terça-feira, 26 de setembro de 2017

Menina, mulher e pássaro

Menina, mulher e pássaro
por Bruno Cirillo

Com estilo próprio marcado pelo formalismo, Aline Bei alça o primeiro voo na literatura com o romance O peso do pássaro morto

Aline Bei reflete sobre o vazio e as perdas - no limite, a gratuidade da vida - no seu romance de estreia, O peso do pássaro morto, lançado neste mês pelas editoras Nós e Edith. A morte e o abandono dão o tom da narrativa desde o início, quando a protagonista descobre, ainda criança, que sua melhor amiga morreu. Anos depois, seu primeiro namorado a estupra. Do estupro nasce Lucas, com quem a personagem mantém uma relação difícil nas décadas seguintes. Dividido em idades marcantes, o livro percorre a vida da personagem dos oito aos 52 anos. As decisões da autora para a forma do texto são corajosas, "desenhando" na página frases quebradas, prosopopeias e elementos do realismo fantástico, em meio a reflexões sobre a solidão. Formada em Letras pela PUC-SP e atriz da Escola Célia Helena, Aline criou um universo particular em que dá rasantes sobre questões existenciais.

Em O peso do pássaro morto, você conseguiu criar um universo hermético, um mundo fechado em si - e aí está a alma de um livro. Por que não deu nome à personagem? Quem é essa "menina sem lágrimas no meio do caminho, uma mulher"?
Eu não coloquei nome porque ela é um fluxo de consciência, e eu queria mergulhar nesse fluxo de consciência. Pode ser qualquer pessoa, ela não precisa de um nome porque está fechada no seu próprio fluxo. Então decidi não pôr nome nenhum, até porque acho que ia destoar totalmente da minha proposta. Quando ela não tem nome, ela é todo mundo e não é ninguém - eu gosto desse lugar. Eu queria deixá-la em lugar nenhum, num fluxo interno, nessa viagem. Se colocasse um nome, ela já teria ficado do mundo, da rua, e eu queria ela de dentro. Por isso escolhi não colocar.

A tendência é acharem que é você. Depois que li o livro, voltei atrás para ver se algum personagem chamava pelo seu nome.
É porque está em primeira pessoa. Mas se você for olhar meus dados biográficos, não há nenhum encontro com a vida da personagem. É muito comum, quando o livro está em primeira pessoa, acharem que o personagem é o escritor, ainda mais se você o conhece, se você tem a imagem dele. Não tem nada, foi proposital mesmo. Mas é natural, a gente vê primeira pessoa e acha que o autor está falando de si mesmo. Nem sempre. Ele pode estar falando de si mesmo em terceira pessoa, em primeira, ele pode estar sempre falando de si mesmo, de algum jeito, mesmo que não sejam dados biográficos. É seu material, não tem como fugir muito da sua própria visão de mundo, que é o elemento principal.

Sim, uma saída é colocar tantos elementos pessoais quanto fictícios, assim tudo se mistura e ninguém pode discernir o que é seu e o que não é.
Sim, mas o duro é que - eu até já li isso em algum lugar - quando você coloca muito da sua visão de mundo, talvez uma pessoa que te leu e nunca te viu te conheça melhor do que alguém que nunca te leu e só conversa contigo. Isso porque ali na escrita não tem como você negar a sua essência, e não estou falando da história, mas de alguma coisa no fundo disso. Eu sempre me sinto muito íntima do autor quando ele me toca. Eu acho que esse é o lugar, o da visão de mundo mesmo, não é biográfico. Quando você começa a olhar um quadro e começa a se sentir muito íntimo da tela, você se conecta com ela. Esse é o grande barato.

© Hans Jörg Michel

Qual é o papel da mulher na literatura hoje?
Eu acho que sempre tiveram mulheres escrevendo muito bem. O problema é que o mundo é dos homens, então a gente está sempre pedindo permissão pra entrar. Hoje, como as coisas estão caminhando pra algum tipo de evolução, as mulheres aparecem mais, porque as pessoas estão se abrindo um pouco mais pra isso. Mas o mundo continua sendo dos homens. A gente tem que chegar num lugar em que as pessoas escrevem livremente sobre o que for.

O seu livro não é engajado, não tem uma causa social, ele está muito mais ligado a questões do espírito. Você acredita na literatura como arte interessada ou desinteressada, no sentido de engajamento?
Meu livro tem a questão social do estupro, da mulher como objeto, da mulher sofrer tanto abuso e opressão e calar por medo. O estupro é a única violência que a vítima precisa provar quando sofre. Como ela prova? É só a palavra dela - tem uma questão social nesse sentido. Mas esse foi um caminho natural, por eu ser mulher e pensar nessas coisas que a gente sofre, de andar na rua, de ter medo, muito mais medo do que os homens. É um pouco isso. Mas não é um livro político. Acho que sempre que uma coisa é pensada, intelectualmente, ela vai ter uma função. Mas se você ficar pensando demais na função social de um livro, talvez acabe produzindo uma coisa panfletária demais. A minha relação com a escrita é mais fluida, mas acho que a literatura tem o seu papel de questionar, refletir, de levar o mundo pra frente. Como toda arte, tem o papel de revolucionar, mas não pode ser só isso. Tem o prazer estético, o fazer artístico, que não é só de cunho social, pois senão seria como política. São várias coisas juntas. Você pode ler um livro e isso te transformar por dentro de uma maneira que você se torne um ser humano melhor. Ler faz as pessoas evoluir, isso é um papel social e político, isso faz as pessoas pensarem mais sobre as próprias atitudes e a atitude do outro.

Na visão de um crítico, haveria dois pontos passíveis de serem atacados no livro. A forma do texto, com versos livres, e também a sua estrutura, dividida pelas idades da personagem. Alguém poderia dizer que a personagem se mantém homogênea em todas as idades, sem o devido amadurecimento. Como foram esses processos de construção?
A forma do texto não é de versos. Considero que são frases, eu quebro frases, não faço versos. Trabalho com o ritmo da personagem, a respiração dela, a entonação. E as idades, eu pensei que elas deviam ficar como a coisa mais natural possível, considerando que a gente muda com o tempo. Eu queria que a linguagem estivesse conectada com a essência da personagem, porque eu acredito que a nossa essência é a mesma a vida interia, a gente cresce e amadurece com o tempo - e a voz dela vai amadurecendo, porque a voz dela é como o corpo dela no livro -, mas ela continua sendo a mesma pessoa. Em nenhum momento eu queria que houvesse dúvida de que é ela. Ela continua sendo ela, mas reagindo a tudo o que acontece, envelhecendo, amadurecendo, guardando as coisas. Há uma transformação. Isso é muito delicado, então refleti bastante sobre isso, pra que não destoasse - olhar pra ela com 52 anos e pra ela com 8 anos e dizerem que não é a mesma mulher. É a mesma mulher. É como você olhar para uma pessoa que não vê há 20 anos e dizer: como está diferente, mas ainda é a mesma.

 
Mira Schendel

Você fala da quebra de frases como pausas na respiração da personagem, como uma gênese de personagem teatral. Qual é o peso da atriz na escritora?
Eu não deixo minha carreira de atriz de lado, ela fica comigo. Então, isso acaba dando uma carga teatral nas coisas que eu faço. Quando você lê uma peça, o texto está chapado nas linhas, mas o ator não lê aquilo neutramente, ele dá intenção, ele dá a dança da página. É isso que eu busco quando escrevo "desenhando", como se fosse um ator lendo ou atuando no palco. E também tenho uma preocupação com a página em si, pra que ela não seja esquecida. A página não é só um suporte, ela está ali, aquele branco, sabe, aquela folha existe, não posso esquecer do livro, o livro como um palco dessas palavras, as palavras como corpo e voz do ator. Eu levo tudo isso em consideração. É um jeito que encontrei de valorizar algumas coisas - as maiúsculas no meio das frases, por exemplo. É uma questão de respiração e ritmo.

Quem é o cão Vento? Me parece o encontro da personagem com um lado cigano.
Ele é um ser mágico, até porque quando ele entra em cena, a vida dela ganha um respiro, ele está ligado a um lado místico. Ele é o vento, algo grande que não é visto. Quando ela consegue se soltar um pouco, ela encontra esse cachorro. Tenho uma admiração muito grande por cachorros. Gosto da minha relação com os meus, mas também do bicho em si. Eu fico curiosa ao observar um cachorro. Olha o poder deles, as coisas que eles ensinam pra gente sem exigir nada em troca. Eu tenho uma relação mística com cachorros, fico muito curiosa pra entender que ser é esse. Todo mundo que leu o livro e fala comigo comenta do Vento.

Me marcou porque no fim de um capítulo ele já é velho e no início do próximo, quando já se passaram dez anos, ele ainda está vivo. Não é um ser possível - até então, tudo o que você conta é plausível, essa é a única coisa que não é. Metafísica.   
E a casa também.

Sim, a casa. Você leu Cem Anos de Solidão?
Sim, lógico. Mas essa casa não peguei emprestado do Garcia Marquez, não. Talvez intuitivamente, mas tem uma casa que existe, que visitei, que é a casa de um amigo meu, ele não mora mais lá, mas era uma casa muito mágica, e eu estava escrevendo o livro quando a visitei pela primeira vez. Eu tenho uma coisa no livro que é personificar objetos: a casa tinha que ser um personagem.

Por força da vontade, ela seria eterna.
Sim, ela existe, ela está, ela resiste. Como a gente vê algumas casas que estão caindo aos pedaços mas continuam em pé. Como a casa da minha avó. É um mistério tentar entender esses lugares, então eu quis colocar a casa como um personagem, não como uma coisa. O livro é esse lugar de criar livremente. 

O sexo, no seu livro, é uma coisa brutal, e só aparece uma vez.
Não é sexo. É um estupro. Não tem sexo no meu livro.
[Um silêncio.]

Você é otimista?
Muito, bastante.

Você acredita em felicidade?
Muito, mas não o que as pessoas vendem, uma coisa utópica, uma coisa linear, mas acredito num estado de abertura pra vida. Seguir presente, seguir tentando, isso tudo pra mim tem a ver com a felicidade, mas ela não é linear.

Por que você escreve?
Eu escrevo, é muito natural.

Edward Hopper, Nighthawks, 1942

Você se sente solitária?
Muito. Bastante.

Eu cheguei aqui, havia outra pessoa. Você parece ter bastante gente por perto.
Isso não tem nada a ver com a solidão.

Em que sentido você se sente solitária ?
Acho que tem uma coisa em todos nós, nos sentirmos assim. A vida acaba, a gente sabe que está aqui sem saber o que vai acontecer em seguida. Há uma melancolia em estar vivo na incompreensão. Existe um lugar que é só seu, só você acessa. Pra gente que trabalha com arte, é importante esse lugar. Pro escritor, é essencial. Eu preciso estar sozinha nesse lugar que só eu acesso. A solidão é uma coisa da vida. A gente vai morrer sozinho, ninguém morre com a gente.

Escrever não é uma maneira de lidar com a solidão?
Com certeza, de preencher vazios. Escrever para mim é realmente muito natural, nem sempre é bom, nem sempre é um processo gostoso, mas é uma coisa que eu não viveria sem. Nada se iguala.

Então é o primeiro de muitos livros?
Com certeza.

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Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte. O peso do pássaro morto é o seu primeiro livro.

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Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural


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