quarta-feira, 28 de junho de 2017

O meu clube é a literatura


O meu clube é a literatura
Julia Wähmann

Os últimos anos têm sido um desafio constante para o mercado editorial. O esvaziamento dos programas de compra de livros nas esferas federal, estadual e municipal afetou a economia das editoras. A queda nas vendas de varejo também, e tudo o mais que pode ser justificado pela crise – possivelmente a palavra mais falada em toda a parte – se reflete por toda a cadeia do livro no Brasil, uma rede que já enfrenta seu maior problema há tempos, o baixo índice de leitura do país.

Foi neste cenário desolador que surgiu o convite para tirar do papel uma ideia já formatada em planilhas e pesquisas pelo Gustavo Barbeito, financista e empresário que me propôs colocar em prática um projeto que soa quase anacrônico: um clube do livro. Ou melhor, seis clubes do livro. Em setembro de 2016 colocamos no ar o Garimpo Clube do Livro, site que reúne propostas de curadoria de leitura para diferentes perfis, mediante uma assinatura mensal.


Meu primeiro pensamento foi: quem é que vai querer pagar por um livro surpresa? Quem, em tempos inóspitos, vai querer investir nesse encontro às cegas com a literatura? Será que existe, de fato, um público que confia em indicações e nos Correios? Antes de saber a resposta para as minhas dúvidas, algumas investigações apontaram para o alívio. Topei com alguns modelos de clubes de livro bem-sucedidos, com adesão de números expressivos de assinantes-leitores que demonstram, por meio dos canais de mídia social, um entusiasmo comovente por esse objeto que também me move.

Talvez o precursor para essas iniciativas tenha sido o mesmo, o Círculo do Livro. De 1973 a 2000 o Círculo, parceria da editora Abril com a alemã Bertelsmann, que depois teve outros sócios, montou um catálogo com títulos a serem escolhidos por assinantes. E não foram poucos: o Círculo chegou a ter 800 mil inscritos, o que hoje parece uma utopia. 

A minha utopia – ou melhor, nossa, porque o Garimpo, além do Gustavo, conta com uma sólida colaboração dos nossos parceiros curadores e leitores – é a resposta diária e afirmativa para as minhas angústias iniciais. Montamos os clubes que o compõe com a preocupação de oferecer diversidade aos leitores, com a certeza de que o gosto e o hábito da leitura se consolidam quando o encontro com os livros é subjetivo, afetuoso, pessoal. A ideia de ter linhas curatoriais distintas busca viabilizar esse encontro.

Os leitores podem escolher entre clubes de poesia, ficção, livros de autoria exclusivamente feminina. O clube de negócios visa a leitura mais instrumental e pragmática, mas sem perder a ternura. E os livros infantis, selecionados para as diferentes fases de leitura das crianças, são o xodó absoluto de todos os adultos envolvidos. Para além da seleção primorosa feita pela Elisa Menezes, ali está a base da formação do leitor, e ainda um elo que aproxima os mediadores que introduzem os pequenos no universo literário.


Gosto da imagem de alguém que nos guia de mãos dadas, e por isso todos os livros selecionados nos clubes chegam às casas dos leitores com uma carta de apresentação. Longe dos padrões de resenhas de veículos especializados, os textos talvez se pareçam um pouco com este que você lê agora: estamos todos misturados às leituras propostas. Quando elejo um livro para os leitores do meu clube, conto a eles, em texto, as razões dessa escolha, e pincelo alguns detalhes sobre quando ou como o li – numa praia, em casa de pijama, na tela do computador quando ainda trabalhava como editora e administrava as descobertas com colírio frente à tela luminosa. Todo mês, ao receber os textos dos curadores dos demais clubes, me delicio com suas observações e revelações, e percebo como essa avaliação prévia já me lança ao livro de maneira diferente, mais curiosa e aberta ao que ele tem para me oferecer.

É reconfortante confiar nessas indicações. É como adentrar um ambiente desconhecido com algumas cartas na manga, o equivalente a entrar, hoje, em livrarias ou sebos repletos de títulos, capas, nomes e cores que muitas vezes desnorteiam até os profissionais do mercado – isto é, quando o seu bairro ou município têm livrarias ou sebos. Um dos muitos paradoxos do Brasil é este, a quantidade de livros publicados em oposição a uma demanda real, e que evidencia um ciclo vicioso da cadeia: as traduções são mais numerosas que as edições de autores nacionais, e quase sempre os livros que recebem mais investimento em divulgação são os que já vêm chancelados por boas vendas no exterior. É de fritar o cérebro.

Tenho uma alegria imensa em furar um pouco essa lógica através do Garimpo, e colocar em circulação títulos que ficaram esquecidos ou que passaram desapercebidos nesse mar caudaloso de lançamentos; livros que fomos conhecendo dos catálogos das editoras pelas quais passamos, publicações de novas casas editoriais, ou de editoras artesanais/independentes que não têm vez em livrarias. Nosso garimpo de uma vida de leituras, que agora podemos dividir com leitores ávidos por novidades, e que às vezes só precisam de um incentivo. Amós Oz disse, em uma palestra, que a boa literatura nos conta algo que não sabíamos, sobre nós mesmos e sobre os outros, por isso é um prazer preparar todo mês os pacotes que levarão tantos mundos aos leitores. Acredito que as noções de empatia e tolerância que a literatura desperta se fazem cada vez mais urgentes.



Outra alegria é poder contribuir, em forma de doações mensais, para o acervo feminista da Biblioteca Pública Municipal Cora Coralina, sob coordenação de Cléo Lima, em São Paulo, parte da parceria do Garimpo com o clube Leia Mulheres. Nas palavras da Cléo: “Em 4 de julho de 2015, a Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com a Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, inaugurou a primeira sala temática feminista de São Paulo. Concebida a partir da vocação natural do espaço da biblioteca, que já recebe o nome de uma marcante escritora brasileira, o local se propõe a valorizar a luta e as ações do movimento em defesa dos direitos das mulheres.”

Recentemente, aqui neste mesmo blog, o Carlos Henrique Schroeder contou sobre a importância das bibliotecas em sua formação como leitor, um relato que certamente encontra ecos pelo país adentro, e que nos faz querer chorar diante da calamidade que grande parte desses espaços atravessa. Mas não choremos. Sigamos adiante em nossas utopias, afinal se uma parcela delas vingar e revelar às pessoas algo que elas não conheciam, já terá valido a pena.

xxx



Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou os independentes Diário de Moscou (7Letras/Megamíni) e André quer transar (Pipoca Press), e em 2016, Cravos (Record). Coordena o Garimpo Clube do Livro desde sua criação. Julia Wähmann participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 




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