quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Hoje, estou artista

© Mariana Keller

O vazio-pleno da natureza

Maio 1959,
Carta à Mondrian

       Hoje me sinto mais solitária que ontem.
       Senti uma enorme necessidade de olhar o teu trabalho, velho também solitário. Dei com você numa foto fabulosa e senti como se você estivesse comigo e com isto já não me senti tão só. Talvez amanhã possa dar também de meus olhos, de minha solidão e de minha teimosia a alguém que será um artista como eu ou talvez mais ainda, como você. Não sei pra que você trabalhava. Se eu trabalho, Mondrian, é para antes de mais nada me realizar no mais alto sentido ético-religioso. Não é para fazer uma superfiície e outra... Se exponho é para transmitir a outra pessoa este "momento" parado na dinãmica cosmológica, que o artista capta. Você que era místico deve quantas e quantas vezes ter vivido "momentos" como este dentro da vida, ou não?
       Dizem que você detestava a natureza - é verdade? Pois eu senti hoje essa transcedência através da natureza, na noite, no amor - como você poderia ter raiva da natureza? Você acha que a obra de arte é o produto de duas polaridades, que é a dinâmica da vida humana? Você estava preso à terra tão profundamente e o vôo no sentido da verticalidade era sua medida?
       Pois a natureza me alimentou, me equilibrou quase que de uma forma panteistica. Mas com o tempo, numa outra crise, já isto não adiantou e foi o "vazio pleno", a noite, o silêncio dela que se tornou a minha moradia. Através deste "vazio-pleno" me veio a consciência da realidade metafísica, o problema existencial, a forma, o conteúdo (espaço pleno que só tem realidade em função direta da existência desta forma...).
       Mondrian: você acreditou no homem. Você fez mais: num sonho utópico, estupendo, pensou em eras vindas em que a própria vida "construída" seria uma realidade plástica...


Piet Mondrian Red Tree Oil on Canvas 1908

       Talvez isto te salvasse da tua própria solidão. Pois eu, meu amigo, não sonho porque não acredito. Não por excesso de realismo mas para mim o coletivo só existe na razão desta desordem de ordem prática e social. Se o homem não pode sentir como é importante esse desenvolvimento interior - chamemos de uma forma que nasce com a pessoa como um punho fechado, talvez se abrindo no primeiro tempo com o próprio nascimento - então ele jamais poderá atingir sua plenitude como a rosa que se abre dentro do seu próprio tempo e morre amorosamente realizada, inteligente e feliz...
       Mondrian, um segredo eu vou contar: às vezes, eu me sinto tão desesperada, porque no momento em que "checo" este problema a solidão, o frio, "o medo do medo" me envolvem com todos os seus braços e procuram fechar este novo tempo que desabrocha na minha forma interior, amassando pétalas frescas e delicadas que levarão novo tempo para se abrirem como se abre um olho devagar, depois de ter levado um bom murro.
       Mondrian, se sua força pode me servir, seria como o bife cru colocado neste olho sofrido para que ele veja o mais depressa possível e possa encarar esta realidade às vezes tão insuportável - "o artista é um solitário". Não importam filhos, amor pois dentro dele ele vive só. Ele nasce dentro dele, parto difícil a cada minuto, só irremedialvemente só. Você seria talvez a chuva que molha a flor que nasceu na areia ou no asfalto, se você prefere, pois é cidade e não natureza.
       Você hoje está mais vivo para mim que todas as pessoas que me compreendem, até um certo ponto. Sabe por quê? Veja só se tenho razão ou não. Você já sabe do grupo neoconcreto, você já sabe que eu continuo o seu problema, que é penoso (você era homem, Mondrian, lembra-se?). No momento em que o grupo foi formado havia uma identificação profunda, a meu ver. Era a tomada de consciência de um tempo-espaço, realidade nova, universal como expressão, pois abrangia poesia, escultura, teatro, gravura e pintura. Até prosa, Mondrian... hoje a maioria dos elementos do grupo se esquecem dessa afinidade (o mais importante) e querem imprimir um sentido menor a ele, quando preferem que ele cresça sem esta identidade para mim imprescindível, numa tentativa de dar continuidade superficial a este movimento. Você bem sabe que, no cubismo, as formas foram várias mas, no sentido mais profundo que era esta nova realidade espacial, foram respeitadas. Só o tempo a meu ver traria continuidade real a este movimento.


Lygia Clark (b. Belo Horizonte, Brazil, in 1920; d. Rio de Janeiro, Brazil, 1988)
       Agora, velho, simpático mestre, diga-me com toda franqueza: meu desejo é deixar o grupo e continuar fiel a esta minha convicção, respeitando a mim mesma, embora mais só que ontem e hoje, eu serei amanhã, pois as pessoas que se aproximaram um dia, há bem pouco tempo, se afastam desorientadas sem enfrentarem a dureza de estar só num só pensamento, sem resguardar o sentido maior, ético, de morrer amanhã, sozinha mas fiel a uma idéia. Diga, meu amigo: é duro, é terrível porque é deixar de ter, mesmo sem me afastar realmente do grupo, pois já se fragmentou a unidade, a verdade dura e terrível feita a sete para se multiplicar em realidades pequenas - reconfortantes por certo, às centenas.
       Hoje eu choro - o choro me cobre, me segue, me conforta e acalenta, de um certo modo, está superfície dura, inflexível e fria da fidelidade a uma idéia.
       Mondrian: hoje eu gosto de você.
                            Lygia Clark[1]


XXX


© Mariana Keller

Hoje, estou artista

Mariana Keller

       À partir dessa carta de Lygia Clark sou capaz de traçar muitos paralelos com as minhas reflexões desse "momento" dentro da vida. Ao lê-la, sinto como se a artista fosse capaz de me traduzir com uma precisão que eu mesma seria incapaz de determinar.
       Talvez seja uma questão mística...talvez seja apenas a subjetividade com a qual ela se expressa. Ou talvez, ainda seja pela magnífica metáfora ao comparar Mondrian à chuva que nutre a flor que nasceu no asfalto que me lembra Carlos Drummond de Andrade em sua A Flor e a Nausea. Pouco importa.
       Peço licença a artista porque faço minhas algumas de suas palavras, hoje me sinto Lygia.
       Todo artista é solitário. Todo ser humano é um solitário. Ao refletir sobre o estar só, a solidão ou o "vazio-pleno", Lygia descreve inúmeras das vezes nas quais se deparou só, chegando ao ponto de comparar sua vida à vida de outro artista. O medo do medo e o desespero...quem nunca se sentiu solitário? Acreditei, ingenuamente, que a solidão era o antônimo da felicidade. Bobagem. Estar só, saber estar só...querer estar só é uma qualidade admirável.
       Ah, o silêncio!
       Só existe uma coisa que me inspira mais do que o silêncio: "o vazio-pleno" da natureza. Eu tenho um fascínio pela natureza. Adoro a cidade e muito, mas de tempos em tempos preciso me distanciar dela. Eu preciso da linha do horizonte. É nessa atmosfera quase material deste "vazio-pleno" que eu me equilibro.
       Essa solidão, esse desespero que dispara o medo e que asfixia é só a falta de ar. Falta do horizonte. Você já reparou que não existe mais a linha do horizonte em São Paulo?
       As linhas do horizonte em São Paulo são verticais e estão no plural. Elas são poligonais dos mais variados formatos que contornam a paisagem construída. Uma linha do horizonte clássica, onde o olhar se perde e os pensamentos divagam dividindo a paisagem em duas, não existe mais.
       Eu preciso ir além, eu preciso ir à algum lugar onde se perca de vista o horizonte e então tudo fica bem. Nesses momentos a forma, o conteúdo e o existencial se encaixam. Mas não é apenas uma questão de espaço físico...
       Eu já acreditei no homem, também acreditei que a "vida construída" poderia ser uma realidade plástica. (Tenho um quadro do Le Corbusier na sala e um poster da Bauhaus no quarto que me lembram da habilidade humana de projetar o espaço); mas também estou de acordo com a Lygia:  o coletivo só faz sentido na beleza e desgraça da desordem na qual vivemos. A arquitetura sozinh\\ já não me basta.
       Capturar a realidade "plástica" da vida não-construída é um desafio e tanto. Se eu fotografo talvez seja para coletar esses momentos e transformar em uma superfície sensorial algo que sou incapaz de traduzir naquela situação. Nesse sentido a fotografia só não me basta.
       Falta o olhar para dentro. Por isso me apropriei de seus olhos, de sua solidão e de sua teimosia. Talvez com uma chuva de Lygia Clark eu possa um dia ser uma artista como ela.
       Adoro a ambiguidade da declaração final que soa como um elogio a princípio. Hoje sim, amanhã talvez.
       Hoje, estou artista.

Xxx



Mariana Keller é nascida em Guarulhos em 1983, trabalha e estuda em Paris. Formada em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, tem formação complementar em fotografia, cenografia e artes visuais. Desde 2013 desenvolve séries fotográficas tendo como tema os Espaços de Paisagem. Em 2016 inicia o master em Esthétique parcours « Téorie Culturelle » na Sorbonne e atualmente cursa a Licence menção « Langues, Littératures et Civilisations Etrangères et Régionales » parcours « Portugais » na Sorbonne.









[1] Escritos de Artistas Anos 60/70, FERREIRA, Gloria e COTRIM, Celilia (orgs), 2006, p.46

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