quinta-feira, 11 de maio de 2017

Os meninos engraxates



Os Meninos Engraxates

Ana dos Santos


OS MENINOS ENGRAXATES
não usam sapatos.
Isso é fato!                                         
Que nossa falta de tato
não deixa perceber:
a falta do sapato
a falta do afeto...
A graxa do sapato
é da cor do menino
e o brilho do lustre
reflete em sua face.
Enquanto lustra o sapato
ele pensa que não há sapatos
para calçar...
E que aquele que está lustrando
não é o seu número!
Não é o seu número!


                                                
AS BABÁS DE BRANCO
As babás pretas
Cuidam bebês brancos
As babás de branco
As babás são pretas
e usam uniformes brancos
As babás de branco
Eu não brinco
com as babás de branco
A vida delas
não é brincadeira!



EU NÃO ESTOU SAMBANDO PARA TI
Eu não estou sambando pra ti!
Eu sambo porque eu quero.
Eu não estou sambando pra ti!
Eu sambo porque eu gosto.
Eu não estou sambando pra ti!
Eu sambo porque meu corpo samba
meu corpo dança
meu corpo negro!
Eu não estou sambando pra ti!
Eu sambo o ano inteiro
e principalmente
no carnaval!
Eu não estou sambando pra ti!
Eu sambo para os instrumentos.
Eu sambo de alegria
e sambo de lamento.
Eu sambo com o meu povo
meu povo em movimento.
De Àfrica para o Brasil
sambo oceano e continente
sambo lágrima e suor
sambo mar e rio
e sambo contente!
E não para ti!



MINHAS PRETAS
Deixa eu te contar
das pretas velhas da minha família:
minha bisavó, minha avó, minha mãe
e no futuro, eu!
São pretas, crioulas, mulatas
e caboclas também.
São velhas enquanto jovens
e jovens enquanto velhas.
São mulheres fortes e frágeis
meninas e mães.
Mais corajosas que alguns homens.
Costuram com os fios da vida
uma rede de teia de aranha.
Cozinham na panela
segredos culinários.
Benção de mãe
é proteção
contra o mal!
Beijos de amor
que nutrem as raízes
das árvores genealógicas.
Minha preta velha, Mama África!
que me guia
me protege
noite e dia!
Amém!
Xxx



Poetisa, professora de Literatura e contadora de histórias, Ana dos Santos é gaúcha de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Formada em Letras pela UFRGS, participou e venceu concursos de Poesia na universidade e recebeu a Menção Honrosa do Prêmio Lila Ripoll na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. Escreveu pequenas crônicas no Livro da Tribo (SP) e no livro “Brazil by Night” (SP). Venceu o Concurso Ministério da Poesia (World Art Friends) onde publicou o livro “Flor” (Portugal). Está com poemas na Antologia Águia 2009 (AmiGos Unidos Incentivando As ArteS), no livro Pretessência – Sopapo Poético, na Revista Gente de Palavra e na Revista Poesia Sem Medo. Artista independente, criou o jornal digital “Sociedade dos Poetas Vivos” e colou poemas e muros do Brasil, projeto “As paredes têm ouvidos e sabem do nosso amor”. É mãe de Guilherme, seu melhor poema! Blog: “Flor do Lácio”.


Um comentário:

  1. Que bom estar no blog Estudos Lusófonos1 Temos muito em comum na nossa Língua Mãe, tanto para o bem, quanto para o mal...Belo trabalho Leonardo!

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