segunda-feira, 15 de maio de 2017

O farfalhar do outono

O farfalhar do outono

Regina Azevedo

só por um segundo
sob teu peito
o farfalhar do outono
e o que você fazia
em festejo ao fogo
a ponta dos dedos
ao relento
traquejo singular da labareda
misto de calmaria e lampejo
numa dança descabelada
a língua pronta para o surgimento
da manhã
o espírito de cavalo colorido
no ato de trocar os óculos com você
e te olhar de baixo
o minério que dorme na pele
o desafio que doma o segundo
a ginga que derrete as ondas
cheiro tônico diante do espelho
o rugido e o anúncio
do tropeço no ritual:
um orgasmo estupendo
anestesia contra bombas
de efeito moral



Beijar você

Beijar você
na queda livre da montanha
russa – feito embrião
aprendendo a dar cambalhota.
Bolinhas cítricas explodindo
na língua. Um trote
desafiando a gravidade,
o batom vermelho desejando
pular da minha boca pra sua.
Nosso toque parece,
a olho nu,
Uma boiada pisoteando
uma teia de flores
Um filhote de orca separado
da família.
Mais de perto, a mão que passeia
é a mesma que dança
Nossos ombros unidos
fazem brotar orquídeas ou margaridas.
O que há de mais bonito é
A espessura do seu batimento cardíaco
A cor que meu cabelo adquire
de acordo com o raio da sua visão.
Sua pupila dilatada
muito perto da minha pupila dilata.
Seu sorriso diante da minha clavícula,
da ideia de estação,
do pensamento de que tudo,
inclusive o que se esconde na linha do horizonte,
é pura beleza.
Tudo, absolutamente tudo,
Mas no ponto mais alto do pódio
beijar você na queda livre
da montanha russa.

--



Você dormindo
Eu pensando em te contar
sobre a feira perto de casa
onde compramos coco a 1 real
e morangos molhados
vermelhos maravilhosos
Ou que agora consigo
encostar os pés na cabeça
Uma florzinha lilás
se estraçalhando em nado livre
no riacho
E um inegável agito
entre o estômago
a vagina e as covinhas das costas
Um desastre natural
a descoberta de uma nova bomba atômica
o barulho da água
encontrando as pedras
A vontade líquida de mergulhar
com um maiô de poá e pés de pato
no penhasco que é seu pescoço
Um sussurro no escuro
Sobreviventes da guerra que podem chorar
e dar um soco seco no peito
de seus amantes
O menino dando adeus
ao seu cata-vento de papel crepom
debaixo da chuva
E mais um bebê bonito
lambendo o cardápio da pizzaria
Você abrindo os olhos
O céu roxo e laranja lá fora
As nuvens dançando
na parede gelada
Alguns origamis fazendo piruetas
feito poeira
na ponta do meu nariz
E lentamente vou emudecendo
enquanto o sol diz bom dia

XXX




Regina Azevedo é uma poeta brasileira nascida em Natal - RN em 2000. Autora dos livros Das vezes que morri em você, Por isso eu amo em azul intenso e Pirueta, além de alguns fanzines. Mantém o site www.reginazvdo.tumblr.com




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