terça-feira, 29 de agosto de 2017

A espera/ à espera:

Arquivo pessoal
a espera/ à espera:
figurações do contemporâneo

l’attente/en attente :
figurations du contemporain

Simpósio Internacional
UNIVERSITE PARIS-SORBONNE/ PUCRS
(04/outubro, 06/outubro e 07/outubro de 2017)

Local: UNIVERSITE PARIS-SORBONNE

(Organização Prof. Dr. Leonardo Tonus/ Prof. Dr. Ricardo Barberena)


                                             
Pensar em algum futuro agora?
Não, devemos esperar.
Refugiado sírio no Líbano

                                               La patria sarà quando
tutti saremo stranieri
Poema de Francesco Nappo


Em pleno século XXI, o planeta tem vivenciado o surgimento de lugares de retenção. Qualquer área – como ginásios esportivos, instalações industriais desativadas, hangares e corredores de aeroportos – pode ser convertida em campo, isto é, num espaço anônimo, uma zona cinzenta posta à margem da ordem jurídica normal, onde se dá a intersecção do Estado de direito com aquilo que atenta contra ele.

Nosso tempo tem sido marcado pela racional contenção dos refugiados/refugados. O “campo de retenção” se organiza como uma espécie de plataforma preparatória da expulsão dos estrangeiros indesejáveis. A expressão mágica tem sido “controle dos fluxos” de imigrantes para garantir a segurança.

Ao andar pelo território interditado, os caminhantes clandestinos acabam por evidenciar uma irrevogável inconclusibilidade do espaço e dos seus intermináveis textos, agentes e devires. Seus passos carregam tramas na sola e tecem uma escritura constelar na qual infinitos significados se cruzam numa errática coreografia de uma possível resiliência. Quantas tramas e quantos traumas se escrevem « com » e « nas »solas dos seus sapatos? São apenas passantes invisíveis ao nosso olhar que não deixam marcas de ocupação e perturbação em espaços adversos às suas presenças. Caminham, mas não escrevem com o seu caminhar. 

Frente à incomunicabilidade contemporânea, parece impossível que não ocorra um questionamento referente ao conceito de fronteira. Dentro de uma releitura crítica, tal conceito não é mais associado unicamente à demarcação dos limites coesos da nação moderna, mas também é repensado como uma liminaridade interna contenciosa que promove um lugar do qual se fala sobre a minoria, o exilado, o marginal e o emergente. Nesse sentido, percebemos uma mudança no enfoque analítico: o conceito de fronteira, antes apenas concebido em relação a um espaço “exterior”, agora apresenta-se ligado à finitude interior do território nacional. Em consequência, podemos começar a pensar uma nação que se organiza através das diferenças existentes dentro do seu interior, em visível oposição ao funcionamento daquela antiga lógica da exterioridade que se sustentava pela busca dos contrastes entre duas ou mais culturas. Dito de outra forma, esta releitura crítica do conceito de fronteira procura desconstruir aquele signo da modernidade – a nação – que se encontrava pautado por um apagamento das diferenças culturais e por uma visão horizontal da sociedade. Daí a problematização, justamente, de um discurso nacional que se estrutura pela denominação de um povo em termos de um anonimato de indivíduos circunscritos à horizontalidade espacial de uma comunidade [supostamente] hegemônica. Visto deste ângulo, a fronteira representa um lugar onde se articulam as diferenças culturais numa perspectiva de negação da naturalização da normalidade e da unicidade: um espaço não linear e descontínuo, um espaço do entre que já não coincide com  geografia alguma, um espaço solidificado à imagem  dos  mares e oceanos do planeta.

Mas como é possível coalhá-los e petrificá-los?  As fronteiras e os controles (oficiais e não oficiais) são capazes de embarreirar as agitações do mar? Talvez essa seja uma potente imagem para traduzir nossos traumas contemporâneos: um mar-em-pedra. Se “o mundo é mesmo de cimento armado”, como adverte o poeta Carlos Drummond de Andrade, restam poucas esperanças para livres migrâncias e deambulações identitárias.  Náufragos no mar-empedrado, prisioneiros de caminhos ambulantes, milhares de pessoas são mortas pelas proibições de sólidas racionalidades. Na imobilidade desses mares-secados, o “desmedido derramar-se” é censurado pela coercibilidade contemporânea. Aquele mar idealizado que vai para “tudo quanto é lado” parece cada vez mais distante na crise dos migrantes, dos refugiados, dos deslocados e demais excluídos de nossa contemporaneidade.

Da land art às artes performáticas, o caminhar se transforma num meio de cortar caminhos estabelecidos e desafiar o cercamento/cerceamento do espaço público. A sua função política e estética pode ser resumida na definição de Ingold para a caminhada: “o modo fundamental pelo qual os seres habitam a Terra” (Ingold). Ao deixar uma marca no chão e na imaginação, o caminhante traça a vida humana “pela linha do seu próprio movimento” (Careri) de maneira que o escrever e o andar se misturam no próprio agenciamento identitário, pois é na “narração da história, com o movimento de um lugar a outro – ou de um tópico para outro – que o conhecimento se integra” (Ingold).

Como fica a situação dos que são proibidos de caminhar? Aqueles refugiados que não podem trilhar a alegria encontrada na liberdade da estrada? As vidas-que-não-podem-caminhar estão barradas inclusive em termos narrativos. Como podem circular estórias que não caminham?

Se de modo geral “a humanidade raramente viu o caminhar como um prazer” (Marples), a simples deambulação do ex-cêntrico torna-se traumática nas paisagens identitárias de uma urbanidade supostamente homogênea. Não há como silenciar sobre esse trauma contemporâneo. O caminhar em uma territorialidade clandestina pode abalar certas convicções, pois, ao longo de uma caminhada, “os pensamentos perambulam a esmo, farejando aqui e ali, experimentando a primeira coisa e depois outra” (Kierkegaard). Pensada nesses termos, “a saúde e a salvação só podem ser encontradas no movimento” (Kierkegaard) Talvez tenhamos que reinventar nosso viver juntos contemporâneo através do compartilhamento de uma história que começa ao rés do chão, com passos.    
                                                   
            É preciso então que habitemos uma territorialidade de encontros e contágios. Seria urgente uma caminhada pelo imaginário bosque criado por C. S. Lewis (1995) – “Entre-dois-mundos” – onde tudo parece banhar-se na cálida luz verde de uma manhã perpétua. Nesse lugar tranquilo, propício ao sonho, há pequenos lagos que dão acesso a milhares de outros mundos. Só é possível ouvir o som das árvores que crescem. A água desses lagos tem a peculiaridade de não molhar a pele dos que nela mergulham e dela emergem. Lastimavelmente, trata-se de um lugar ficcional. Os mares e oceanos de nosso planeta,  o campo literário, os espaços políticos e sociais, entre outros, têm se transformado em espaços de espera  onde se conjugam às barreiras-entre-dois-mundo a morte e o próprio desfalecimento da espera.

Este Simpósio Internacional  –  que reunirá pesquisadoras, pesquisadores, escritoras e escritores de diversas instituições acadêmicas e espaços culturais –  pretende abordar alguns destes movimentos, e suas intermediações, tentando captar suas consequências no campo literário e no interior das obras literárias. Ele surge dos diálogos estabelecidos entre estudiosos de literatura contemporânea marcando a consolidação da cooperação entre duas instituições de ensino superior: a PUCRS e a Université Paris-Sorbonne. As diferentes procedências dos participantes apontam para as diferentes perspectivas teóricas e metodológicas que estarão em debate no encontro. Estarão em discussão, portanto, desde questões mais teóricas, necessárias para a análise das obras literárias em seu conjunto, até estudos  pontuais sobre livros e autores específicos, incluindo ainda interpretações sobre o campo literário atual. Todos os trabalhos trarão como preocupação central o fazer literário e artístico na contemporaneidade.

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Os trabalhos podem ser apresentados em português e em francês. Enviar proposta de títulos, acompanhada de um resumo ( entre 10 e 15 linhas) e de uma minibiografia com afiliação institucional até o dia 7 de setembro de 2017 aos organizadores :

Leonardo Tonus : leotonusbr@hotmail.com

Ricardo Barberena : ricardobarberena@hotmail.com


A imaginação, o mundo, a dor, Caterine Pacheco



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