC de Literatura de 2012/2013 e o Prêmio São Paulo de Literatura em 2014, sendo também finalista do Prêmio Jabuti 2014. Que fim levou Juliana Klein?, seu novo livro, um romance policial, foi lançado em julho de 2015, também pela editora Record. Marcos Peres é um dos convidados da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien.