sexta-feira, 16 de junho de 2017

Flor-a-ser

Flor-a-ser (I)
Para Vinicius Andrade
Nilma Lacerda

A felicidade é clandestina, mais uma vez. E, mais uma vez, determinada a ser consentida, nesta leitura na biblioteca escolar para jovens estudantes.  Tomo o conto de Clarice, leio. Sem explicações anteriores, nem didatismos, sem dizer quem é a escritora, só o nome dela, o livro, a editora, o ano. O mistério do nome de alguém que ainda não se conhece. Quando souberem quem ela é, dirão, ah, então aquele texto era dela. Haverá tempo para isso.
Leio para eles. Nem todos terão vindo pela leitura, alguns talvez pelo ar condicionado no repouso (curto) da hora do almoço. Acabo de ler, faço algumas referências, aguardo que se manifestem. Nada de perguntas para avaliar, nenhuma interpretação. E eles vão comentando, gostaram de ouvir, um deles – o rapaz, a moça? – diz que foi bom, o outro – a moça, o rapaz? – acrescenta que era muito legal “alguém ler para a gente, como se a gente fosse tudo naquele momento”.


Certa vibração, silêncio. Em mim, a teórica exulta, a leitora se emociona, busca o equilíbrio na corda bamba, mas cai na rede: houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco, tinha dias de ar límpido que o pombo parecia pousado no ar. As palavras escritas de Cecília Meireles lançaram os fios, ali estávamos, na segurança de um ovo azul, um livro abraçado ao corpo. Deitados na rede, como a menina-mulher revelada em Clarice, a felicidade entrava na vida, gratuita e manifesta, como deve ser.
Éramos uma dupla, o estagiário e eu, nos revezando nas leituras. Vinicius ficou com as turmas menores, a mim couberam as maiores. Então, um jovem aluno de Letras, crianças que são alunas de uma escola pública federal: um lê, outros escutam, se deixam prender na malha de palavras. Alguém lê livros para elas, e o momento é denso, único, pombo branco no pouso leve sobre azul.    
Na turma maior, uma jovem, protótipo da aluna rebelde, provocadora, após a leitura de Clarice arriscou propor algo como mistério para o texto do dia seguinte. Em casa, abri a biblioteca, este texto, aquele, qual para prender a leitora ao mistério? Caio Fernando Abreu, os Girassóis. Fragmento da crônica escrita pouco antes de morrer, editado pelos amigos. Costumo lê-lo para exemplificar o quanto é incógnito o solo de onde pode brotar um leitor. Caio, então. Mas a provocadora de ontem é a deprimida de hoje, estende o braço, deita a cabeça sobre a mesa, não está a fim de participar, nem de se alegrar porque pensei nela e trouxe um mistério, como pediu.


Os colegas, não. Estes, como na véspera, estavam a fim de se regozijar com o fato de haver alguém lendo para eles nos minutos seguidos ao almoço, no conforto do ar condicionado e da cenografia de uma biblioteca. Lido o texto, um quase nada de conversa, acabou o intervalo, é hora de voltar às disciplinas. Despedem-se rápido, como se despediram, ao fim de quinze dias, os lírios cuidados diariamente em uma jarra com água, o ramo comprado apenas com uma flor entreaberta, os demais botões fechados na promessa de flor-a-ser. Todos os dias, trocava a água, limpava os talos, punha-os na varanda, à noite, para a recuperação feita de escuro e frescor. Pela manhã, o ramo entrava viçoso na sala. Assim foi até que o último botão se abrisse flor na jarra com água, resposta ao gesto de confiança no trabalho dos elementos.
Caio, Cecília, Clarice sabiam da força deste trabalho. Vinicius acabou de descobrir. Após as leituras para os pequenos, em dias sucessivos, e, respondendo à pergunta ansiosa que fizeram se ele voltaria para continuar a tarefa, me diz, emocionado: “Agora, eles sabem que eu existo.”



XXX




Nilma Lacerda é autora, dentre outras obras, de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio. Figura em Amores vagos e Mapas de viagem, antologias do grupo Estilingues. Orientadora de algumas oficinas literárias, pesquisa criação literária e palavra escrita, publica ensaios e artigos científicos. Recebeu os prêmios Rio de Literatura, Jabuti, Brasília de Literatura, Cecília Meireles, Orígenes Lessa e Monteiro Lobato da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY). Doutora em Letras Vernáculas, tradutora, é professora associada da Universidade Federal Fluminense, mantém a coluna Ladrilhos na Revista Pessoa de Literatura Lusófona. Participou da 4ª edição do Printemps Littéraire Brésilien.

* texto originalmente publicado na Revista Pessoa de Literatura. Link : https://www.revistapessoa.com/

Referências :
* Cecília Meireles. A arte de ser feliz. In: ___. Escolha o seu sonho; crônicas. 19. Ed. Rio de Janeiro. Record, s/d. p. 23-4.

** Caio Fernando Abreu. Girassóis. Il. Paulo Portella Filho. São Paulo: Global, 1997.

Abraços da equipe do Blog Lusophone aos bibliotecários da Biblioteca Monteiro Lobato do Colégio Universitário Geraldo Reis (Universidade Federal Fluminense)

Um comentário:

  1. Maravilha de relato, de texto, de experiência motivadora e inspiradora.

    Dá vontade de sair por aí lendo para alguém. Para que também me vejam, me reconheçam, saibam que eu escrevo, escrevi e hei de escrever mais... Nem preciso disso. Mas isso faz bem - a mim, aos leitores, à literatura. Ao meu pequeno mundo, quase perdido aqui num rincão da Amazônia Ocidental.

    Gostei da Nilma Lacerda e seu engajamento!!

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