quarta-feira, 28 de junho de 2017

Bibliotecas, modos de usar


Bibliotecas, modos de usar
Lúcia Bettencourt

Tive a sorte de ter nascido numa família que amava os livros. Em minha casa sempre houve livros, em estantes abarrotadas, fechadas com portinhas de vidro, difíceis de abrir. Eram livros encadernados, capas de couro, letras douradas. Em sua maioria traziam o nome de meu bisavô, e o de meu avô. Mas eu sabia que eram de todos, até mesmo meus, caso descobrisse alguns que me interessassem. Alguns se desconjuntavam e estavam amarrados com barbantes. Outros ainda tinham as páginas unidas, indício de que não haviam sido lidos. Muitos tinham furinhos de traças, formando gracioso rendilhado que eu, criança ainda, achava bonito, sem entender que eram ameaças.

Não admira, portanto, que minha descoberta das bibliotecas públicas fosse coisa tardia. Como cheguei a elas? Por sorte: Havia, no caminho de minha escola, numa esquina da Avenida Atlântica, a Biblioteca Thomas Jefferson, com livros em inglês ou de autores de língua inglesa, já traduzidos. Quem era aluno do IBEU tinha acesso àqueles tesouros. Eu não era. Mas tinha uma amiga querida que era, e compartilhávamos os livros de Laura Ingalls Wilder. Ela pegava dois, ficava com um e eu com outro, e depois trocávamos livros e comentários. Li muita coisa com ela, e adorava. Mas nunca entrei na biblioteca, pois não tinha “carteirinha”. Um dia, vindo para o distante Leblon – o bairro já foi um “lá longe”, onde poucos se aventuravam – passei por uma rua pacata, quase erma, de predinhos baixos e vi o que me pareceu ser uma livraria. 


As portas abertas me convidavam a entrar, mas logo percebi algo muito diferente:  os livros ficavam todos arrumados em estantes e pareciam velhos. Havia mesas, onde pessoas, poucas, se sentavam lendo, havia um balcão com duas mulheres silenciosas, e gavetas com centenas, ou talvez milhares de fichas.



Entrei, olhei, toquei numa lombada, em outra…  Finalmente tomei coragem e peguei um livro. Li uma ou duas palavras, mas sem conseguir me concentrar, pois não sabia o que fazer em seguida. Fiquei ali, na sala sem muitos atrativos, sem desejo de me sentar na cadeira dura e desconfortável, e sem saber onde colocar o livro. Depois de alguma hesitação, resolvi caminhar até o balcão, e deixá-lo sobre o mesmo. Uma das mulheres, ao sentir que me aproximava, levantou os olhos, me olhando por cima das lentes dos óculos. Muito tímida, eu não soube o que fazer. Fiquei congelada, o livro nas mãos parecendo pesar uma tonelada, meu rosto quente, suado. O instante se prolongou indefinidamente. Senti meus olhos se enchendo de lágrimas e estava prestes a fugir, para não chorar em público, quando a mulher me informou:

          – Não emprestamos obras de referência.
E mais não disse, nem sequer voltou a me olhar.
O que seriam “obras de referência”? Não fazia ideia. Recuei, passo a passo, até me encostar numa mesa. Puxei a cadeira, que fez barulho.
          – Sshhh!

As mulheres do balcão me olhavam com fisionomias desaprovadoras e o homem de chinelo, sentado em outra mesa, interrompeu a leitura da revista, também com ar zangado.



Fiquei sentada, rígida, até sentir as pernas dormentes da posição desconfortável. Tomei coragem, abandonei o livro aberto sobre a mesa, deixando à mostra o verbete que tinha lido inúmeras vezes: “angústia, substantivo feminino.1. Ansiedade intensa; AFLIÇÃO; AGONIA, 2. Sofrimento, 3. Psiq. Medo sem causa identificada, 4. Estreiteza, aperto.
[F.: Do lat. angustia. Hom./Par.: angústia(s) (sf.[pl.]), angustia(s) (fl. de angustiar).]



Esgueirei-me, consegui sair, e voltei a respirar, disposta a nunca mais voltar àquele lugar. Por uma coincidência quase inverossímil, esbarrei numa colega de colégio, uns dois anos mais velha, que me segurou e perguntou onde eu estava indo.

Para casa, disse. E a amiga, com a segurança que os seus dois anos a mais lhe emprestavam, me informou que queria passar na biblioteca para pegar um livro e que eu iria junto. E foi assim que voltei ao lugar de onde acabava de sair. Aprendi os mistérios da biblioteca pública do Leblon, que ficava aqui na Dias Ferreira, onde hoje é a Livraria Argumento. Observei enquanto ela abriu a gaveta, anotou os números da ficha identificadora do livro. Perdi o medo de me dirigir as bibliotecárias, passei a fazer empréstimos de livros e ampliei ainda mais minha relação com a palavra escrita. Mas isso tudo foi depois de fechar o dicionário que tinha sido abandonado sobre a mesa, deixando a angústia lá dentro. Biblioteca, afinal, é lugar de liberdade.




P.S. Hoje a Biblioteca Pública do Leblon está localizada na Bartolomeu Mitre. E a Biblioteca Thomas Jefferson saiu de sua esquina na Avenida Atlântica, mas não sei para onde se mudou…

Xxx


Lúcia Bettencourt é escritora, carioca, e gosta tanto de bibliotecas que tem a ousadia de pensar que pode ter uma em casa. Depois de aprender a usá-las, frequentou bibliotecas maravilhosas como Sterling e Beineke, em Yale, e a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.


Um comentário:

  1. Tão simpática leitura!Minha história tem diferenças interessantes e a sua me abriu o apetite de contá-la...Vou aproveitar a inspiração, quem sabe pessoas que não se saibam leitoras vão retomar de onde pararam e criar asas...Sucesso para o Blog e Lúcia Bettencourt...

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