sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A Pitonisa do Cambuci

A PITONISA DO CAMBUCI

por Bruno Cirillo

Cristina Judar assume a voz de quatro personagens, entre eles um genial Serafim, no seu primeiro romance, Oito do Sete, que narra encontros, desencontros e escolhas amorosas, indo de São Paulo a Roma com uma bagagem cheia de referências peculiares

Se os escritores escrevem porque precisam sobreviver - e não por motivos divinos, o que é discutível - Cristina Judar não brinca em serviço. Autora de dois livros, com diversas colaborações na imprensa e no ramo das HQs, ela é uma verdadeira profissional. Metáforas e comparações como " terremotos são o orgasmo do planeta" e "o intestino é um baixo coração" mistificam Oito do Sete, seu primeiro romance, lançado neste ano pela editora Reformatório. No livro, Cristina pinta um quadro onírico com detalhes cinematográficos, musicais, das artes plásticas, sem que isso o torne pedante, pois o que ela faz é colocar a sua erudição (bagagem cultural adquirida nos anos 1980 e 1990) a serviço da narrativa.
Oito do Sete é livro para quem gosta de literatura, como certos diretores fazem filmes para cinéfilos. Mas também é um livro pra todos. Se há demasiada abstração no início, que descreve o nascimento, infância e adolescência da Magda, ela e sua amante, Glória, vão se revelando nas páginas seguintes como uma fotografia analógica. Num exemplo de maturidade literária, Cristina escreve na justa medida de quem conhece a própria força. Descreve sonhos, mergulha na essência dos personagens e constrói frases de um realismo evanescente, olhando ironicamente para o abismo antes de voltar à realidade palpável. "E daí até arrumar as melhores palavras para, nelas, fazer caber tudo o que existe, o esforço necessário antes de se chegar ao extrato das coisas - o que chamam literatura."

O que você acha de panteísmo?
Nossa, que difícil. Você diz em que sentido?

A crença em Deus como representação do universo e das forças da natureza. Ou do politeísmo, que é a crença em diversos deuses, o que você acha?
Eu acho ótimo. Você pega a cultura hindu, por exemplo, que é muito forte. A nossa africana também. Acho maravilhoso, porque é a diversidade da natureza expressa em deidades, em figuras, não é uma coisa única, com uma cara só. A pessoa que está conectada com esse politeísmo tem uma visão mais real do que é a vida e a natureza.

E de uma deusa mulher?
Isso é incrível em termos de simbologia e de significado para as mulheres. Eu acho incrível que existam essas deidades. Deusas. Eu gosto muito, eu tenho uma afinidade muito grande, embora eu não me considere, hoje, uma pessoa religiosa.

O escritor está em missão sagrada, profana ou é antes um profissional que depende daquilo para sobreviver - o que Balzac chamava de 'operário das letras'?
Não dá pra unir tudo: profano, divino e operário das letras? Eu acho que une tudo isso. Mas eu não entendo a escrita como um trabalho que alguém me pagou, falando: 'olha, agora você está sendo uma operária das letras' - no sentido de executar um serviço a mando de outrem. Aí não. É uma coisa muito individual e muito libertária. Até me tira dessa cadeia de ser operária, de estar dentro de um sistema e executar ordens ou movimentos repetitivos. Até pode ser um movimento repetitivo, mas pra mim mesmo e porque quero, não porque estou sendo operária para os outros. 

A Bíblia é o livro primordial, ou um dos livros primordiais?
(Você está puxando para o lado religioso - por quê? Justo comigo.) Deve ser pra muita gente, mas para mim não.

Onde se baseia toda a literatura, quero dizer.
Acho que não tenho condições de analisar com esse nível de profundidade a literatura que remete à Bíblia. Não sei, algumas pessoas devem acreditar e ter embasamento pra isso. Eu não tenho - porque eu tenho um conhecimento muito limitado da Bíblia, então não posso fazer esse tipo de afirmação. Eu digo que no meu caso, especificamente, não.

O pensamento pagão é muito presente no Oito do sete.
O que te levou a achar isso? Que o livro é pagão?

Tem uma passagem com receita de feitiço, por exemplo.
Tem a passagem da benzedeira.

Eu achei que você tivesse referências pagãs.
Eu tenho. Tenho por interesse pessoal, por pesquisas e vivências que já fiz, porque me aproximei de grupos. Não pratico, hoje, mas já tive muito interesse. E foi um momento importante pra mim, eu aprendi muita coisa. Mas acho que no livro... é interessante você falar disso porque geralmente o pessoal me procura pra falar do relacionamento dos personagens. A questão da fé é muito presente no livro, como um dos questionamentos maiores. E que bom que você percebeu, não ficou só na questão de 'ah, eles fazem sexo...' - aquilo é uma passagem, e nem é a mais importante. É uma reflexão sobre essa questão mesmo, religiosidade e fé.



Na sua descrição de Roma, você diz que a origem da cidade remete às pitonisas, que são bruxas mitológicas.
Eu fui a Roma e procurei resquícios pagãos na cidade. Acho ótimo que você tenha reparado nas pitonisas. Teve um dia que eu fui para o Panteão [templo romano usado pelos antigos antes de virar igreja católica] e fiquei olhando para aquela abóboda, me perguntando o que havia antes do cristianismo, o que ainda havia ali de pagão. Mas eu não achei quase nada, saí muito frustrada. Foi tudo suplantado, totalmente, pela Igreja.

Você é ateia?
Não. Eu não sei explicar. Durante a produção do livro, eu tive vários sinais. Eu sou uma pessoa supersticiosa. Engraçado isso, não é? Eu não tenho uma fé especifica, uma religião, eu nego muitas coisas, mas sou uma pessoa extremamente supersticiosa. Eu vejo sinais, eu leio as coisas como sinais. Um dia cismei que Roma deveria entrar no livro, aí logo depois tive um encontro de poesia e o primeiro poema era sobre Roma. Foi um sinal. Depois aconteceram vários fatos em sequência que interpretei como sinais. Tora hora aparecia Roma na minha frente. Eu pensei: 'gente, não é possível'. É igual aquele lance do 11h11, sabe? Você começa a ver os números, mas não é que eles resolveram aparecer, é você que...

...está disposto a enxergá-los. Sim. 
Mas eu entrei nessa pira, vamos dizer assim, e isso me fez bem. Eu pensei: é pra ser Roma mesmo. Me baseei nisso para compor o Serafim, e fui pesquisar algumas pinturas. É uma figura que está no topo da hierarquia angelical, mas existem poucas representações suas. Eu comecei a pesquisar como ele foi representado no decorrer dos séculos, mas é super raro achar quadros dele. Escrevi para o Vaticano, mas ninguém me respondeu. Em Londres, eu fui à National Gallery e encontrei uma imagem. Nossa, aquilo foi demais. Na minha frente, aquele quadro gigante do Serafim. Eu fiquei exultante, o segurança do museu não entendeu nada.

"Ter seis asas é estar nu", diz o Serafim. Ele parece um daqueles anjos do Wim Wenders, que também são figuras da cristandade. A sua obra faz, afinal, concessões à cruz e à espada, ou pelo menos à base teológica do cristianismo.
Com certeza. Cito e respeito.  Eu não nego completamente, está na obra e eu estou fazendo uso de um personagem que faz parte de toda essa cosmogonia. Eu criei o Serafim de um modo que ele pudesse ser real, eu deixei ele mais próximo de nós. Em muitos momentos, em várias passagens, ele está próximo daquelas mulheres e continua sagrado. Em alguns momentos ele interfere e transmite o fogo necessário para determinados momentos. Independente de ser um fogo sexual ou o fogo do mais alto nível intelectual, pra ele não existe diferença. Pra ele é tudo igual. Ele tem a capacidade de transitar por todos esses céus que podem ser vistos como camadas ou etapas, e ele interfere com seu fogo. Ele está sendo divino do mesmo jeito. Não existe essa coisa de: 'ah, ali ele não podia ter ido'. Ele podia, e pra ele está tudo normal. Ele está exercendo a natureza dele na sua completude.

[GRIFO - p.144, Oito do sete - Serafim:] "Como disse, tenho a capacidade múltipla de nascer. E de subir e descer por aí, vagueando, o que se denomina vulgarmente como: voar. Não é bem o voar dos pássaros, que planam e, prioritariamente, só seguem em frente ou traçam círculos e zigue-zagues ou rasantes. Para mim é outro lance, na já referida leveza, mas em uma dinâmica diferente. Não estou sujeito a temperaturas, pressões atmosféricas ou vento, o que para pássaros e aviões é fator determinante e pode ser aniquilador. Para ficar mais fácil de entender, eu posso voar em todas as direções e também recuar, sem ter que obedecer a uma ordem exata e linear. É um voar subversivo, que não obedece a regras. Mais para nuvem de chuva e vapor do que para projétil. Obedeço a leis que desconheço ou que são inexistentes. Quando me questiono sobre essas coisas devo ficar com cara de distraído, o que o povo interpreta como arrogância. Basta analisar os retratos que de mim fizeram até hoje para ter certeza do que estou falando. Sorte que isso não me incomoda, não tenho fígado."

Glória, Magda, Serafim e Roma. São quatro lados de uma mesma alma ou pura criação fictícia? É possível dissociar a obra do autor?
A primeira parte: não, são diferentes faces relacionadas entre si. E são papeis que se entrecruzam. Até a cidade, que serve de pano de fundo para um capítulo, também é meio pessoa, tem alma, assim como os outros três. Estão todos relacionados e cada um apresenta a sua leitura, a sua vivência de cada situação. Tem um âmago comum, mas os personagens se expressam de forma diferente. São várias faces relacionadas a uma realidade única.



Você acha que conseguiu se dissociar completamente da obra, quer dizer, contar uma história sem fazer parte dela?
Não. Acho meio impossível e desconfio do escritor que diz não haver nada seu na obra. A história passou pelo meu interior, pelas minhas entranhas, pelo meu pensamento, pelo meu sentimento, até ser expresso pelas minhas palavras. É difícil dizer que não há relação, que é algo totalmente externo. Lógico que tem muita coisa minha ali, muitas reflexões sobre várias coisas. E, num momento como esse, o papel de quem escreve é conectar-se. Há coisas necessárias, que precisam ser refletidas. Que a cultura traga isso. Que a arte e a literatura tragam isso. Eu não consigo produzir algo totalmente à parte do que acontece no mundo.

Negar-se a seguir o ethos contemporâneo e se entregar à própria sensibilidade, o que me parece ser premissa de qualquer artista, não é algo como perder o medo da morte - ainda que a nível simbólico, de escancarar a própria imagem?
Você quer que eu responda isso sem beber nada? Ai, não sei nem por onde começar. Acho que tem isso, sim, uma coisa meio de tacar o 'foda-se' e não se preocupar como aquilo vai ser recebido. E, claro, até pensando na questão de vida mesmo, e na questão literária, estou correndo o risco de ser vista das mais diferentes formas, o que pode me prejudicar ou não. Mas aí é que está, se você age de outra forma, no extremo da cautela, eu não sei até que ponto isso é garantia de que você também não vai ser... Você ainda pode terminar sendo visto de uma maneira que você não gostaria ser visto, e você ainda não fez aquilo que você queria. Quer dizer, frustrado. Então, pelo menos, eu fiz, eu falei tudo ou quase tudo o que eu gostaria. Agora, se eu vou ser interpretada de uma forma que eu não esperava, isso faz parte do jogo. Não dá pra esperar unanimidade ou aceitação o tempo todo.

A escrita é um ofício penoso?
Não. Não é penoso, envolve muito prazer e realização. Não é um sofrimento, não é um fardo. Pelo contrário, é uma das poucas coisas que trazem significado, sentido. Até brinquei uma vez: 'a literatura é a maneira que encontrei para dar algum significado à minha esquisitice'. Lógico que há momentos complicados, se a gente falar de uma parte mais técnica, um trecho difícil de resolver, isso é normal, como com qualquer escritor. É claro que tenho esse tipo de problema, mas não é um sofrimento, como tem gente que proclama que é um grande martírio. Pra mim é bastante prazeroso. 



No seu primeiro livro de contos (Roteiros para uma vida curta), parece haver um esboço do estilo intrincado que você aprimora no romance, onde sua proposta estética está mais consistente e bem acabada. Como você vem trabalhando esse processo criativo? 
Roteiros é um livro que me preparou muito para o que vinha depois. Eu o considero um trabalho bem experimental, ali tem vários formatos que eu quis usar, e isso me ajudou muito. Reflete diferentes momentos e diferentes processos de produção. Agora, para o Oito do sete, acho que fiz um trabalho como muito escritor faz, tentar achar uma linguagem que ficasse própria do trabalho, mas com suas diferenças de acordo com cada parte. A voz do Serafim é diferente das de Magda e Glória. Eu fico feliz de saber que dá pra perceber essa singularidade, é legal a gente saber que existe uma linguagem em forma de expressão que tem a minha cara. Não quer dizer que pro resto da vida eu vou escrever dessa forma, estou escrevendo um novo livro em que vou por outro caminho, vou sentindo outras coisas.  

Mas no romance estão presentes técnicas que você exercitou no outro livro.
Não sei dizer. Acho que foi mais intuitivo. Eu não pensei 'agora vou usar a técnica X, agora a Y'. Isso comigo não rola. Vejo escritores que usam até planilhas, direcionamentos, uma série de recursos que eu, particularmente, não conseguiria usar. Não é que fecho o olho e sai. Eu sei o que vou fazer em cada parte, tenho um planejamento. Mas não é tão técnico naquele sentido de seguir à risca um determinado recurso. Isso não. Não penso muito nisso, não. Depois eu vou burilando pra chegar naquilo que eu quero. Eu tenho uma ideia clara do que quero, mas não é tão mecânico. Não sei se chega a ser totalmente intuitivo. É um meio termo.

Eu tenho uma última pergunta.
Já?!

Uma brincadeira, na verdade. Eu cito nomes de autoras e você me passa a sua impressão sobre elas.
[Ela topa, rindo.]
Jane Austen
Ainda não tive curiosidade de ler.

Virginia Woolf
Mestra total. Adoro. Venero. Ela foi pioneira em vários aspectos, quebrou barreiras, foi inovadora, ousada. Cada vez que leio Virginia Wolf, me apaixono mais pelo que ela é capaz de fazer. Acho ela genial, é a escritora que eu mais gosto.   

Simone de Beauvoir
Referência total que pauta a literatura e a vida. Quer dizer, ela pode e está presente nos livros e fora deles. A força dela vem disso. Não é influenciar o pensamento, é muito mais, é uma questão de transformar mesmo o pensamento de quem a lê.

Clarice Lispector
O que dizer dela além do que já se fala? Eu não acho que ela foi subestimada, mas que cada vez mais as pessoas vão descobrir a genialidade dessa mulher como escritora.



Hilda Hirst
Impressionante. É um trabalho fundamental da nossa literatura, algo muito representativo. É um tipo de literatura que pra mim fala muito, me toca muito. Hilda Hirst, mais do que Clarice Lispector.

Cecília Meirelles
Nunca li nada dela.

Svetlana Aleksievitch
Também ainda não.

Scholastique Mukasonga
Estou com o livro em casa. Não conseguir ler ainda.

Qual livro você está lendo agora?
Alguns. Eu leio, paro no meio, abro outro. É um processo meio angustiante pra falar a verdade. [Um riso seco e agudo.] Eu estou no meio de um livro de contos da Virginia Woolf, que é uma coisa sensacional lançado pela Cosac Naif. Eu comecei a ler um do Roberto Menezes, que lançou um dia desses em São Paulo pela Patuá, Palavras que devoram lágrimas. Eu comecei a ler um do Jorge Filholini, Somos mais limpos pela manhã. Que mais? Estou no meio de um do Beckett, aquele preto e branco. Eu leio muito devagar, meu ritmo é muito lento. Às vezes as pessoas dizem que leram cinco livros em um mês. Para. Se você gostou, não é possível. Quando eu gosto muito do livro, eu sou capaz de ler uma mesma frase 50 vezes, eu volto e eu volto e eu volto, porque não quero perder o sentimento que aquela frase trouxe em mim. Então eu leio muito devagar, num ritmo totalmente diferente da velocidade que se espera, e da nossa realidade hoje, que é tudo muito rápido, na internet, notícia atrás de notícia. Eu levaria um século pra ler tudo o que quero. Porque é lento, eu leio muito devagar. E, se gosto do livro, mais devagar ainda.

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Cristina Judar é escritora e jornalista, autora e roteirista das HQSLina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir). Seu livro de contos Roteiros para uma vida curta (Editora Reformatório, 2015) recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco em literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto de prosa poética “Questions for a Live Writing” e passou a integrar o Archive of The Now, uma coleção digital de poetas contemporâneos. Contemplado pelo ProAC de Literatura 2014, Oito do sete é o seu primeiro romance.

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Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural



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