terça-feira, 24 de outubro de 2017

Essa sobra de mim


Essa sobra de mim


Reginaldo Pujol Filho

Estavas tão bonito, recolhendo meu olhar pela calçada. E eu aqui a te observar com o olhar que me sobrou. Recolhias meu glóbulo que agora nem sei se ainda é olhar, fora do meu rosto. Minha orelha que pende no meio-fio é ouvir? E essa mão minha na mão tua que tiras do asfalto, como se me tirasse para dançar? Pena ser somente ela quem vai, já que meu braço foi descansar lá do outro lado no momento em que o carro me partiu em duas, três, quatro, tantas. Mas agora sou apenas uma, um olho só, uma cabeça só a te mirar tão lindo. O que sentes neste exato momento em que seguras firme uma das minhas coxas? Percebes minhas horas de academia, meus anos de balé?

Tem nome essa tua profissão de recolher meus pedaços, meu sangue do chão? E importam nomes agora que encontrei um homem capaz de tocar cada pequeno canto de mim? Olha, que incrível, tu reparas, eu era feita de mínimos detalhes, notas o mindinho do meu pé esquerdo que, não imagino como, se desgarrou, foi para longe dos quatro irmãos, que devem estar ainda com o pé (com a perna) em algum lugar que este único olho que me resta não consegue alcançar.

Quem me dera ter sido forte e resistir ao impacto do para-choques, do capô, dos estilhaços, quem me dera ter caído inteira no asfalto, para depois ter caído inteira nos teus braços. Mas, fosse assim, tu virias me recolher? Ou seria um enfermeiro, uma enfermeira, cuidando para que eu sobrevivesse?

Isso sim seria a morte, não descobrir que algum homem, alguma vez na vida, poderia recolher meu tronco com o zelo, com o carinho e com a firmeza com que pegas esta parte de mim. Veja, lindo, teu olhar agora encontra este meu. Vens por ele ou pela cabeça, ou, devaneio, por isso tudo que sinto? Sinto aonde se meu coração já está naquele saco preto? Mas sinto, sinto, sinto em algum lugar dessa sobra de mim que agora sou, sinto que esse homem que recolhe minha cabeça da calçada como se fosse me dar um beijo, é o homem da minha vida, mesmo que nessa hora derradeira, em que dela me despeço.

Estás tão bonito aí fora, largando minha cabeça aqui no saco preto.

 (conto do livro inédito Por que estamos todos juntos se somos diferentes?)

Xxx



Reginaldo Pujol Filho (Porto Alegre/1980) é autor de Só Faltou o Título (Record, 2015), Quero Ser Reginaldo Pujol Filho (Não Editora, 2010) e Azar do Personagem (2007). É mestre e doutorando em Escrita Criativa pela PUCRS e tem pós-graduação em Artes da Escrita pela Universidade Nova de Lisboa. Publica ensaios e resenhas em espaços como O Globo, Zero Hora, Suplemento Pernambuco. Organizou a antologia Desacordo Ortográfico (2009), que reúne 19 nomes de 5 países lusófonos e é curador da Coleção Gira, de literatura de língua portuguesa da editora Dublinense. Leciona e coordena cursos de criação literária como o .TXT (Perestroilka) e “Quem está falando – o narrador com personalidade”.

www.reginaldopujolfilho.wordpress.com
www.porcausadoselefantes.blogspot.com

@Quero_Ser

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