segunda-feira, 8 de maio de 2017

O Nome de minha rua

O Nome de minha rua

Sonia Regina Bischain

         Azul com letras brancas, Ivanildo tanto se empenhou que tá lá a placa, há três meses, pregada na casa da esquina...
         Minha rua agora têm nome, e não é qualquer nome, não. É nome de doutor, arcanjo e poeta. Certo que aqui ninguém nunca antes ouviu falar nesse fulano.
         Em arcanjo muitos nem acreditam. Doutor, até no posto de saúde é difícil de se ver as fuças. Poeta? Tinha o Tião do número oito lá de cima, vivia fazendo rima. Faz um tempo sumiu das ruas, se mudou, se morreu ou se foi preso quem é que sabe?
         Eu moro no oito de baixo. Sim, é que os números se repetem e são meio desencontrados, repetidos e salteados.
         Os primeiros que chegaram na parte baixa, pela rua principal, foram loteando e pintando na frente das casas os números  do um ao trinta. Outros vindo de cima, pela avenida transversal, ergueram seus barracos e numeraram de cima pra baixo, também do um ao trinta até que os números se encontraram.
         No dia em que pra cá mudei, vieram os homens  do comércio do fim da rua (ou será que do começo?), e foram logo explicando:
         — Aqui ninguém é melhor que ninguém, somos tudo gente boa. Pintura nas casas só do lado de dentro, que ninguém precisa se sobressair — foi aí que reparei, as casinhas sem reboco, no tijolo, tudo igual.
         Era muito mais difícil, numa rua sem nome, carta não chegava, entrega não faziam, o povo todo carregando nas costas alimentos, móveis, botijão rua acima ou abaixo dependendo se vinham da rua principal ou da transversal.
         Tô na esquina de baixo desde as oito da manhã, esperando o caminhão que vem entregar meu novo fogão. É que a rua começa larga e depois de cinco casas vai afinando, se estreitando. Essa questão não mudou nada, continua como antes quando a rua nem nome tinha, automóvel algum ultrapassa a casa de número cinco. Já combinei com Nonô e Pedrão, chamo quando chegar o caminhão e eles me ajudam a carregar.
         Já tá dando meio-dia, do barraco da Jandira vem chegando um cheiro bom do tempero do feijão, cebola e alho na gordura do toucinho, meu estômago começa a roncar e nadica do caminhão chegar!
         Mas não posso reclamar, graças a Deus a entrega foi marcada pra este dia. Hoje tá tudo calmo. Ontem tava aqui um rebuliço doido, os homens do comércio passaram avisando:
         — Ninguém chega, ninguém vai — e o povo se trancou dentro de casa.
         Quase uma da tarde, lá vem o entregador. Fui ao seu encontro. Tava bravo, soltando fumaça pelas ventas.
         — Perdi um tempão subindo e descendo uma rua lá mais atrás e ninguém conhecia nenhuma Maria Nogueira, número oito baixo. Foi daí que me disseram: “tem outra rua com o mesmo nome uns trezentos metros adiante” — foi me dizendo.
         — Espera um pouco aí seu moço — eu disse e corri chamar Nôno e Pedrão.
         Voltamos, o moço descarregou o fogão e intrigado questionava:
         — Como pode, no mesmo bairro, duas ruas com um só nome?
        Deixei o moço com suas dúvidas, eu que não ia explicar. Só quem é daqui sabe o empenho do Ivanildo: saiu de madrugada com uma escada, arrancou a placa da outra rua, pregou aqui nesta esquina. O povo de lá tanto reclamou que a prefeitura foi e colocou outra placa. E agora são duas ruas com o mesmo nome.
         Ivanildo subiu na escada e do ladinho da nossa placa, pintou o número dois, como quem diz: “leia-se: rua Doutor Miguel de Castro Alves 2”.



Às margens da vida.

Naquelas noites de infância
o mundo girava feliz,
refletindo estrelas
em gotas de orvalho.
Seu pequeno coração
ardia esperanças,
Seu olhar de segredos
e distâncias, inocente,
sonhava belo destino,
quimeras,
futuro sem grilões.
Despertou assustado,
às margens do dia.
Nestas paragens,
uma estranha
ordem das coisas:
botas negras,
leis e fardas impiedosas.
Destino que se cumpre
sem pedir licença
atirando-o contra o nada,
mar em ressaca,
onda morrendo na praia.
Angústia,
rumores de medo,
lágrimas e morte.
Denúncias vãs.
Enquanto piedosas
mãos acendem velas,
vozes, entre sombras,
alçam fronteiras,
ardem desejos.
Outras vozes
reivindicam sonhos
não nascidos, lutam,
alimentam sonhos livres.


Que não seja tarde!

Haveremos de emudecer o pranto;
de sair da penumbra.
Haveremos de cruzar as fronteiras
da esperança;
de enxergar a realidade.
Haveremos de lembrar, decorar,
gritar os nomes
guardados na memória;
de relembrar todas as faces
da rebeldia.
Haveremos de perder o medo;
de transpor as portas das tormentas.
Haveremos de transbordar
de sonhos nossos dias.
Que não seja tarde!


Mauro Restife
Atalhos

Rumo eu pelo caminho,
atalho perdido na mata,
galhos, folhas, flores, sementes.
Sei bem das distâncias,
do rio que atravesso.
Braçadas a nado, cansadas.
Deixaria eu mais que pegadas?
Gotas d’água?
A curva da estrada, as cores,
a sombra, o vento, as horas,
minhas palavras?
Me ouvirias dizer de pássaros,
de nuvens, de luzes?
Ah, constelações!
De alma partida,
diria eu um pouco mais,
falaria de medos, de dores,
de homens, e de passos errantes.
Reconstruiria o caminho,
atalhos restaurando o passo.
Em outras margens
refaria a largo as pisadas,
deixando para trás
a amargura do andar.
Jogaria longe as vestes insanas
e revelaria os olhares,
os sentidos, os saberes.
Aí falaria eu de cantos,
de risos, de abraços,
de amor, enfim.


Thiago Almeida
Tecendo a vida 
O sol empurra,
lentamente,
pra um canto do céu,
a lua.
Hora de nascer o dia.
Sai Maria,
meio-sol-meia-lua
arrastando Pedrinho,
filho bastardo
de um outro Pedro.

Pedrinho aos berros:
“quero minha mãe!”
Pedrinho na creche.
Maria,
avançada em anos,
filha, mãe, avó
réplica de tantas Marias,
cuidados, suor e pão.

Maria volteando,
fogão,
pia,
louça,
vassoura.
Roupa,
tanque,
sabão,
sol,
pregador,
varal.

E vai o sol,
e vem Pedrinho
e volta Maria, filha.
Retorna a lua,
volteando o ciclo:
água,
sabonete,
travesseiro,
lençol.
Maria vó,
nua e só.

Ciclo infinito!
Dor e pranto
feito lição no peito.
Desmedida luta.
Cintilando ternura
onde é tão pouca coisa
ser Maria.

Maria desvelo,
porção-sol-e-lua,
volteando,
arremata dores,
tece sorrisos,
borda esperanças,
costura sonhos.

Xxx



Sonia Bischain é escritora e fotógrafa, 59 anos, mora na periferia de São Paulo, Vila Penteado, distrito de Brasilândia, é uma das coordenadoras do Sarau da Brasa, desde sua criação em 2008. Autora do livro de poemas Rua de trás, publicado em 2009, do romance Nem tudo é Silêncio publicado em 2010, ambos pelo Sarau da Brasa; do romance Vale dos atalhos, publicado em 2013, pela editora Sundermann; do livro de fotografias Cultura daqui, olhares da Brasa em coautoria com Avelino Regicida e Enver Padovezzi; do romance Viandante, labirintos entressonhos, que será lançado em junho de 2017, pela Círculo Contínuo Editorial.



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