terça-feira, 29 de agosto de 2017

A luta silenciosa no octógono dos livros


A luta silenciosa no octógono dos livros

Henrique Rodrigues

Minha primeira grande imersão no mundo dos livros aconteceu na biblioteca do Ciep Dr. Adão Pereira Nunes, em Irajá, no ano de 1986. Não preciso explicar o que são (ou foram) os Centros Integrados de Educação Pública, pois esse modelo de escola idealizado pelo Darcy Ribeiro se tornou bastante conhecido. Mas afirmo com toda segurança que foi o último grande projeto educacional que chegou pra valer no Rio de Janeiro. Há 30 anos.

Na época eu tinha 10 anos, meu irmão 11. Morávamos na Pavuna e nossa vida começava outra fase, por conta da separação – nada amigável – dos pais. No meio daquela novidade toda, as instalações do Ciep eram imensas aos meus olhos, cuja referência diária de grandeza ainda era a extensão do rio Guandu, lá da lonjura de onde saímos. Aquele castelo, que nos oferecia refeições, psicólogo, óculos, aulas o dia inteiro e atividades de todo tipo, me apresentou duas coisas para a vida toda.

A primeira era a presença de um animador cultural, figura que não era professor mas ensinava, não era colega porém tinha o lúdico na ponta da língua, e uma vez disse algo importante pacas – sem que me desse conta, porque na hora não entendi: “Todo mundo precisa de vez, voto e verso.” A cada ano, a cada situação de vida, de trabalho e de observação da sociedade, essa frase adquire cada vez mais sentido.

E a segunda foi a biblioteca. Claro que já conhecia livros em estante e por isso vou entrar numa viela da digressão. Minha tia com melhor condição financeira (porque todo pobre tem um “parente rico”) possuía livros em casa. A maioria kardecista, que eu adorava folhear porque parecia coisa de ficção científica. Inclusive eu brincava de ser escritor porque um volume do acervo era escrito por um tal “prof. Henrique Rodrigues”, que certamente já desencarnou mas me deu uma ideia de sonho. E no meio daquela livrarada toda de espíritos tinha um livro cuja dedicatória era “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”. E foi assim que passei vários anos pensando que “Memórias Póstumas de Brás Cubas” fosse um livro psicografado.



Digressão concluída, faço um balão na estrada da memória e volto à rua do Ciep. Naquele lugar havia sempre uma pessoa dedicada com quem eu gostava de falar sobre várias coisas, sobretudo as coisas que via na enciclopédia Delta, que era um tipo de Google mais lento e, talvez por isso, mais legal. Quando fui superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, fiquei abismado ao descobrir que a última vez que houve contratação de bibliotecários para a rede foi na época do Ciep. Esse profissional, que é e um dos principais mediadores do acesso à informação e ao conhecimento, tornou-se um ser em extinção numa rede cada vez mais depauperada. Não sei dizer ao certo o que é causa e efeito.

Mas preciso confessar uma pequena transgressão: gostava de matar algumas aulas que considerava chatas para ficar na biblioteca do Ciep. Era silenciosa e povoada de histórias e ideias. Ou, pelo menos, de histórias e ideias que me povoavam.

Meu último ano do Ensino Fundamental foi em outro Ciep, o Carlos Drummond de Andrade, na Praça Seca. Foi ali que ganhei um concurso de frase que me fez falar “quando crescer quero ser escritor”, o que foi motivo de riso de uns. Riso que entendo só agora: o mundo dos livros não é valorizado moralmente no Brasil por muita gente. Somos uma minoria. Isso pode ser mudado ainda, mas deve levar muito tempo com bastante investimento baseado numa política clara e com perspectiva. Pensando hoje, em 2017 e com essa conjuntura, não me parece algo da ordem do dia.

Mas uma coisa é o mundo, a sociedade et coetera, outra é a nossa responsabilidade individual. Passado o tempo, a brincadeira com o livro da minha tia continuou e acabei virando escritor mesmo. Não o melhor da minha geração (quando o jornal me perguntou por que não concorri para a Granta, falei que queria apenas ser o melhor escritor do meu prédio), mas talvez não um dos piores. Entre o trabalho para ganhar o feijão com a arroz e os compromisso ordinários da vida, gosto muito de visitar escolas e aprender com a molecada.

Há uns anos visitei o Ciep Rubem Gomes, em Costa Barros, para ler com a garotada e falar da importância dos livros e da imaginação. Pouco tempo depois, soube que o jovem Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, de 11 anos, aluno de lá, foi atingido por uma bala perdida enquanto assistia à aula. Esse tipo de notícia é recorrente nos jornais. Ontem mesmo (05 de julho de 2017) uma menina de 14 anos também levou um tiro dentro da escola em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Ela sobreviveu, mas a bala permanece alojada no corpo.



Fui uma vez ao primeiro Ciep e várias vezes no segundo. Ano passado inclusive, quando a escola foi depredada e roubada. Levei uns camaradas de ofício e fizemos um evento chamado Poemaço, com leituras, oficinas e bate-papos. Professores, alunos e demais funcionários ficaram bem felizes. E ainda merendamos.

Posso dizer em alto e bom som: sou privilegiado. Muito privilegiado. E isso não é bom, pois ser exceção diante de uma regra cruel é algo a ser combatido. Porque numa das visitas ao Ciep Carlos Drummond de Andrade, enquanto falava lá dentro da biblioteca, uma menina me perguntou com toda franqueza: “Como você estudou aqui e foi em frente na vida? É que quem estuda aqui...”. Por mais que eu tivesse levado meia hora respondendo a ela, saí de lá sabendo que o discurso que a levara a essa conclusão continuaria sendo martelado todos os dias. Chorei pacas, mas não desisto. E volto lá sempre que possível.

Porque ainda ecoam na minha cuca aquelas histórias e ideias que foram plantadas. Elas me provocam, instigam e obrigam a arregaçar as mangas. Aprendi a batalhar numa biblioteca em forma de octógono, numa guerra que segue lenta e silenciosa, como são as mais importantes que travamos ao longo da vida.

Xxx




Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj, com especialização em Jornalismo Cultural pela Uerj, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio. Já foi atendente de lanchonete, balconista de videolocadora, professor, superintendente pedagógico da Secretaria de Estado de Educação do RJ e coordenador pedagógico do programa “Oi Kabum!” Trabalha na gestão de projetos literários no Sesc Nacional, entre os quais o Prêmio Sesc de Literatura. Participou de várias antologias literárias, organizou algumas e é autor de 12 livros, entre poesia, infantis, juvenis e o romance "O próximo da fila" (Record), inspirado no período em que foi atendente do McDonald´s. Site do autor: www.henriquerodrigues.net

Um comentário:

  1. Como admiro a sua caminhada Henrique! Depoimento feito com alma, assim como tua escrita!

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