sexta-feira, 14 de julho de 2017

Baixo os olhos em sinal de respeito

Baixo os olhos em sinal de respeito

Cintia Moscovich

No meu tempo de estudante, e lá se vão anos, a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul era uma grande sala de estudos e de consulta. Pesquisar no emaranhado de livros, periódicos e fichas era um movimento quase sagrado, que se fazia em silêncio reverente, porque era uma dádiva estar naquilo que a gente imaginava ser a reunião do conhecimento do mundo.

         Tempos ingênuos, reconheço, mas que, a bem do caminhar das coisas, assim deveriam ter-se mantido. À medida em que o acervo da Biblioteca Pública foi-sendo sucateado e se desatualizando, meus pais fizeram com que, apesar dos parcos recursos da casa, nosso acervo de consulta crescesse. O pai fez uma casa em torno da biblioteca, esse era o legado de imigrante que ele nos deixava, e que não esperássemos nada de ninguém, muito menos de um governo que tinha de atender gente faminta, para quem leitura e estudo eram supérfluos — assim ele dizia.

         O sonho de termos nós nossa biblioteca custou muito, é verdade, mas tivemos bem cedo o entendimento que, a depender de políticas educacionais e da boa vontade do Estado, nossa formação, dos meus irmãos e minha, seria um caos. Minha geração, e falo com dor no coração, pouco pode servir-se desse acervo comum. Mas, ainda hoje, ao passar diante da Biblioteca Pública, mesmo que ache um pouco fora de moda a construção de inspiração positivista, baixo os olhos em sinal de respeito.

Xxx




Cintia Moscovich é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária. Autora de 8 livros individuais, mereceu os prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o Portugal Telecom, um dos mais respeitados em Língua Portuguesa, e o Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional. É especialsta em oficinas de criação literária.

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