quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sobre livros , sorvetes e jangadas.

Sobre livros , sorvetes e jangadas.

Andrea Nunes

Um dia desses, eu vi na televisão a história de Rivânia. A menina que salvava livros, como ficou conhecida nas redes sociais, ganhou esse apelido quando teve alguns minutos para decidir, a pedido da avó, quais os bens mais preciosos que tinha para resgatar em meio à inundação que atingiu sua casa no interior de  Pernambuco. “Os livros são meu futuro”, ela teria dito na ocasião, com uma lucidez rara e comovente. E colocou os livros na mochila, tendo sido assim fotografada por uma jornalista , abraçada a eles na jangada que a conduziu em meio às águas da chuva.

Eu tinha oito anos de idade quando fui morar na Salustino Ribeiro, a rua da biblioteca pública. A mesma idade da menina que salvava livros. Meu novo endereço era uma casa alugada de esquina, com papeis de parede mofados e um  terraço simpático. Estava localizado praticamente no quintal do espaço cultural José Lins do Rego, convidando minha vidinha minúscula a abarcar uma outra escala de grandeza.



Antes de descobrir a biblioteca, conheci a pista de skate. o planetário. o teatro. o sorvete de nata-goiaba da cantina.

Foi com o frescor desses novos prazeres derretendo na boca  que topei com a rampa que levava à biblioteca subterrânea.

Não sei determinar exatamente que tipo de força me arrastou para dentro. Lembro que, primeiro de tudo, gostei dos cheiros. Então, gostei do silêncio que aconchegava tudo.  As paredes forradas de livros, esses objetos quase tão pequenos. O toque eletrizante dos meus dedos deslizando sobre as texturas das lombadas, enfileiradas nas prateleiras. Depois, palavras e emoções novas derretendo na boca, com o virar das páginas.

Um dia eu percebi que  morava ali com os livros, de certo modo. Acho que foi quando eu dei por mim que aquelas coisas pequenas como eu podiam esconder enormidades. Então começamos a gestar naquele abrigo a pessoa que eu me tornaria.

Eis que no mês passado, trinta e sete anos depois, eu volto ao Espaço Cultural José Lins do Rego como convidada de um festejado evento. Palestra, mídia, autógrafos. E os livros, que agora têm meu nome na capa.

Meus pés me arrastaram de volta à entrada da velha biblioteca pública subterrânea, que continua ali, parecendo agora bem mais acanhada do que era há trinta e sete anos.




Na sua rampa de entrada, avistei a antiga porta ampla envidraçada, onde tantas vezes vi o reflexo da menina de oito anos, mochila nas costas, descendo saltitante para mais uma tarde entre seus livros. Mas quando olhei para o reflexo, era Rivânia , a outra menina, quem estava lá. Se equilibrando na jangada improvisada, abarcando com os bracinhos suas enormidades que cabiam na mochila desbotada.A menina, que até no nome carregava o simbolismo de um naufrágio, desafiou sua sina severina e salvou. Mas não a si própria, que ela não precisava de salvação. Salvou  a todos nós de afundarmos na descrença e na apatia. Resgatou um vislumbre de esperança em uma sociedade inundada de cinismo.

Olhei de novo para o reflexo e me enxerguei na cena refletida.

Eu? Sim, eu também estava lá naquele reflexo, certeza absoluta. Mas como? Nenhum de nós jamais poderia ser Rivânia, que é muito mais rara que todos que eu conheço, porque perseverou no solo bruto, sem qualquer estímulo, só conhecendo da vida a adversidade, e devolvendo teimosia e força de vontade. Não.  Não chego aos pés de Rivânia, ela é bem mais forte do que eu, que fui criada por professores num lar de classe média. Então olhei a cena com mais cuidado e percebi . Não somos Rivânia, mas estamos na cena, sim. Porque é nossa responsabilidade protegê-la dos tantos naufrágios que teimam em inundar sua vida. Porque precisamos aprender com ela a lógica irrefutável de enxergar o que é mais importante, salvar o que vai garantir nosso futuro. Garantir que meninas como Rivânia sobrevivam às intempéries é o que importa. Dar meios para tantas Rivânias se tornem felizes e produtivas é o nosso futuro.

E nós, nesse quadro? ,  eu continuava a refletir.

Nós somos a jangada.




XXX





Andrea Nunes é autora dos romances policiais O  Código Numerati e A Corte Infiltrada ( BUZZ editora). Em 2014, recebeu da Academia Pernambucana de Letras a menção honrosa do prêmio Dulce Chacon, de melhor escritora nordestina do ano de 2014. Suas obras literárias têm recebido elogios de escritores como Mary del Priore, Raimundo Carrero e José Paulo Cavalcanti Filho. Atua também como Promotora de Justiça de combate à corrupção em Recife. Andrea Nunes participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 



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