quarta-feira, 21 de junho de 2017

As bibliotecas em mim

As bibliotecas em mim

Carlos Henrique Schroeder

A vida é uma gangorra e sempre te leva ao passado. Nasci em Trombudo Central, há praticamente quatro décadas, em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, que nunca ultrapassou os dez mil habitantes (para sua sorte ou desgraça). Na era pré-internet as bibliotecas eram o Google, mas especialmente para quem morava em cidades sem livrarias, como eu, as bibliotecas eram o contato com o mundo exterior. Estar numa biblioteca era estar no mundo, e eu passei minha adolescência naquele mundo, o das bibliotecas públicas da minha região.

Primeiro, na Biblioteca Pública Presidente Getúlio Vargas, fundada por meu avô, no então distrito de Braço do Trombudo, onde morava (um vilarejo no interior de Trombudo Central); depois, na Biblioteca Pública Municipal Cruz e Sousa, em Trombudo Central; e por fim, no centro do universo: a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos (criada em 21 de outubro de 1953) em Rio do Sul, maior cidade da região (a vinte e quatro quilômetros de distância). Lá, as prateleiras eram incontáveis e os volumes ocupavam dezenas e dezenas delas.


No início, quando era um pré-adolescente, minha mãe ia comigo, a cada quinze dias, de ônibus, para escolher três livros (o permitido), depois passei a ir sozinho. A felicidade era uma escala crescente, mais ou menos assim: o trajeto de ônibus e a ansiedade de chegar à biblioteca, a escolha dos livros (que demorava horas) e as leituras. Esse ritual quinzenal é o que sobra da minha adolescência, é onde estão as lembranças mais vívidas. Não foi a descoberta do sexo, ou da amizade ou do amor, pois as três coisas vieram acompanhadas de decepções e foram lá para trás, para o sótão mais distante. Enquanto minhas caminhadas pelos corredores da biblioteca, o tatear por filas de livros e estantes, a descoberta de grandes livros, sempre estiveram numa área luminosa, ao primeiro alcance da memória. Ninguém me falou de Franz Kafka, eu não li sobre ele em uma revista ou alguém me entregou nas mãos e disse “leia isso, cara, agora”. Eu descobri sozinho, de joelhos, numa prateleira periférica. E estavam lá A metamorfose, O processo e Carta ao pai. Os títulos insólitos e diferentes nas lombadas e as capas sombrias desafiaram o jovem leitor, que já foi devorando as páginas no retorno sacolejante do ônibus.

E como se vive depois de Kafka? Ele te conecta com outro mundo, contemporâneo (“contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”. Agamben, Giorgio), de verdade. E você quer, cada vez mais, repetir essa experiência de escuridão, e vai lendo coisas cada vez mais desafiadoras, e entra num caminho sem volta.



E você começa a se deparar com fantasmas entre as prateleiras da biblioteca, um dia você encontra Mersault, em outro, Madame Bovary, esbarra no escrivão Bartleby ou no cínico Bento Santiago ou na poesia corroída por vermes de Augusto dos Anjos.

Então aquela biblioteca, que era a porta do mundo, passara a ser também a porta dos meus instintos mais sombrios, como leitor, como ser caminhante.

E você se atreve a escrever, sim, a escrever.

Montei (com dezessete anos)  o primeiro jornal do (já emancipado de Trombudo Central) município de Braço do Trombudo, o jornal Gazeta Tradição, um periódico mensal de variedades que me valeu um passaporte para escrever um ano mais tarde no Diário do Alto Vale. Comecei como jornalista, mas o que gostava mesmo era de escrever resenhas de livros, e contos.

Agora também já tinha acesso para a farta biblioteca dos meus avós paternos, com as coleções do Hemingway, Maupassant e dos ganhadores do Nobel, mas a Biblioteca Pública Municipal Nereu Ramos, com seus milhares de volumes, continuava a ser meu destino predileto.

Essa pequena crônica, de um leitor faminto, adotado por uma biblioteca, pode soar como uma brisa, mas quem conhece as bibliotecas, de verdade, sabe que todas são habitadas pelos espectros de seus leitores. Então ainda estou lá, com os cabelos longos, olhar vago, indo de um corredor para outro, acreditando que cada prateleira era um continente. E era. Tempestade.



XXX

foto de Thays Magalhães

Carlos Henrique Schroeder nasceu no da 9 de junho de 1978 em Trombudo Central, em Santa Catarina.  Vive em Jaraguá do Sul, no norte do estado. Publicou vários livros, entre o conto, o romance e a dramaturgia, com destaque para as seguintes obras:  o romance "Ensaio do vazio”, lançado em 2007 e adaptado para os quadrinhos em 2012 pela editora carioca 7Letras. A coletânea de contos "As certezas e as palavras”, obra vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, em 2010. O romance "As fantasias eletivas”,  lançado no Brasil em 2014 pela editora Record e na Espanha em 2016 pela Maresia Libros. O livro também foi indicado nos vestibulares UFSC, UDESC e Acafe nos anos de 2016 e 2017. Eleito o melhor romance do ano de 2014 pela Academia Catarinense de Letras e semifinalista do prêmio transnacional Oceanos Itaú Cultural. Outro destaque é "História da chuva" (Record, 2015), obra contemplada pela bolsa Petrobras Cultural. É editor-associado da Revista Pessoa, única publicação destinada à divulgação da literatura lusófona no país, desde 2014. Assina a coluna de literatura do jornal Diário Catarinense, todas as quartas-feiras, desde 2014.




2 comentários:

  1. Li com os meus saudosos olhos de adolescente... emocionada! Obrigada, Carlos!

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  2. Obrigada, muito bom! de produzir lágrimas... (não que seja piegas, ao contrário, mas o desenrolar da cena já mereceria um curta-metragem).

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