quarta-feira, 27 de setembro de 2017

L'attente/ En attente - Symposium International

a espera/ à espera:
figurações do contemporâneo

l’attente/en attente:
figurations du contemporain

Simpósio Internacional
UNIVERSITÉ PARIS-SORBONNE/ PUCRS
(06/outubro e 07/outubro de 2017)

Local: UNIVERSITÉ PARIS-SORBONNE

(Organização Prof. Dr. Leonardo Tonus/ Prof. Dr. Ricardo Barberena)


SEXTA-FEIRA 6 DE OUTUBRO

14h00 - Abertura do Simpósio em presença dos organizadores Leonardo Tonus ( Université Paris-Sorbonne) e Ricardo Barberena ( PUCRS)

Experiências da espera por Adelaide Ivánova

MESA 1 – Refugiados à espera
14h30-15h45
Mediação : Renata Azevedo Requião (UFPel)

Camila Gonzatto
A experiência da espera: uma reflexão sobre as oficinas de escrita criativa no abrigo de refugiados Tempelhof (Berlim, Alemanha)

Ricardo Barberena (PUCRS)
Passaportes, passagens, parataxes.   

Leonardo Tonus   (Université Paris-Sorbonne)
Refugiados nos quadrinhos-reportagens franceses : a (à) espera de um texto.


MESA 2 – Poética da espera
16h00-17h15
Mediação : Vinícius Carneiro( Lille 3)

Experiências da espera por Cristiano Baldi  (PUCRS)
O romance como poética da espera

Lívia Bertges  (UFMT/ Université Paris-Sorbonne)
Das fronteiras poéticas em Arnaldo Antunes

Fernando Floriani Petry  (Université Lyon 2)
Latão lotado luto, a poesia de Demétrio Panarotto


MESA 3: Por uma ética da espera
17h30-18h00
Mediação : Liniane Haag Brum ( UNICAMP)

Experiências da espera por Reginaldo Pujol Filho (PUCRS)
Ideias que podem aparecer na cabeça de um sujeito sentado em uma cadeira

Regina Dalcastagné (UnB)
Até quando? Sobre a necessidade de imaginar outras narrativas



SABADO 7 DE OUTUBRO

MESA 4: EsperaDores
9h30-10h45
Mediação : Lívia Bertges  ( UFMT/Université Paris-Sorbonne)

Experiências da espera por Simone Paulino
Quanto ao futuro: Clarice Lispector, uma escrita à espera do depois

Karyn de Paula Mota (PUC-RJ)
Clarice Lispector na Era Digital: a apropriação no processo criativo e o caminho obsessivo na produção de micronarrativas sem lastro

Vinícius Pereira  (UFMT )
De "chapa e cruz" a "paus-rodados": ciclos migratórios para Cuiabá na poesia de Silva Freire
Vinícius Carneiro ( Lille 3)
Literatura no estômago e sem estômago num Brasil desesperado


MESA 5 : 11h00-12h15
Mediação : Maria-Clara Machado (Université de la Sorbonne-Nouvelle/ Paris3)

Jorge Alves Santana  (UFG)
Mobilidades socioestéticas transversais de Hilda Hilst e de Caio Fernando Abreu no campo literário brasileiro contemporâneo

Rafael Souza Barbosa (École des Hautes Études en Sciences Sociales/EHESS)
Figurações do consumo em vida:  transfigurações II, de bénédicte houart

Experiências da espera por Arthur Telló (PUCRS)
Um díptico da espera

MESA 6 : Transitar pela espera
14h00– 15h00
Mediação : Leonardo Tonus

Raquel Peixoto do Amaral Camargo (USP/ Université Paris-Sorbonne)
A escrita de fronteira de Jean-Marie Blas de Roblès: notas sobre o romance Dans l’épaisseur de la chair (2017)

Renata Azevedo Requião (UFPel)
 s.o.s. distress: narrativas de homens sós

Experiências da espera por Sonia Bischain
Travessia


MESA 6  : Figurações da espera
15h15-16h50
Mediação : Ricardo Barberena ( PUCRS)

Experiências da espera por Israel Valente
Brasil e África até onde a vista alcança

Osnildo Adão Wan-Dall Junior (UFBA/ École Nationale Supérieure d'Architecture de Paris La Villette)
Os mistérios da Bahia em Os pastores da noite: espaços-tempos fronteiriços e liminares


MESA 7: Espera enlutada
16h00-17h00
Mediação : Vinícius Pereira (UFMT) 

Avulsão: a fuga como espera contemporânea

Liniane Haag Brum (UNICAMP)
O desaparecido e a literatura pós-ditatorial brasileira: é tudo (an)arquivo?

Natasha Centenaro (PUCRS)
Pai e filhos nesse espelho jamais inteiro: relações de trauma e violência em Reunião de família, de Lya Luft


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En raison de l’Etat d’urgence et du plan Vigipirate, merci de confirmer votre présence par email à l'adresse suivante : leotonusbr@hotmail.com









terça-feira, 26 de setembro de 2017

Menina, mulher e pássaro

Menina, mulher e pássaro
por Bruno Cirillo

Com estilo próprio marcado pelo formalismo, Aline Bei alça o primeiro voo na literatura com o romance O peso do pássaro morto

Aline Bei reflete sobre o vazio e as perdas - no limite, a gratuidade da vida - no seu romance de estreia, O peso do pássaro morto, lançado neste mês pelas editoras Nós e Edith. A morte e o abandono dão o tom da narrativa desde o início, quando a protagonista descobre, ainda criança, que sua melhor amiga morreu. Anos depois, seu primeiro namorado a estupra. Do estupro nasce Lucas, com quem a personagem mantém uma relação difícil nas décadas seguintes. Dividido em idades marcantes, o livro percorre a vida da personagem dos oito aos 52 anos. As decisões da autora para a forma do texto são corajosas, "desenhando" na página frases quebradas, prosopopeias e elementos do realismo fantástico, em meio a reflexões sobre a solidão. Formada em Letras pela PUC-SP e atriz da Escola Célia Helena, Aline criou um universo particular em que dá rasantes sobre questões existenciais.

Em O peso do pássaro morto, você conseguiu criar um universo hermético, um mundo fechado em si - e aí está a alma de um livro. Por que não deu nome à personagem? Quem é essa "menina sem lágrimas no meio do caminho, uma mulher"?
Eu não coloquei nome porque ela é um fluxo de consciência, e eu queria mergulhar nesse fluxo de consciência. Pode ser qualquer pessoa, ela não precisa de um nome porque está fechada no seu próprio fluxo. Então decidi não pôr nome nenhum, até porque acho que ia destoar totalmente da minha proposta. Quando ela não tem nome, ela é todo mundo e não é ninguém - eu gosto desse lugar. Eu queria deixá-la em lugar nenhum, num fluxo interno, nessa viagem. Se colocasse um nome, ela já teria ficado do mundo, da rua, e eu queria ela de dentro. Por isso escolhi não colocar.

A tendência é acharem que é você. Depois que li o livro, voltei atrás para ver se algum personagem chamava pelo seu nome.
É porque está em primeira pessoa. Mas se você for olhar meus dados biográficos, não há nenhum encontro com a vida da personagem. É muito comum, quando o livro está em primeira pessoa, acharem que o personagem é o escritor, ainda mais se você o conhece, se você tem a imagem dele. Não tem nada, foi proposital mesmo. Mas é natural, a gente vê primeira pessoa e acha que o autor está falando de si mesmo. Nem sempre. Ele pode estar falando de si mesmo em terceira pessoa, em primeira, ele pode estar sempre falando de si mesmo, de algum jeito, mesmo que não sejam dados biográficos. É seu material, não tem como fugir muito da sua própria visão de mundo, que é o elemento principal.

Sim, uma saída é colocar tantos elementos pessoais quanto fictícios, assim tudo se mistura e ninguém pode discernir o que é seu e o que não é.
Sim, mas o duro é que - eu até já li isso em algum lugar - quando você coloca muito da sua visão de mundo, talvez uma pessoa que te leu e nunca te viu te conheça melhor do que alguém que nunca te leu e só conversa contigo. Isso porque ali na escrita não tem como você negar a sua essência, e não estou falando da história, mas de alguma coisa no fundo disso. Eu sempre me sinto muito íntima do autor quando ele me toca. Eu acho que esse é o lugar, o da visão de mundo mesmo, não é biográfico. Quando você começa a olhar um quadro e começa a se sentir muito íntimo da tela, você se conecta com ela. Esse é o grande barato.

© Hans Jörg Michel

Qual é o papel da mulher na literatura hoje?
Eu acho que sempre tiveram mulheres escrevendo muito bem. O problema é que o mundo é dos homens, então a gente está sempre pedindo permissão pra entrar. Hoje, como as coisas estão caminhando pra algum tipo de evolução, as mulheres aparecem mais, porque as pessoas estão se abrindo um pouco mais pra isso. Mas o mundo continua sendo dos homens. A gente tem que chegar num lugar em que as pessoas escrevem livremente sobre o que for.

O seu livro não é engajado, não tem uma causa social, ele está muito mais ligado a questões do espírito. Você acredita na literatura como arte interessada ou desinteressada, no sentido de engajamento?
Meu livro tem a questão social do estupro, da mulher como objeto, da mulher sofrer tanto abuso e opressão e calar por medo. O estupro é a única violência que a vítima precisa provar quando sofre. Como ela prova? É só a palavra dela - tem uma questão social nesse sentido. Mas esse foi um caminho natural, por eu ser mulher e pensar nessas coisas que a gente sofre, de andar na rua, de ter medo, muito mais medo do que os homens. É um pouco isso. Mas não é um livro político. Acho que sempre que uma coisa é pensada, intelectualmente, ela vai ter uma função. Mas se você ficar pensando demais na função social de um livro, talvez acabe produzindo uma coisa panfletária demais. A minha relação com a escrita é mais fluida, mas acho que a literatura tem o seu papel de questionar, refletir, de levar o mundo pra frente. Como toda arte, tem o papel de revolucionar, mas não pode ser só isso. Tem o prazer estético, o fazer artístico, que não é só de cunho social, pois senão seria como política. São várias coisas juntas. Você pode ler um livro e isso te transformar por dentro de uma maneira que você se torne um ser humano melhor. Ler faz as pessoas evoluir, isso é um papel social e político, isso faz as pessoas pensarem mais sobre as próprias atitudes e a atitude do outro.

Na visão de um crítico, haveria dois pontos passíveis de serem atacados no livro. A forma do texto, com versos livres, e também a sua estrutura, dividida pelas idades da personagem. Alguém poderia dizer que a personagem se mantém homogênea em todas as idades, sem o devido amadurecimento. Como foram esses processos de construção?
A forma do texto não é de versos. Considero que são frases, eu quebro frases, não faço versos. Trabalho com o ritmo da personagem, a respiração dela, a entonação. E as idades, eu pensei que elas deviam ficar como a coisa mais natural possível, considerando que a gente muda com o tempo. Eu queria que a linguagem estivesse conectada com a essência da personagem, porque eu acredito que a nossa essência é a mesma a vida interia, a gente cresce e amadurece com o tempo - e a voz dela vai amadurecendo, porque a voz dela é como o corpo dela no livro -, mas ela continua sendo a mesma pessoa. Em nenhum momento eu queria que houvesse dúvida de que é ela. Ela continua sendo ela, mas reagindo a tudo o que acontece, envelhecendo, amadurecendo, guardando as coisas. Há uma transformação. Isso é muito delicado, então refleti bastante sobre isso, pra que não destoasse - olhar pra ela com 52 anos e pra ela com 8 anos e dizerem que não é a mesma mulher. É a mesma mulher. É como você olhar para uma pessoa que não vê há 20 anos e dizer: como está diferente, mas ainda é a mesma.

 
Mira Schendel

Você fala da quebra de frases como pausas na respiração da personagem, como uma gênese de personagem teatral. Qual é o peso da atriz na escritora?
Eu não deixo minha carreira de atriz de lado, ela fica comigo. Então, isso acaba dando uma carga teatral nas coisas que eu faço. Quando você lê uma peça, o texto está chapado nas linhas, mas o ator não lê aquilo neutramente, ele dá intenção, ele dá a dança da página. É isso que eu busco quando escrevo "desenhando", como se fosse um ator lendo ou atuando no palco. E também tenho uma preocupação com a página em si, pra que ela não seja esquecida. A página não é só um suporte, ela está ali, aquele branco, sabe, aquela folha existe, não posso esquecer do livro, o livro como um palco dessas palavras, as palavras como corpo e voz do ator. Eu levo tudo isso em consideração. É um jeito que encontrei de valorizar algumas coisas - as maiúsculas no meio das frases, por exemplo. É uma questão de respiração e ritmo.

Quem é o cão Vento? Me parece o encontro da personagem com um lado cigano.
Ele é um ser mágico, até porque quando ele entra em cena, a vida dela ganha um respiro, ele está ligado a um lado místico. Ele é o vento, algo grande que não é visto. Quando ela consegue se soltar um pouco, ela encontra esse cachorro. Tenho uma admiração muito grande por cachorros. Gosto da minha relação com os meus, mas também do bicho em si. Eu fico curiosa ao observar um cachorro. Olha o poder deles, as coisas que eles ensinam pra gente sem exigir nada em troca. Eu tenho uma relação mística com cachorros, fico muito curiosa pra entender que ser é esse. Todo mundo que leu o livro e fala comigo comenta do Vento.

Me marcou porque no fim de um capítulo ele já é velho e no início do próximo, quando já se passaram dez anos, ele ainda está vivo. Não é um ser possível - até então, tudo o que você conta é plausível, essa é a única coisa que não é. Metafísica.   
E a casa também.

Sim, a casa. Você leu Cem Anos de Solidão?
Sim, lógico. Mas essa casa não peguei emprestado do Garcia Marquez, não. Talvez intuitivamente, mas tem uma casa que existe, que visitei, que é a casa de um amigo meu, ele não mora mais lá, mas era uma casa muito mágica, e eu estava escrevendo o livro quando a visitei pela primeira vez. Eu tenho uma coisa no livro que é personificar objetos: a casa tinha que ser um personagem.

Por força da vontade, ela seria eterna.
Sim, ela existe, ela está, ela resiste. Como a gente vê algumas casas que estão caindo aos pedaços mas continuam em pé. Como a casa da minha avó. É um mistério tentar entender esses lugares, então eu quis colocar a casa como um personagem, não como uma coisa. O livro é esse lugar de criar livremente. 

O sexo, no seu livro, é uma coisa brutal, e só aparece uma vez.
Não é sexo. É um estupro. Não tem sexo no meu livro.
[Um silêncio.]

Você é otimista?
Muito, bastante.

Você acredita em felicidade?
Muito, mas não o que as pessoas vendem, uma coisa utópica, uma coisa linear, mas acredito num estado de abertura pra vida. Seguir presente, seguir tentando, isso tudo pra mim tem a ver com a felicidade, mas ela não é linear.

Por que você escreve?
Eu escrevo, é muito natural.

Edward Hopper, Nighthawks, 1942

Você se sente solitária?
Muito. Bastante.

Eu cheguei aqui, havia outra pessoa. Você parece ter bastante gente por perto.
Isso não tem nada a ver com a solidão.

Em que sentido você se sente solitária ?
Acho que tem uma coisa em todos nós, nos sentirmos assim. A vida acaba, a gente sabe que está aqui sem saber o que vai acontecer em seguida. Há uma melancolia em estar vivo na incompreensão. Existe um lugar que é só seu, só você acessa. Pra gente que trabalha com arte, é importante esse lugar. Pro escritor, é essencial. Eu preciso estar sozinha nesse lugar que só eu acesso. A solidão é uma coisa da vida. A gente vai morrer sozinho, ninguém morre com a gente.

Escrever não é uma maneira de lidar com a solidão?
Com certeza, de preencher vazios. Escrever para mim é realmente muito natural, nem sempre é bom, nem sempre é um processo gostoso, mas é uma coisa que eu não viveria sem. Nada se iguala.

Então é o primeiro de muitos livros?
Com certeza.

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Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte. O peso do pássaro morto é o seu primeiro livro.

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Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural


sábado, 23 de setembro de 2017

As costas da Notre–Dame


As costas da Notre–Dame
Márcio Benjamin

Para Miguel Nogueira

 - Paris é apertada!
O sotaque português cintilava por dentro do bistrô, e parecia deslizar por entre a inacreditável fumaça do cigarro.
- É tudo limitado, pequeno por demais, mesas, bares...
- Você pode fumar aqui dentro? – perguntei.
Ele sorriu.
- Posso fazer o que quiser.
Era engraçado. No meio daquela gente, ninguém reclamou da fumaça, sequer os garçons. Seria a educação europeia?
Bebíamos uma cerveja forte. Ele comia umas azeitonas temperadas enquanto expurgava sua opinião sobre a cidade.
- Por incrível que pareça, as costas dos monumentos às vezes são mais interessantes. Vê que absurdo!
Ele apontou, ao longe, a traseira da Notre - Dame. Era difícil discordar.
- Como se chama essa ponte aí em frente?
- Não sei. – mentiu -  Em Paris há inúmeras!
Na ponte, duelavam um acordeon e uma guitarra.
- Precisa ver essa cidade no frio. – suspirou.
Gelei.
- Não preciso não.
- Eu amava Paris. Isso aqui era lindo.
- E não ama mais?
- Não sei, é difícil dizer. É difícil acostumar- se. Sinto falta do mar.
Em um lampejo, foi como se ele tivesse sido largado nas encostas lusitanas.
- O Sena vai subir, despejar-se por sobre tudo.
Eu ri.
- Agora é profeta?
- Só estou aqui há muito tempo.
O garçom interrompeu a conversa trazendo outra cerveja. Encorpada e pouco gelada.
- “Mêrci.” – disse.
- “Mérci.” – corrigiu ele.
Enfadado, o garçom foi embora.
- Hein?
- Mérci. Como se estivesses a escarrar.
- Como em “mérde”?
- Como em “mérde”. Creio que é o que querem nos dizer.
Cruzei os braços e olhei praquele lugar tão refinado, pessoas educadas falando baixo, mas que vez por outra nos cruzavam com olhares que eu sei bem o que significavam.
- Preciso ir ao banheiro.
Levantei-me em direção à porta retrátil. Apertado. Joguei uma água no rosto e voltei à mesa.
- Vamos embora?


Ele não respondeu. Me levantei apressado, fui até o caixa e paguei a conta, recebendo o troco sem trocar palavra. O meu francês acabara.
Da porta, o chamei com a mão. Ele se levantou sem pressa, com uma desilusão no olhar dura de se ver. Talvez fosse a alma portuguesa.
- Vamos? – perguntei.
- Adeus, meu amigo. Nos encontraremos talvez algum dia. Se voltares a Paris. Chegando em Portugal, lembre-se de mim.
Estendeu-se a mão fria para um aperto.
Sem muitas perguntas, atravessei a porta. De braços cruzados, ele me olhou encostado à janela, com o cigarro por entre os dedos pálidos.
Acenou.
E num suspiro, desapareceu.

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Márcio Benjamin Costa Ribeiro, um natalense, do Estado do Rio Grande do Norte, tem 37 anos, trabalha como advogado, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Desde os treze anos é metido com lápis e papéis, tentando mostrar aos outros um pouco do que se passa em sua cabeça. Participante usual de antologias de terror (Noctâmbulos, Caminhos do Medo, pela Editora Andross), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje).Tenta tornar público seus contos exibidos com uma certa freqüência no site www.umanjopornografico.blogspot.com. Maldito Sertão foi o seu primeiro livro, de contos. Lançado em 2012 pela Editora Jovens Escribas, foi considerado um dos melhores de 2012 e 2013 pelo Troféu Cultura Potiguar, e foi quadrinizado pelo coletivo Quadro 9, e em breve conhecerá a tela grande do cinema. Em 2015 foi lançada a segunda edição com mais contos. Em 2016, participou da 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien  do Salão do Livro na capital francesa.

Marcio Benjamin e Miguel Nogueira durante a 3° edição do Printemps Littéraire Brésilien

domingo, 3 de setembro de 2017

Esses marginais

Foto : Thiago Grabriel

Esses marginais

O ar humano, demasiado humano, de Charles Bukowski está presente na obra de autores como Wesley Barbosa e Paulo Junior, na lateral esquerda do mercado editorial brasileiro

Por Bruno Cirillo

Já dizia mestre Cândido, parafraseando Drummond: "É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio." A literatura brasileira, vista pelo grande crítico como "galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas", só pode ser amada pelos brasileiros, porque "se não o fizermos, ninguém o fará por nós".

Os livros de contos de Wesley Barbosa (O diabo na mesa dos fundos) e Paulo Junior (São Bernardo sitiada) são uma boa amostra do que tem sido feito ao largo das grandes editoras. Impressos com a insígnia de casas jovens, ambos trazem vozes das ruas, a linguagem afiada dos botecos, das esquinas, da prosa mais corriqueira e desbocada, ignorando e rejeitando, por princípio estético, tons eruditos ou cosmopolitas. Se Lima Barreto retratou a hipocrisia do seu tempo, também objeto de estudo de Machado de Assis, este mais sutil, os cronistas da literatura marginal de hoje em dia trabalham com o resultado dessa hipocrisia: violência e morte.



Barbosa escreve para o seu tempo (contos curtos, concisos e brutais), do seu lugar (a periferia de São Paulo), com personagens extremamente realistas. Lúcida voz que surge, já na 7ª série, de uma escola pública de Itapecerica da Serra, estranhado por todos os amigos, solitário, transitando entre a sala de aula e a biblioteca. "O ato de escrever: matar um acadêmico por dia, uma forma de me manter vivo e controlar minha loucura por meio das palavras", explica. Numa época em que o amadorismo literário se embaraça em prosas fragmentadas, egocêntricas e às vezes incompreensíveis, revelando autores frágeis e deprimidos, Barbosa é como o arbusto que resiste no meio de um cruel temporal.

Seu primeiro conto, "Parada para o almoço", engancha de cara o leitor. Um homem elegante oferece pagar o almoço para o rapaz franzino, sem saber que ele é, na verdade, o dono do restaurante. Com a sensibilidade aguçada e o fator camaleão dos escritores, inclusive no desenvolvimento do eu lírico feminino, quando escreve em primeira pessoa como se fosse "A rainha da zona", Barbosa mantém o fôlego até o final do livro. Boa parte do que se lê pode ser interpretado não como obra individual, mas um coletivo encarnado nas letras. O conto que dá o título é uma horrenda história de assassinato, para lembrarmos que as coisas vão mal.

"A maioria das histórias, dos contos de O diabo na mesa dos fundos, são memórias da infância, das leituras dos filósofos e romancistas", conta Barbosa, que tem predileção por Dostoievski e considera Ulisses, da Odisseia, como o seu primeiro herói. "Aprendi a admirar muitos escritores e guardar seus nomes na memória", conta o autor em "Os escritores me criaram":

- Vadio! - gritavam. - Vadio! Vai trabalhar.

Escrito ao longo de seis meses, em 2012, o livro de Barbosa foi o quinto publicado pela editora Selo Povo, segmento da Editora Literatura Marginal (EML), do Ferréz. O autor já está trabalhando na sua segunda obra.



O professor de literatura brasileira contemporânea na Sorbonne, Leonardo Tonus, lembra que o termo literatura marginal foi criado em manchete da revista Caros Amigos, em 2011, sob curadoria do Ferréz. "Mais do que uma questão estética, esta terminologia expunha na época a dimensão social e simbólica de uma produção cultural excluída do campo literário nacional", ele diz, citando a estética hiperealista como característica fundamental dessa vertente, que ganhou força com a popularização dos saraus na periferia de São Paulo a partir dos anos 1990. "É uma literatura voltada cada vez mais para a cotidianidade do sujeito que também se expressa por uma escolha linguística menos acadêmica, rompendo com padrões eurocêntricos", acrescenta.



São Bernardo sitiada

As editoras Edith e Nós, em uma coedição, lançaram na última Festa Literária de Paraty (Flip) o livro de contos do jornalista Paulo Junior, vencedor do Prêmio Toca de Literatura 2017, São Bernardo sitiada, que estará disponível para venda a partir de setembro. A história do título, logo no início, revela o talento do autor para metáforas, descrevendo um cenário brutal de maneira abstrata, recorrendo a cores, texturas e imagens aleatórias para expressa o ambiente em que se encontra. O leitor precisa ter o mínimo de sensibilidade poética se quiser extrair dali os sentidos mais profundos. Esse recurso estilístico é menos utilizado nos outros contos, de uma estética mais concreta.

Paulo Junior escreveu parte das histórias em oficinas com o escritor Ronaldo Bressane, autor das orelhas do livro - oficinas que Junior reconhece como emuladores da escrita do anfitrião -; a outra parte foi criada em meio a reuniões com outros escribas sob as asas de Marcelino Freire, o poeta pernambucano. "Nunca tinha levado a sério a ideia de oficinas de escrita, só de pensar naquela turma competindo quem lê Hemingway no original ou qual vai ser a primeira intervenção onde alguém vai dizer que aquilo é meio, sei lá, kafkiano", ironiza ele em um dos contos, quando conta que resolveu aderir aos cursos após um episódio de fracasso amoroso.

Uma das qualidades do autor é a capacidade de acelerar e diminuir o tempo das narrativas, revelando um apego pela forma, sem perder jamais as sacadas lúdicas e o ritmo quase falado em cenas que poderiam, na pena de outro autor, se prolongar em detalhes e descrições mais densas, precisas e detalhistas: "A rua das Estribeiras parece a perna ralada de um motoboy que caiu na marginal." Sua clara intenção é passar sensações suburbanas, e não fazer tricô à moda do século 19.

Assim como em O diabo na mesa dos fundos, roubos e assassinatos são recorrentes em São Bernardo sitiada. Por exemplo, em "A última cena", dois ladrões ficam presos em um elevador enquanto a moreninha do 12 trepa com o surfista chapado do 34 nas escadas do prédio. Eles são alvejados por um policial que também morre baleado na troca de tiros. "Moreninha goza de susto. O surfista, pau pra fora, tropeça no conhaque antes de chegar à cena do crime." Metalinguagem: a história vira script de teatro nas mãos da moreninha. Ela fica famosa, mas somente na sua própria imaginação.


Paulo Junior, Paulliny Gualberto Tort e Aline Bei, lançamento casa Paratodos, Paraty 2017 
( Fonte editora NOS)

O melhor conto do livro ficou pro final. Linda, indubitável referência à Linda King, mulher do Bukowski, rouba a navalha criminosa dos outros contos e deixa um corte ainda mais profundo no peito do narrador. É quase como se ali estivesse a verdadeira justificativa para o trabalho de escritor. Ali também Paulo Junior mostra todas as frustrações vividas por jornalistas, escritores, enfim, toda a patuleia da escrita sem retaguardas. O velho Buck vem à tona, escancarado: o heroísmo está no aprendizado dos percalços suburbanos e na mais inflexível dureza editorial. Pra piorar, uma mulher despedaça o coração de quem recolhe suas lembranças como se fossem água escorrendo pelos dedos, irreversível. E o Palmeiras apanhando no campeonato - Linda era corintiana.

O amor é um cão dos diabos, mas rende boas páginas.

Antes de morrer, neste ano, Antonio Cândido declarou que não lia nada novo há vinte anos. Ele preferia os autores consagrados. Talvez quisesse dizer que devemos estar atentos aos romances para entender que a grande literatura pretende ser imortal. Não à maneira de um arbusto em chamas, mas como árvore capaz de atravessar os séculos, em nome da raça humana. “Cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político. E o dever da atual geração? Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.”

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Perambulando entre artistas e filisteus, Bruno Cirillo, 27 é jornalista em busca histórias da contemporaneidade, sem perder de vista as referências clássicas. Colabora com as revistas Piauí e Globo Rural