sexta-feira, 30 de junho de 2017

Uma biblioteca, uma paixão, uma vida...


Uma biblioteca, uma paixão, uma vida...

Fábio Pereira Ribeiro

Assim que saia da escola, depois de uma oficina de ajustagem mecânica, com um professor que não sabia o que era um esquadro, mas ao mesmo tempo sabia tudo sobre como matar uma peça, lá estava eu de frente com a Biblioteca Municipal do Tatuapé. Adorava, todas às terças-feiras, me ver naquela biblioteca. Pois, antes da aula de assassinatos de peças, eu tinha a minha querida professora de Literatura Brasileira e Portuguesa para alegrar meu dia. Kiki era seu nome, a palhaça, a mesma que um dia diria que a literatura era a confirmação de que tínhamos uma alma, com certeza, até mesmo pelas suas palhaçadas literárias. Eu só era um menino com quatorze anos que vinha lá da Penha, antes do Carrão, ainda perdido nos ônibus da Avenida Celso Garcia. 


Mas me ver entre aquelas prateleiras cheias de saber, ahhh….., de fato, aí sim eu me sentia em uma escola, em um mundo onde sentia cada livro. Lá eu não tinha Facebook, mas tinha Conan Doyle, tinha Machado de Assis, tinha Ulysses do Joyce e dos gregos, como também tinha toda loucura de Bocage, além daqueles livros infantis de espionagem cujo nome dos autores me esqueço, mas que marcaram, como também Éramos Seis sabendo que todos éramos. Lá estava eu em um mundo onde a verdade acontecia, principalmente para um moleque que somente queria conhecer o mundo a partir da Biblioteca Municipal do Tatuapé lá da Avenida Celso Garcia, onde Martins Pena se apresentava para mim e chamava seu Juiz de Paz na Roça para marcar que de fato eu tinha razão. De lá, eu voltava para casa, para minhas bolinhas de gude, quiçá para meus piões, dependia do mês, de vez em quando íamos jogar uma bola na Vila Manchester além do Atlético Carrão. Éramos leitores, além de boleiros, pelo menos eu e meu amigo Leandrinho. 


Na Vila Manchester passávamos pela escola de Boxe, pelo futebol da várzea, como também pelos atletas do arremesso, mas a biblioteca era nosso paraíso, principalmente quando chegávamos. Advinha qual o primeiro livro que lá peguei emprestado? Capablanca, Xadrez. O primeiro manual de Xadrez do grande mestre cubano Capablanca. Me lembro ao sentar naquelas cadeiras de madeira de lei, sei lá qual lei, em uma biblioteca que hoje vive no passado, onde só de sentir os livros você percebia que era livre, só pelo sentido de ter sua carteirinha e poder levar consigo algo que era da gente, público, de ser brasileiro, de ser de uma biblioteca. Só de sentir aquele livro só meu, naquela mesa de madeira, eu senti a verdadeira liberdade. Não é a toa que quando estou em Paris e vejo as filas que se fazem à frente da biblioteca perto do Panthéon, percebo que uma biblioteca torna-se o local de encontro para a busca da liberdade, como um arauto de reflexão que ilumina o ser humano a cada contato.

Meu maior prazer era ir até uma biblioteca, lá no Carrão, como também no Tatuapé, mesmo depois de uma partida de futebol, de uma linha, quiçá de uma aposta de piões. Na Biblioteca da Manchester eu era eu, eu conheci muita gente importante lá, inclusive uns estrangeiros que até hoje me ajudam a escrever. Hemingway, Gertrude Stein, um tal de Scott, e também um louco padre chamado São Francisco de Assis (meu padre). Foi uma biblioteca, não uma igreja que me fez crer que Deus é verbo em letras, pelos seus seres humanos, seus.



Em uma biblioteca tive o prazer de estar nas dunas de Mangue Seco e sentir o calor e os lábios de Tieta, como também me imaginei naquele bonde do Rio de Janeiro a esperar por Cinco Minutos, ou até mesmo compreender o que seria a nossa São Paulo desvairada. Em duas horas presentes em uma biblioteca eu viajava o mundo, era mais barato, principalmente para um menino pobre da Zona Leste de São Paulo. Sinto saudades das minhas bibliotecas, inclusive das escolas, me lembro daquela cheia de grades na escola municipal em que estudei lá na Parada XV. Parecia uma verdadeira cadeia, mas éramos libertados pelos livros que lá estavam.


Basta estar em uma biblioteca para o mundo ser mais feliz. Quando vejo destruírem bibliotecas, eu penso, eles atacaram o centro nervoso da humanidade, a paixão do ser humano, a única representação de fato onde todas as inteligências se encontram sem discutir, onde o amor se faz em livros! 

Por favor, vá a uma biblioteca, leia o livro, e pegue um livro emprestado, cada tempo emprestado à biblioteca vale muito, pois você perceberá que o mundo e o futuro estarão sempre do seu lado.

Xxx



Fábio Pereira Ribeiro é Vice-Presidente do Grupo Educacional Caelis com sede na Bahia, autor do romance Um Dry Martini para Hemingway,  publicado pela Editora Simonsen em 2016. Fábio Pereira Ribeiro participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien e do Salão do Livro de Paris 2016. 

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