domingo, 27 de agosto de 2017

Nossos medos




Nossos medos

Leonardo Tonus

Sempre que estou em Berlim. Gosto de vir até aqui. Ao Gedenkstätte Berliner Mauer. O Memorial do Muro de Berlim. Memorial. E não museu. Como sublinha o termo em alemão. E que alude ao que subjaz a memória. A nossa capacidade de nela pensar. Quando eu venho a Berlim e ao Gedenkstätte Berliner Mauer, ich denke. Eu penso no quanto minha geração foi marcada pelos medos. O medo avassalador imposto pela ditadura militar. O medo inconsciente do fim do mundo que pronavam os ideólogos da Guerra Fria. E o medo que exibiam os filmes de catástrofes da época. Tubarão. Invasão de formigas. De piranhas. De abelhas. Arranha-céus pegando fogo.  O Day After. O terrível Koyaanisqatsi. Koyaanisqatsi. Koyaanisqatsi. A frase repetida sob a hiponotizante música de Philip Glass. Evocando a vida moderna fora do eixo natural. Cada vez mais acelerada. Mais destruidora. E amedrontadora.


Nossa geração foi a geração do medo. De um medo insidioso que penetrou todas as esferas do cotidiano. Eu tinha medo do escuro. De altura. De ser enterrado morto-vivo. Tinha medo da professora. De ovnis. Eu tinha medo de cachorros. Eu tinha da polícia. Da violência. Eu tinha medo de beijar as meninas da escola. Eu tinha medo do sexo. Que continuei a temer  quando  jovem. E quando descobri a Aids. Naquela época tínhamos medo dos outros. De tocar os outros. De nos tocarmos uns aos outros. Tínhamos medo de amar. Eu também tive medo de amar. E talvez ainda tenha. Mas hoje são as formas de ostracismo que temo.  Por isso eu gosto de passar pela Bernauer Strasse. E parar alguns instantes no Memorial do Muro. Parar. E pensar.


E  penso  o quanto  hoje são raros pelo mundo espaços do pensar. De um pensar conjunto. Pelo. No. E com o silêncio. Hoje desconhecemos o valor dos silêncios. Pelos estádios. Pelas igrejas. E pelos Senados. Gritamos. Pelas ruas berramos. E indecentemente pelas sacadas de nossas varandas amassamos covardemente panelas. Hoje gritamos pelas redes sociais. Esquecendo  o valor do silêncio. Que é sempre capacidade e possibilidade da escuta do outro. Que muros ensurdecem.  



Hoje sento na grama do Gedenkstätte Berliner Mauer. Estou rodeado por passantes. Crianças brincam de corre-corre. Cachorros lambões dormem preguiçosamente so sol. Hoje sento na grama do Gedenkstätte Berliner Mauer e penso. Penso nesta grama-cicratiz. Húmus dos que também tiveram medo do silêncio que um muro covarde lhes impunha. Penso em  Ida Siekmann. Em Bernd Lünser. Em Jörg Hartmann com seus dez anos de idade. Em Winfried Freudenberg no dia 8 de março de 1989 morto ao tentar sobrevoar o muro com seu balão.  Eu penso nas vítimas deste muro.  E de outros tantos muros pelo mundo afora. Penso  hipnotizado por um absurdo no trespassing. No trespassing. Fora. Fora. Por um absurdo ostracismo.  Penso hipnotizado nas formas da exclusão. Da xenofobia. Da homofobia. Da misoginia. Hipnotizado penso na obscenidade de nossa humanidade. Sentado na grama do  Gedenkstätte Berliner Mauer. Penso. Choro. E grito. Silenciosamente. Sem medo. 


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