quarta-feira, 14 de junho de 2017

Uma Biblioteca Pública!




Uma Biblioteca Pública!
Manuel Filho
        
         Há quem diga que se trata de um depósito de livros, outros, de um local que ninguém frequenta mais.

         Os que afirmam isso, provavelmente desconhecem o poder de transformação que pulsa nesses espaços. Eu não tenho receio em afirmar que, além de guardarem histórias, elas produzem seus próprios encantamentos.

         Devo dizer que minha vida mudou completamente quando eu entrei na primeira Biblioteca Pública que conheci, a Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo (SP), Brasil. Tudo começou com um gibi, o do Satanésio, uma publicação brasileira de exclusivos quatro números, do autor Perotti, e que minha mãe me presenteou em 1976.

         Tamanho foi meu fascínio com aquele exemplar, que eu o preservo até os dias de hoje: a primeira obra impressa que tive nas mãos. Acho que isso despertou algo em mim, afinal, na minha casa não havia sombra de livros.

         Quando principiei os estudos no primeiro ano primário, na escola pública, também lá não existiam livros. Entretanto, do outro lado da avenida, localizava-se um prédio “baixinho”, com apenas um andar e meio, pois a parte de cima ocupava somente metade da laje: a Biblioteca, sempre com letra maiúscula, que citei acima.


         Entrei e descobri uma área exclusivamente infantil repleta de publicações diversas, de histórias que iriam me encantar permanentemente. Meu contato inicial ocorreu com “As aventuras de Tintim”, Hergé, porque era o que mais se aproximava dos gibis que eu já lia. Em seguida, me aventurei por “Alice no país nas maravilhas” e “Alice no reino do espelho”, ambos de Lewis Carroll. As ilustrações em preto e branco, especialmente a do Ovo que tinha medo de cair do muro, me impressionavam e assustavam.

         Então, um dia, as bibliotecárias me sugeriram que eu lesse, “Os segredos de Taquara-Póca”, de Francisco Marins e, daí em diante,  virei um leitor apaixonado.  Li a obra completa que esse saudoso autor escreveu para crianças e jovens.

         Acabei sendo o detentor da carteirinha número 01 da Biblioteca por muitos e muitos anos.

         ... e me tornei escritor!

         Foi uma longa trajetória para uma criança que não dispunha de livros em casa?

Foi! E eu a conto com imensa satisfação, pois a tenho como um grande orgulho.
        
         Agora, posso retornar ao “encantamento” que mencionei no começo deste texto. Hoje, frequento a Biblioteca a fim de rever meus amigos, que são tantos, descobrir as novidades, falar com as pessoas e, principalmente, observar.

         Ali, acompanhando os empréstimos dos usuários, eu me ponho a conversar e vou descobrindo hábitos, razões pelas quais os leitores fazem os seus empréstimos: há o rapaz que vai fazer uma prova, existe a senhora que convalesce de uma doença e permanece tendo nos livros grandes companheiros, a menina que lê por prazer, o garoto de dez anos que leva “Sócrates” e “O príncipe”, de Maquiavel, por vontade própria.



         Além disso, retornam eventos antigos que, felizmente, continuam a me alcançar, como o do menino que, para economizar o dinheiro do ônibus, caminhava até a Biblioteca, pegava seus livros favoritos, e ia, com o discreto valor economizado, comprar  e comer algodão-doce sentado nos históricos bancos de granito de uma tradicional praça...

xxx



Fotografia © Vladimir Ferrigato
        


Manuel Filho, escritor, que, de tanto amar a Biblioteca Monteiro Lobato, acabou ganhando, em seu nome, uma árvore plantada no jardim daquele espaço. Consultem o website do autor no link : Manuel Filho 


2 comentários:

  1. Sadias bibliotecas, produzindo leituras, felicidade, escritas. Gostei de saber de sue percurso de leitor, Manuel Filho. Parabéns pela escolha, Etudes Lusophones.

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