segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dia de morrer de amor com você

Somnyama Ngonyama, © Zanele Muholi Courtesy Stevenson Cape Town et Johannesburg 
Sibusiso, Cagliari, Sardinia, Italy, 2015

Dia de morrer de amor com você

Paulo Emílio Azevedo

Cortinas
Desde criança tenho olhado cortinas, quiçá tenha começado aí meu entendimento estético no mundo. Cortinas são bailarinas que dançam nas coxias para plateias atentas; plateias que ficam fora do grande público, plateias de um ou dois que ficam sós nos seus quartos e salas observando cortinas embaladas por brisas pedindo um par; paradas no corpo do alizar esperando a janela abrir pela manhã - cortinas são disciplinas malditas olhando para o teto. Elas têm o caimento de cima em baixo de uma dama em vestido longo, cuja honraria está prestes a receber o prêmio de mulher mais bela da casa. Elas têm a loucura quando entram em cena com seus cabelos rebelados pela brutalidade do palco; abauladas, ali esquecem seu lado mais doméstico e avançam em forma de lençol abraçando a todos, cujas janelas abertas deixaram as portas do vento entrar - ventos são sopros tristes que transbordam do cuspe de Deus. Cortinas são pastoras ninfomaníacas fingindo que são santas.

Bill Viola

Apnéia
Ontem observei as pessoas que pisam no chão. Não, não são todas as pessoas que pisam no chão. Àquelas que pisam nas pessoas não pisam no chão e dividem a humanidade em dois grupos distintos: gente que pisa no chão e gente que pisa nos outros. O chão recebe cada pé na forma de mundo, história que se passa na presença do passo. Impasse de ir, vontade de ficar, será? O compasso se abre e procura um raio exigente em contato com o ser. Há quem diga que é Deus na Terra, há quem duvide que és tu no céu. Do mar só tenho lembranças das mãos não me deixando ir para sempre - ninguém pisa no fundo do mar, mar não tem chão justamente porque o infinito é feito de areia movediça e sonho. O peso no piso de vidro quebra a última fronteira de estar, agora por detrás dos muros nos encontramos sem eira nem beira. A chuva cai e molha o chão, o céu desaba e faz a gente virar caos. Não há centro e nem corda. Não há mais como pisar nos outros. Somos um só formando uma estrela na superfície. Boiar é imaginar que voamos na água. A circunferência nos atingiu e ora somos pontos de luz à deriva. Hoje é dia de morrer de amor com você.

O filme sem título
Passamos pelo Passeio e demos de cara com a Senador Dantas que é um lugar sujo, poético, dionisíaco e paranoico do velho Rio. Na esquina próxima ao monumento de Ghandi, contei para ele que foi ali perto que outrora entrei no cine pornô (aonde atualmente é a Livraria Cultura) e que lá ocorreu a coisa mais engraçada que passei na adolescência aos meus 13 anos. Ele deu gargalhadas na chuva; talvez mérito da eloquência gestual da narrativa. Max é o irmão mais novo que hoje me falta. Eu 39, ele 32. Gosto de diminuir a minha idade e aumentar a dos meus amigos - a diferença de sete anos me esclarece sempre uma descoberta. Sete além do número de notas musicais é também o equivalente a quantidade de dias da semana - lembremos que a quarta só se chama quarta porque é o quarto dia da mesma. A semana começa domingo e não na segunda, o que corresponde dizer que ´fim de semana´ em nosso calendário é um termo de expressão falaciosa: o final de semana é a combinação da sexta com o sábado (não do sábado com o domingo) e, por isso sabe-se que o Criador descansou no último dia, o sábado; no domingo ele seria capaz de criar outro mundo porque nesse está faltando poesia. Mas, aquele dia era uma sexta-feira, em 16 de dezembro do ano de 2016. Foi bonito vê-lo sorrir na chuva. São essas coisas que guardo das pessoas que amo e, por isso, nunca (jamais) olho para trás em despedidas. Pois, caso algo ocorra na tragédia de nunca mais nos vermos, ficará o abraço e não o hiato como memória da cidade em nós. Enfim, esse hoje já não é mais o agora. Vem soando em prelúdio do verão a nostalgia que me gela o peito - meu corpo se perdeu de mim e não sabe mais se sente frio ou calor; está em crise térmica: não sabe se é corpo revestido por pele ou se é apenas uma pele sem derme; se é fogo ou gelo outra vez - aos meus 13 anos eu era um vulcão, apesar de que gelei quando vi o que ouvi daquele tarado que me seguia dentro do cinema. Apenas, lembro-me de sair disparado e pulado a roleta em direção à Avenida – um pé ficou preso na roleta e o tombo foi necessário. Crescer também é isso. Talvez, eu seja nesta dupla partida a expressão lacônica de um violino que arranha no mesmo lugar e não fura; quiçá seja uma faca que corta, mas não sangra. A vida é esse “sangue frio” à espera do tempo. Eu até tentei, mas não me lembrei do nome do filme.



Autoetno12
Tenho métodos tortos, nada convencionais de sobrevivência e recuperação do existir. Eles foram estruturados depois do agir, mas não, não era instinto - não gosto dessa palavra. Se, por exemplo, quero me lembrar de algum documento importante, jamais deixo sobre a mesa ou cabeceira. Acho cabeceira uma coisa triste e a mesa uma coisa que só tem sentido na presença do outro. Eu sou só, então sento em sofás e camas. Documento importante para lembrar-se de levar no outro dia há de ser disposto em cima da calça, afinal, ainda me visto para ir à rua; chaves, no entanto, deposito na geladeira ao lado do pão, mas se não houver pão ou leite uno a mesma à garrafa d'água - sempre acordo com sede; a solidão é um deserto. Aos 12 anos aprendi que se estou andando num lugar mais marginal devo de vez em quando cuspir no chão - nenhum bandidinho, daquele tipo bem bandidinho algum, vai em cima de quem supostamente é mais sujo que ele próprio, de quem não parece sozinho ou é tão sozinho que se acha protegido por Deus; covardes temem quem não parece temer. Dois passos, uma cuspidinha e gesticule sem parar como se ouvisse rap. Eu só tinha 12 anos e me rendia ao auto etnografismo. Pois, as minhas técnicas seguem as mesmas, mas agora vou começar a parar de cuspir no chão - homens de 40 anos tem que ser mais educados e, é verdade que tem gente mais suja para eu direcionar esses meus restos de ira; os de solidão são apenas os restos de mim, sem parte alguma.

Nicolas Dalprat - Silêncio

Epílogo
E disse o ator gritando do palco depois que a plateia se foi:
“_eu quero um amigo para falar sobre o que eu quiser e também o que ele quiser. Mas, sobretudo, alguém para pode ficar em silêncio ao meu lado sem tempo definido para voltar a dizer uma sequer palavra”. Por fim, apagou as luzes e se foi, mas antes concluiu seu epílogo: “_solidão só presta se for para ficar sozinho, sem jamais se sentir só”.

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Paulo Emílio Azevedo é professor, Doutor pela PUC-RJ em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014) – com este concorreu a final do Prêmio Rio Literário (2015) na categoria “Ensaio”. Com a atual publicação O amor não nasce em muros (2016) completa dez livros escritos, sendo o nono publicado. Entre os demais, destacam-se Meninos que não criam permanecem no C.R.I.A.M. - histórias sobre adolescentes em conflito com a lei (2008); Palavra projétil, poesias além da escrita (2013) e Ensaios de um poeta só (2015). Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da poesia falada e performance. É idealizador do sarau “Tagarela, o maior slam do mundo”, professor da oficina “Palavra Projétil” e autor do projeto “Biblioteca de griots”, os quais receberam contemplação em editais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Coordena a Rede de Criação e Protagonismos Cia Gente e a Fundação PAz. No ano de 2016 foi um dos escritores convidados pela FLIP, Paraty/RJ e da Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes/RJ. Em sua principal pesquisa na Literatura está a criação do gênero/método Reestruturalismo.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Professor Monteiro


Professor Monteiro

Por Marcelo Moutinho

O Professor Monteiro sempre gostou de fazer sauna. É relaxante, quebra o estresse, e o suor leva para fora do corpo as impurezas todas, disse, quando tentava convencer a esposa a topar o projeto de construir, no quarto de empregada, uma pequena sauna particular. Conseguiu. Há dois dezembros, o décimo terceiro salário foi todinho empregado na obra.
Dora, a esposa, não curtia sauna. Achava abafado, agoniante. Aos sábados, enquanto o Professor Monteiro suava no vapor, ela jogava buraco com as amigas. Ou via TV.
Titular da cadeira de ciências contábeis havia quase trinta anos, o Professor Monteiro era um dos mais notáveis docentes da universidade. Seu rigor na cobrança da matéria e a discrição no trato com os alunos legaram-lhe o cargo de chefe de departamento.
“Merecidíssimo”, comentou a esposa. A pesada carga horária não lhe permitia grandes arroubos de lazer, mas ele não deixava de cumprir um ritual secreto. Toda quarta-feira, aproveitando o tempo livre de uma hora entre duas disciplinas, ia da sede da universidade, em Botafogo, até a Rua Correia Dutra, no Catete, onde fica a Sauna 69.
O professor costumava chegar por volta de duas e meia da tarde, quando o lugar estava bem vazio. Comprava um jornal esportivo na banca em frente ao prédio e, certificando-se de que na rua havia pouco movimento, caminhava ligeiro até a portaria.
“Boa tarde”, limitava-se a dizer ao recepcionista ao pagar a entrada, vetando, no desenho da expressão fechada, qualquer conversa extra.
Com a chave do armário à mão, o Professor Monteiro encaminhava-se até o vestiário para tirar a roupa, guardar seus pertences e vestir o roupão atoalhado. Antes de ir para a sauna propriamente dita, ele passava no bar. Um uísque, com gelo. Um só não tem problema porque o álcool sai no suor.
Além do bar e da área da sauna, a 69 tinha jacuzzi, uma sala de TV, espaço para massagens e um quarto sem luz que é chamado de dark room, mas ele nunca esteve nessas dependências. Depois de tomar seu uísque, rumava para a sauna sem falar com ninguém. No corredor, se alguma mão tentava tocá-lo, esquivava-se sem apelar para a violência.
O Professor Monteiro, ao contrário de muitos dos frequentadores da 69, não gostava de ficar nu na sauna. Mantinha o roupão, apesar do calor. Mas gostava de ver os outros sem roupa. Admiro o que é belo, dizia para si mesmo ao sentir tão próximo o cheiro daqueles corpos e perceber o suor ressaltando o contorno dos músculos, serenando os pelos do peito, das pernas.
Embora não se permitisse maiores interações, ele conhecia bem os códigos do lugar. Olhar retribuído é senha para aproximação. Mão sobre o ventre é convite direto. A recusa pode se dar com uma simples virada de rosto.
Essa regra o Professor Monteiro manejava como ninguém. Ele não gostava de viadagem. Sou bem casado, muito bem casado, repetia volta e meia a quem quisesse ouvir.
E a esposa concordava. Nos quase trinta anos de matrimônio, foram poucas as vezes em que os dois não passaram juntos as horas de folga. Talvez por isso naquele sábado o Professor Monteiro estivesse se sentindo tão desnorteado. Dora iria participar de uma excursão a Araruama com as amigas da turma de hidroginástica. Passeio vetado aos maridos.
Ela saiu bem cedo, antes das sete, para não perder o ônibus. Ficou feliz ao perceber que o Professor Monteiro havia preparado um café da manhã especial, fez até omelete. Após se despedir de Dora, ele foi ler o jornal.
Sem a esposa em casa, o dia parecia ter encompridado. As horas não passavam e o Professor Monteiro pensou que seria bom fazer uma sauna. Era sábado, afinal.
Tirou a mesa, lavou as louças do café. Ao retornar à sala, viu o baralho em cima do buffet.
Não haveria carteado naquele dia, e o Professor Monteiro se sentiu livre, uma liberdade inédita, cheia de possibilidades. Hoje vou fazer algo diferente, decretou.

Trecho inédido do conto que Professor Monteiro que integra a antologia Ferrugem.

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Marcelo Moutinho é autor dos livros Ferrugem (Record, 2017) Na dobra do dia (Rocco, 2015), A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006) e Memória dos barcos (7Letras, 2001), além do infantil A menina que perdeu as cores (Pallas, 2013). Organizou as antologias O meu lugar (com Luiz Antonio Simas, Mórula, 2015), Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Contos sobre tela (Pinakotheke, 2006) e Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio (com Flavio Izhaki, Casa da Palavra, 2004), das quais é também coautor, e a seleta de ensaios Canções do Rio – A cidade em letra e música (Casa da Palavra, 2010). Seus textos foram traduzidos para França, Alemanha, Estados Unidos e Argentina, entre outros países.

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Lançamentos da antologia Ferrugem

Rio de Janeiro
31 de janeiro, às 19h
Livraria da Travessa de Botafogo

São Paulo
2 de fevereiro, às 19h
Livraria da Vila da Fradique Coutinho



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Alpharrabio : um gesto de resistência

Um projeto nanico de resistência ao gigantismo

Por Dalila Teles Veras

Em 1992, quando a Livraria Alpharrabio abriu suas portas em sede própria, em Santo André, SP, além da escassez de livrarias, não havia um único local na cidade onde interessados pudessem se reunir e partilhar vivências culturais. Muito mais que uma simples livraria de livros usados, como rezava seu contrato social, foi idealizada como polo cultural, difusor e fomentador da produção cultural e do debate de ideias. Um lugar de estar, onde as pessoas se reconhecessem como seres culturais, um lugar com significados, um lugar de pertencimento.

Localista apenas pelas circunstâncias, o Alpharrabio, por sua ação ininterrupta há um quarto de século, tornou-se referência cultural no Grande ABC Paulista, região Metropolitana de São Paulo, com  dois milhões e meio de habitantes, sempre com os sentidos de projeção e diálogo brasileiro/universal.


Editar livros não foi propriamente uma escolha, mas o resultado de determinadas circunstâncias. Em decorrência do encontro permanente de pessoas interessadas em literatura, a efervescência artístico-cultural instalada, fez-se urgente a criação de uma editora que pudesse dar conta de registrar e divulgar a notável produção literária e do pensamento ao redor. Graças ao decisivo entusiasmo e capacidade criativa de Luzia Maninha Teles Veras, criamos, em 1993, a chancela Alpharrabio Edições.

Desde então, seguimos com a tarefa sem fim de editar livros, sem jamais descuidar do rigor em nossa linha editorial que, diga-se, já projetou além-fronteiras muitos de nossos autores. Pela estreita relação que estabelecemos com estes, nosso catálogo foi-se compondo majoritariamente por escritores residentes na própria região onde estamos fisicamente estabelecidos. Longe de qualquer rótulo de caráter “regionalista” ou coisa que o valha, aquilo que seria apenas um dado facilitador do trabalho, acabou por compor uma certa “cartografia literária” de uma região fortemente industrializada, mais conhecida pelo mundo do trabalho.


Ao lado de edições comerciais, por prazer estético, também nos dedicamos a edições alternativas, artísticas e artesanais, com tiragens que vão de 38 a, no máximo, 300 exemplares. A coleção "micro", com 11 títulos de 38 exemplares cada, sendo que 8 fora do comércio ou, a coleção "mimo", com 18 títulos e tiragem de 92 exemplares, todos fora do comércio, publicados sempre "à revelia" do autor, são exemplos radicais dessa opção.
        
Alpharrabio Edições é, portanto, um projeto cultural sem preocupações com a lógica perversa do mercado. Um projeto nanico de resistência ao gigantismo dos conglomerados econômicos que passam o rolo compressor nos pequenos e tornam tudo homogeneizado, tedioso e previsível. O nosso compromisso é de outra ordem, a da resistência. Braço de um projeto maior que é o Alpharrabio (livraria e espaço cultural), o nosso plano editorial jamais estabeleceu metas, mas trilhou os mesmos caminhos, ou seja, nenhum "degrau" desta trajetória foi galgado com intenções que não fossem ao encontro daquilo que realmente somos: nanicos, sem que isso signifique descuidados.



Na contramão de uma sociedade em permanente revolução tecnológica, que supervaloriza hipérboles, assumimos cada vez mais essa condição. Somos movidos a paixão e comprometimento. Num tempo de urgências, optamos pela "slow edition", que vai do computador caseiro a uma eventual grande gráfica, passando ocasionalmente pela tipografia do mestre Raul e sempre pelo "Casulo 3x4" de Luzia Maninha, na certeza de que esta silenciosa revolução representa não só um gesto de resistência, como também um projeto político e cidadão.

Por fim, devo confessar que, ao menos uma vez por ano, baixa um certo desânimo e a ideia de encerrar as atividades é muito forte. Mas logo volto atrás, convencida, afinal, pelos mais próximos, de que esta história foi construída por muitos e não nos é mais permitido fechar um bem que já se configurou comum, por tudo que representa em seus significados simbólicos.



XXX





Dalila Teles Veras é escritora, editora e ativista cultural. Publicou mais de 20 livros, nos gêneros poesia, crônica, ensaio e diário literário, ao longo de 35 anos. Reside em Santo André, desde 1972, cidade onde nasceram suas três filhas e seus quatro netos. Fundou e dirige, desde 1992, a Alpharrabio Livraria, Centro Cultural e Editora, Santo André, SP, reconhecido polo irradiador de cultura. Coordena, desde 2007, o Fórum Permanente de Debates Culturais da Região do Grande ABC.
Consultem o sites :

sábado, 14 de janeiro de 2017

Filho da mãe

                                         Esther Shalev-Gerz, Les inséparables

Filho da mãe
Por Oscar Fussato Nakasato

Naquela tarde, uma dor de cabeça como nunca.  Servidor municipal, funcionário-padrão, nenhuma falta em seis anos. Homenagens, um certificado emoldurado e pendurado na sala do apartamento. A moça que atendia no balcão da biblioteca lhe disse um dia, Você vive no meio dos livros, por que não faz o concurso para trabalhar aqui? Exigência de Ensino Médio. Ele fez o concurso e passou em primeiro lugar. Vê os companheiros faltando ao serviço, a Mirtes inventando doenças, pedindo para mentir para a diretora. O livro-ponto como se fosse. O Paulo preenchendo o livro uma vez por semana.  Quem vai anotar que chegou atrasado, que saiu meia hora antes? Um relógio-ponto, sim. Digital. Sem digital, um bate o cartão para outro. O funcionário público sendo.   

         Mas, naquela tarde, precisando sair mais cedo. O analgésico que tomou na hora do almoço não resolveu.  A diretora, os óculos grossos de não sei quantos graus, a escrivaninha parecendo de um filme noir. Suas primeiras palavras para ela: me desculpe.  O dia está tranquilo, sem. É a primeira vez em seis anos que você me pede para sair mais cedo, acha que vou negar? Quando chegar, vá para o quarto, feche a cortina, fique deitado. Você precisa de silêncio.

         No ônibus imagina a mãe na sala assistindo ao filme da tarde ou bordando. Um susto ao vê-lo tão cedo. Estranho chegar no meio da tarde ao apartamento.  O dia cinzento, mas sem chuva. Devagar, pisar devagar para doer menos. A mãe não está na sala. Até a cozinha, um copo de água da geladeira. Depois vai para o quarto da mãe. Abre a porta.   

         Viviam felizes. O pai, a mãe, Lorena e ele. Quando resolveram se casar, fizeram as contas: aluguel, geladeira, fogão, os móveis. Tudo tão caro. Ele há pouco tempo na biblioteca, ela, um pouco mais que o salário mínimo no balcão da farmácia. Vamos morar com papai e mamãe, propôs, e Lorena aceitou. Que jeito? Acordavam os quatro às seis e meia. A mãe preparava o café, os outros se trocavam para ir ao trabalho.  Sentavam-se à mesa da cozinha faltando dez minutos para as sete, tomavam leite com café e comiam pão caseiro com margarina, às vezes com doce de abóbora ou doce de. Os três saíam às sete e quinze.  Ele e o pai paravam no ponto de ônibus, Lorena seguia a pé até a farmácia.  O pai tomava o 208 para a metalúrgica, ele, o 111 para a biblioteca.  Retornavam para o almoço.  O pai sustentando que era um privilégio morar numa cidade assim, no interior, Em São Paulo ninguém almoça em casa. Arroz, feijão e. Acabou a pimenta, mãe? No início da noite, os três retornavam para casa. Cansados. Felizes. A mãe no sofá da sala, assistindo à novela das seis. As panelas no fogão. O jantar invariavelmente às sete. A mãe querendo notícias da rua, porque as novelas. Lorena, alguma fofoca da farmácia, a moça do caixa que estava grávida e não sabia como contar aos pais. Depois, o jornal da televisão, a novela das nove horas.  

         O pai e Lorena morreram. Ele, no mês de março, ela, em junho. O pai, atropelado pelo 111. Lorena, um aneurisma. Aneurisma é um grande azar, disse o médico. Então, órfão de pai e viúvo. Mas viúvo é sempre velho. Viúvo é careca ou tem cabelos brancos. Ele, trinta e um anos. Na estante da sala, os dois porta-retratos, o pai sorrindo, Lorena com a cara séria.

         Seguiram mãe e filho acordando às seis e meia, a mãe preparando o café , somente duas colheres de pó depois que. Almoçavam ao meio-dia, jantavam às sete e meia, assistiam ao jornal e. Depois ela ia lavar a louça, reclamava de uma dor no lombar, ele ia para o quarto. Deitava na cama, o quarto cheio de lembranças de Lorena.  Abria um livro, geralmente uma biografia. Quando se cansava da leitura, enfiava a mão debaixo do colchão, pegava uma revista para se masturbar. Antes de, dispensava a revista e buscava, de olhos fechados, a imagem de Lorena, nua, ou somente o seu rosto, que, antes, gostava de ficar vendo enquanto se movimentava sobre o seu corpo, as pernas dela enlaçando-o.

         Aos domingos, o privilégio de acordar um pouco mais tarde, às sete meia ou às oito  horas, era norma. Quando despertava antes e não conseguia mais dormir, ficava irritado, como se. Quando Lorena vivia...? Quando Lorena era sua esposa...? Enfim, cutucava-a para que ela compartilhasse o seu desconforto. Na alegria e na. Depois do café-da-manhã, a missa das nove na igreja do bairro, o mesmo ritual, somente o sermão se renovando.  Na volta para casa, comprava o jornal na banca de revistas, o mesmo jornal que lia de segunda a sábado na biblioteca. Depois a mãe se entretinha com os bordados. A casa cheia de toalhas e tapetes com os bordados da mãe. O almoço às 12 horas. Macarrão de domingo.

          Após o almoço, uma soneca em frente à televisão. Às vezes, tomavam o ônibus das 14 horas, atravessavam a cidade e iam à casa de um primo do pai, o único parente. Desde que era criança, a família ia lá, a casa de madeira, o pai e a mãe na sala com o primo solteiro, o pai e a mãe no sofá, o primo na poltrona, conversando, a televisão ligada no programa do Faustão ou no futebol, e ele sentado na escada que havia na entrada da sala. O domingo. A mãe continuava visitando o primo do marido morto, e ele junto, ele e a mãe sentados no sofá, a televisão ligada no Faustão ou no futebol. Voltavam com o sol se pondo, o motorista do ônibus bocejando, um passageiro reclamando que o fim-de-semana passava muito rápido.

           Quando abre a porta do quarto, vê a mãe e o primo na cama. Ela alcança o lençol para se cobrir, os dois olhando para ele, sem saber o que falar, até que a mãe diz, Meu filho, o primo Nelson e eu... Não quer ouvir as.  Sai batendo a porta, sai correndo do apartamento, desce os quatro lances de escada até chegar à rua. A dor de cabeça, a mãe debaixo daquele homem. Ir para a esquerda, ir para a direita, atravessar a rua? Escolhe sem razão ir pela calçada, à direita. Quinze minutos depois, o coração desacelera. A dor de cabeça passará. No dia seguinte, levantará às seis e meia, irá à biblioteca, que estará esperando por ele, e ele não se atrasará.

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Oscar Fussato Nakasato nasceu em Maringá, PR, onde morou até completar 8 anos. Atualmente reside em Apucarana, na Vila Agari, e é professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Graduou-se em Letras na Universidade Estadual de Maringá. É mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista. Em 1999 foi premiado com os contos “Olhos de Peri” e “Alô” no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul, que os publicou com outros três num volume que se chamou “Contos”. Em 2003, foi vencedor do Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, com o conto “Menino na árvore”, que também foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso. Em 2011, seu romance Nihonjin venceu o Prêmio Benvirá de Literatura e foi publicado pela Editora Saraiva. No mesmo ano, o romance dividiu o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Contos do Sol Nascente”, de André Kondo, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota. Em 2012, Oscar Nakasato, venceu a 54ª edição do Prêmio Jabuti na categoria romance. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Mulher é tudo igual



ESCORPIÃO
As duas irmãs dormiam no mesmo quarto. A mais velha tinha os cabelos curtos e negros, expressão grave e sofria com a gordura que lhe avantajava o corpo. A caçula, muito meiga, tinha olhos rasos e azuis como piscinas infantis.
Certa noite, pé ante pé, a mais velha levantou-se, abriu a cesta de costuras e apanhou a tesourinha de bico curvo. Sem fazer barulho algum, cortou os longos cabelos da irmã, frágeis linhas amarelas que nem pra bordar serviam mais. Depois enterrou a tesoura nos olhos da boneca.


MULHER É TUDO IGUAL
Eu e a Marieta Severo não temos tempo pra solidão. Ela foi casada com Chico Buarque, eu com João Teodoro. Ambos nos deram muito trabalho. Teodoro era alcoólatra e me batia na cara. Passei com ele os piores momentos da minha vida. Como se não bastasse era meio veado, o cara. Vivia se enroscando com garotinhos por aí, depois os trazia pra casa e me apresentava como coleguinhas de trabalho. Ora, vê se eu sou boba. Punha os moleques pra dormir na minha cama, “ele não tem pra onde ir, coitado”, e dormia comigo no sofá da sala. No meio da noite, João sumia.

Quando bebia além da conta e se punha a fazer escândalo, eu lhe dizia: qualquer hora pego minha bolsa e vou embora sem nem me despedir. Ele não acreditava. “Mulher é tudo igual”, dizia.

Um dia eu estava na cozinha preparando o almoço quando João entrou e me viu despejar meio litro de azeite, dos bons, no copo do liquidificador. “Pra que tanto azeite?”, berrou. A receita é essa, molho pesto é assim mesmo, vai azeite pra burro. Não sei por que, meus olhos se encheram de lágrimas. Liguei o liquidificador na potência máxima e aquele barulho infernal, e aquele manjericão todo moendo lá dentro, e aquelas nozes sendo trituradas, e aquele verde virando pasta cheirosa, foi me dando uma coisa de novidade, de começar de novo, uma coragem, que eu fui ao quarto e peguei minha bolsa. O liquidificador ficou ligado. Depois disso arranjei tanta coisa pra fazer, pra me divertir, que nem tive tempo pra solidão. João Teodoro estava certo, mulher é tudo igual. Um dia vira tudo Marieta.

Jeff Koons, Caniche, 1991 © Musée Collection Berardo / Fondation d'art moderne et contemporain

CADELA
Não que eu faça muita questão dos passeios, gosto mesmo é do bem bom das almofadas de cetim, do chinelo de saltinho, do pegnoir de plumas. Mas quando ele aparece com a coleira nas mãos, eu me espreguiço, passo perfume atrás das longas orelhas peludas e vou. De braço dado com o senhor meu marido, desfilo feito rainha, matando de inveja as outras cadelas da vizinhança.


XEQUE MATE
Quem me vê com esta coroa na cabeça e este manto cravejado de brilhantes sobre as costas é incapaz de me imaginar nua embaixo do corpo de Felipe, este mesmo que se ajoelha à minha frente e me jura fidelidade como um súdito qualquer. À noite, nos aposentos reais, ele sempre expressa um certo nervosismo ao me ver de pernas abertas. Eu entendo. Não deve ser fácil comer uma rainha.

GILDA
Nunca houve mulher como Gilda. Ruim como a peste. Seu prazer era atazanar a vida de quem estivesse ao redor. Na hora de escolher a profissão, foi ser manicure. Sangrava as clientes de propósito só para vê-las pulando na cadeira. Um dia foi chamada para fazer o pé de Damião. Achou o pé do rapaz tão lindo, tão macio, que não teve coragem de feri-lo. Pela manhã, ao vê-lo nu sobre a cama, comentou como se fosse sem querer: sabe que eu pensei que seu pinto fosse maior?


RECEITA PARA COMER O HOMEM AMADO
Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro verde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais.


SÃO CRISTÓVÃO
Eu sozinha nesse bar, um pires de azeitona a minha frente e uma cerveja quente pela metade. Largada nesse canto da vida é difícil acreditar que o Rodrigo Santoro vai passar por aqui e se apaixonar por mim. Mas vai.

La Mariée, Niki de Saint Phalle

A VERDADEIRA TRAGÉDIA
Jamais esquecerei aquele 11 de setembro. Quando acordei, estranhei que Hugo ainda estivesse em casa. Normalmente, ele já teria tomado banho, feito o café e saído para o trabalho. Mas não, ainda estava lá, sentado na sala, de camisa esporte. 
- Precisamos conversar – ele disse.
- Fala – respondi com a boca seca.
- Eu estou indo embora.
Sem querer ouvir o resto, levantei-me e fui à cozinha. Debrucei-me sobre a pia com o corpo tremendo. Pensei em pegar uma faca.
- A chave está na mesinha – ele disse lá da sala.
Foi a última vez que ouvi sua voz. Soube depois que, nesse mesmo dia, aconteceu um acidente terrível em Tóquio ou Nova Iorque. Um avião egípcio bateu numa torre e derrubou uma antena de televisão. Não sei direito como foi a tragédia, mas duvido que tenha sido pior do que a minha.

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Ivana Arruda Leite nasceu em 1951, em Araçatuba (SP). Mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo, publicou três livros de contos: Histórias da Mulher do Fim do Século, Falo de Mulher e Ao homem que não me quis (reunidos na antologia Contos Reunidos). Seu mais recente livro de contos é Cachorros (2014). Publicou ainda uma novela Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e dois romances: Hotel Novo Mundo e Alameda Santos. É autora de livros infantis e infanto-juvenis. Está em todas as redes sociais. Mora em São Paulo. Ministra oficinas de contos.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Horizonte de espelhos

Michelangelo Pistoletto, Twenty-two-less-two, 2009

Horizonte de espelhos
Susanna Busato




marugem

As coisas surgem
do caule da gente
insurgem
marugem
de esponjas
quais monjas
silenciosas



*
horizonte de espelhos
colunas e conchas
água clara
seios
no chão as curvas
de um sol navegam
sua ilha
clitoriana gruta
horizonte de espelhos
superfície ao reverso

*



on part

part
ida

à espera e à deriva
como um lenço ao longe
a cena assina

sino úmido
lusco-fusco
som pregueado no branco
punho abrupto de pedra
partida
réstia de tempo
que se engole
sem vida

*




Tarde inescrupulosa...
Teu olhar invade-me as coxas
Entre claves de sol e colcheias

*
Postes

Na resistência da tarde
espreito esquinas:
solitários, os postes se
entreolham se
desejam nas
vielas e
virilhas


*

oralidades

entre lábios
inchados
a língua devora
o grito

oralidades
à luz
das grutas

estalactites
roçando
as curvas

na sua boca
todas
surtam



*

As mulheres têm peitos.
Pelos peitos elas tecem
sua presença redonda e completa.
Sob a blusa os peitos falam
descansam
caminham.
Somente os peitos têm asas.

*


Réveiller

um corpo acorda
sustenido
em meu peito

um corpo sombra
sobre o meu
raro e perfeito

um corpo onda
*

un regard

onde ) ouverte (
oferta aérea
) fenétre de l’esprit (
vacante vaga
palavra ) ivre (
intacta
ronda-me
cibernética
e assalta? )
*

Nascimento do olhar
(inédito)

O pôr do sol avermelha o horizonte.
O sol se põe no vermelho do horizonte.
O vermelho se horizontaliza no sol.
O pôr do sol orienta o vermelho.
O horizonte deposita vermelhos no sol.
Um sol se põe na vermelhitude ortogonal do horizonte.
Um horizonte avermelha ao sol.
Em decúbito dorsal o sol do sol
avermelha.
Horizontalizam vermelhos de sol.
Solarizam rubros horizontes vergéis.
Vertem vermelhos espelhos de sol.
Horrorizontes vesgos vergam-se ao sol.
Horrorizontes velhos vertem vespas de sol.
Horrorizontes vermelhizam sendas de sol.
Vertem rubros vergéis em horizontes de fel ao sol.
Um pôr de sol depõe contra o horizonte.
Vermelhorror:
o sol se
con-
some.

Xxx




Susanna Busato é poeta, paulistana, professora de Poesia Brasileira na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP, campus de São José do Rio Preto / SP. Coordena o Grupo de Estudos de Poesia – GEP/CNPq, voltado à pesquisa em poesia brasileira e à sua divulgação, por meio de atividades de leitura e recitais, e atividades de extensão. Participou do Recital “Multitudo Haroldo de Campos”, no Itaú Cultural, em São Paulo, em 2011, e do Recital “Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros” (homenagem a Oswald de Andrade), na FLIP em Paraty em 2012, ambos patrocinados pelo Itaú Cultural. Seu projeto de pesquisa atual intitula-se “As performances da voz no espaço da poesia brasileira contemporânea”. Tem poemas publicados em antologias e revistas, como Anamorfoses, Cult, Brasileiros e várias revistas eletrônicas como Zunái, dEsEnrEdoS, Mallarmargens e Aliás. Tem ensaios publicados em livro e em revistas acadêmicas e especializadas em literatura e arte. Premiada pelo Mapa Cultural Paulista, fase estadual, categoria Poesia, em junho de 2010. Publicou como organizadora e autora de capítulos quatro livros em parceria com outros autores, pela Editora da UNESP (A memória do sujeito e a memória da linguagem: redes textuais, 2010; Fragmentos do Contemporâneo: leituras, 2010; Figurações Contemporâneas do Espaço na Literatura, 2011; Em Torno de Hilda Hilst, 2015). É autora do livro de poemas Corpos em Cena (Editora Patuá, 2013), finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014.