sábado, 23 de setembro de 2017

As costas da Notre–Dame


As costas da Notre–Dame
Márcio Benjamin

Para Miguel Nogueira

 - Paris é apertada!
O sotaque português cintilava por dentro do bistrô, e parecia deslizar por entre a inacreditável fumaça do cigarro.
- É tudo limitado, pequeno por demais, mesas, bares...
- Você pode fumar aqui dentro? – perguntei.
Ele sorriu.
- Posso fazer o que quiser.
Era engraçado. No meio daquela gente, ninguém reclamou da fumaça, sequer os garçons. Seria a educação europeia?
Bebíamos uma cerveja forte. Ele comia umas azeitonas temperadas enquanto expurgava sua opinião sobre a cidade.
- Por incrível que pareça, as costas dos monumentos às vezes são mais interessantes. Vê que absurdo!
Ele apontou, ao longe, a traseira da Notre - Dame. Era difícil discordar.
- Como se chama essa ponte aí em frente?
- Não sei. – mentiu -  Em Paris há inúmeras!
Na ponte, duelavam um acordeon e uma guitarra.
- Precisa ver essa cidade no frio. – suspirou.
Gelei.
- Não preciso não.
- Eu amava Paris. Isso aqui era lindo.
- E não ama mais?
- Não sei, é difícil dizer. É difícil acostumar- se. Sinto falta do mar.
Em um lampejo, foi como se ele tivesse sido largado nas encostas lusitanas.
- O Sena vai subir, despejar-se por sobre tudo.
Eu ri.
- Agora é profeta?
- Só estou aqui há muito tempo.
O garçom interrompeu a conversa trazendo outra cerveja. Encorpada e pouco gelada.
- “Mêrci.” – disse.
- “Mérci.” – corrigiu ele.
Enfadado, o garçom foi embora.
- Hein?
- Mérci. Como se estivesses a escarrar.
- Como em “mérde”?
- Como em “mérde”. Creio que é o que querem nos dizer.
Cruzei os braços e olhei praquele lugar tão refinado, pessoas educadas falando baixo, mas que vez por outra nos cruzavam com olhares que eu sei bem o que significavam.
- Preciso ir ao banheiro.
Levantei-me em direção à porta retrátil. Apertado. Joguei uma água no rosto e voltei à mesa.
- Vamos embora?


Ele não respondeu. Me levantei apressado, fui até o caixa e paguei a conta, recebendo o troco sem trocar palavra. O meu francês acabara.
Da porta, o chamei com a mão. Ele se levantou sem pressa, com uma desilusão no olhar dura de se ver. Talvez fosse a alma portuguesa.
- Vamos? – perguntei.
- Adeus, meu amigo. Nos encontraremos talvez algum dia. Se voltares a Paris. Chegando em Portugal, lembre-se de mim.
Estendeu-se a mão fria para um aperto.
Sem muitas perguntas, atravessei a porta. De braços cruzados, ele me olhou encostado à janela, com o cigarro por entre os dedos pálidos.
Acenou.
E num suspiro, desapareceu.

Xxx




Márcio Benjamin Costa Ribeiro, um natalense, do Estado do Rio Grande do Norte, tem 37 anos, trabalha como advogado, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Desde os treze anos é metido com lápis e papéis, tentando mostrar aos outros um pouco do que se passa em sua cabeça. Participante usual de antologias de terror (Noctâmbulos, Caminhos do Medo, pela Editora Andross), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje).Tenta tornar público seus contos exibidos com uma certa freqüência no site www.umanjopornografico.blogspot.com. Maldito Sertão foi o seu primeiro livro, de contos. Lançado em 2012 pela Editora Jovens Escribas, foi considerado um dos melhores de 2012 e 2013 pelo Troféu Cultura Potiguar, e foi quadrinizado pelo coletivo Quadro 9, e em breve conhecerá a tela grande do cinema. Em 2015 foi lançada a segunda edição com mais contos. Em 2016, participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien  do Salão do Livro na capital francesa.

Marcio Benjamin e Miguel Nogueira durante a 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien

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