segunda-feira, 10 de abril de 2017

Uma fuga perfeita é sem volta?

Uma fuga perfeita é sem volta?

Alessandra  Pajolla

         Uma ilha no sul do Brasil que já foi chamada de Desterro e uma gélida capital europeia.  Entre elas, apenas um telefonema anual, uma tênue conexão entre uma família que há muito tempo não tem o que conversar, que já não fala a mesma língua, e que talvez nunca tenha sido de fato uma família, senão pelo sobrenome. Nessas duas geografias tão distintas, Florianópolis e Berlim, encontram-se os personagens do quinto romance de Marcia Tiburi, Uma fuga perfeita é sem volta (2016), lançado pela Record. A obra reúne sujeitos desterritorializados, sobretudo o protagonista: alguém que foge, mas não completa essa fuga. Imobiliza-se no meio do caminho. Falta-lhe a coragem para atravessar aquele ponto em que a fuga é sem volta, portanto perfeita.
Tiburi, que também é filósofa, erige uma trama existencial em que o protagonista percebe, a caminho da velhice, que dedicou a vida a tornar-se o que não se é.  Alusão contrária ao que o filósofo alemão Friedrisch Nietzsche preconizava como sentido do viver : tornar-se o que se é.  Na ilha em que nasceu, o personagem foi desterrado. Seu corpo tornou-se uma ilha gelada e completou em Berlim o grande processo de tornar-se o que não se é. Um estranho para si mesmo e para os outros. Alguém que, frequentemente, é confundido com outras pessoas, seja pela aparência física, pelo gênero ou pela nacionalidade. De tão cindido, ele se sente portador de uma doença: um inadequado, um cidadão sem encaixe, um sem lugar. “Para todos os fins eu sou um homem” é a definição resignada que ele guarda de si mesmo. 
A começar pelo nome, o protagonista é sempre percebido com estranheza, um estrangeiro em qualquer lugar, seja no Brasil ou na Alemanha: Klaus Wolff Sebastião. Filho da mistura que forjou o país, Klaus nasceu com um típico físico que o torna uma indefinição sob o olhar alheio. “Quem é como eu sempre leva a pior, porque não se parece nem como uma coisa nem outra, nem branco, nem negro, nem índio, nem coisa alguma. E, no entanto, não sou indiscernível porque ainda me olham, se se eu não andasse rápido a me esconder por onde passo, certamente teria que me explicar. Se uns pensavam que vim das Filipinas, outros pensam que vim da África”.
         Klaus sempre foi um estrangeiro, mesmo na terra onde nasceu, a ilha catarinense, precisamente na praia do Campeche onde, reza a lenda, Saint-Exupéry teria se hospedado diversas vezes, como ponto estratégico de abastecimento em seus voos pelo continente sul-americano. Assim como o piloto-escritor desaparecera no ar, o protagonista de Uma fuga perfeita é sem volta decide, ainda jovem, sumir. Ele parte sem se despedir do pai ou da irmã, Agnes, na época com 10 anos, com a intenção de chegar até a África, mas acaba fazendo escala definitiva em Berlim. Em vez de uma fuga, o personagem apenas se solidifica num outro país, o pais de origem de seu pai, a mesma Alemanha de Nietzsche.
         A língua falada por Klaus é outro elemento dissonante, que nunca coincide com o idioma daqueles que o cercam, em nenhum dos dois territórios em que viveu. Em Berlim, a mistura de português e alemão soa tão bizarra quanto as demais misturas entre línguas que se ouve pelas ruas, agravada pelo fato de que o “alemão” que ele trouxe na bagagem é o Hunsrückisch, um dialeto pouco usado, exceto no sul do Brasil. Soma-se a essa barreira linguística, uma gagueira, como metáfora da sua incomunicabilidade. Mas o personagem não encara a gagueira como uma falha, ele entende que seu corpo é a gagueira. Tiburi nos apresenta um personagem fragmentado, deslocado, estrangeiro onde quer que esteja, estranhado e preso em seu próprio corpo.
Na espantosa cidade de Berlim, cheia de espaço para se estar só e na igualmente espantosa ilha de Florianópolis, onde a irmã e o pai continuaram a viver, Klaus e a família são dois pontos ligados por um fio telefônico.  Ele não os vê há 40 anos, mas cumpre rigorosamente o ritual de ligar para a família uma vez por ano, ocasião em que as conversas são frias, em que ninguém está de fato interessado no outro. Durante todos esses anos de ausência, nem o pai nem a irmã pediram que ele retornasse ao Brasil. Ninguém sequer lhe telefonou. Foi sempre dele a iniciativa desse manter esse elo precário, esse protocolo mínimo, que atende a um pacto tácito de inércia.  
As 600 páginas que compõe Uma fuga perfeita é sem volta se passam no intervalo de um dia, um dia que começa como um outro qualquer, mas que desencadeará a grande mudança do personagem. Sem nenhum motivo aparente, ele resolve ligar para a irmã, no Brasil, e descobre que o pai morrera há três meses. O pai morto e o tempo em que Agnes lhe sonegara a informação funcionam como um botão que aciona o desejo de completar sua fuga, aquela que começou e estagnou na Alemanha. A perplexidade que veio com a notícia da morte do pai faz a vida inteira pesar sobre o personagem. Ele se enreda em um profundo mergulho interno, que começa em uma carta que pretende enviar para a irmã, mas acaba sendo um grito jorrado e forma de livro.


Muros invisíveis

Na carta-livro ele repassa sua vida. Em Berlim, Klaus trabalha na chapelaria e um museu, uma atividade que o poupa de maiores contatos: deve apenas guardar e devolver os pertences dos visitantes. Ele se refere à chapelaria como guarda-roupa, o que é uma chave de leitura importante para a obra. O personagem, na verdade, vive dentro de um armário, tão escondido quanto lhe é possível.  Na capital alemã, onde ele testemunhou e até guardou restos do muro derrubado, Klaus percebe que há muros invisíveis por todos os lados e que esses são os mais difíceis de derrubar. A voz distante de Agnes ao telefone, faz parte dos escombros, funciona como o lembrete de que um mundo partido em dois nunca poderá se reunir. “Eu sou o imigrante que nunca deixou de ser um exilado e que, no entanto, não tem para onde voltar, nem nostalgia de lugar algum, não tem para onde ir”.
O protagonista nunca conseguiu ser indiferente à família. Talvez por isso, continuou telefonando por todo esse tempo, convertendo a memória familiar em um espólio. Ele herdara do pai o desejo de fugir, mas o compara a uma planta, cujas raízes temem a mudança. Agnes, por sua vez, é a solidez, o contraponto à fuga, coisa que ela entende como fracasso. Apesar de ter deixado o Brasil há 40 anos, ao receber a notícia sobre a morte do pai, Klaus percebe que sempre esteve no meio do caminho. Que não fugira de verdade: “Ninguém imagina o que é fugir de fato. Só a morte nos permite essa façanha. Verdade que eu fui embora, que desapareci, que fui morar em outro país. Mas a fuga é um programa que nunca se completa”.

 Idiorrythmie #1 - "The Touching Community" Aimar Pérez Galí

Idiorritmia

Klaus possui dois amigos, que são mais do que isso, são o seu improvável arranjo familiar afetivo. Irene, uma ex- telefonista, comunista e filósofa e Thomas, o jovem cego que é seu companheiro de trabalho no museu. Juntos, eles formam aquilo o que Roland Barthes (2013) chama de idiorritmia. Ao longo do curso “Como viver junto – simulações romanescas de alguns espaços cotidianos”, no Collège de France, entre 1976 e 1977, Barthes propõe um novo conceito sobre o viver junto: a idiorritmia. Palavra formada a partir do grego ídios (próprio, particular) e rhytmós (ritmo), seria, nas palavras do filósofo francês, uma fantasia de vida livre em companhia de algumas pessoas, onde cada uma viveria o seu próprio ritmo. 
Barthes buscou no vocabulário religioso uma forma de explicar sua ideia de comunidade. Originalmente, o termo idiorritmia designa o modo de vida de certos monges, que são ao mesmo tempo autônomos e integrados, solitários e membros de uma comunidade. Utilizada metaforicamente, a palavra é a chave para Barthes postular uma concepção comunitária baseada na tentativa de conciliar a vida coletiva e individual, a independência de cada indivíduo e a sociabilidade do grupo. O viver junto de Barthes comporta uma ética da distância entre os sujeitos. O importante é manter o páthos de distância (páthos: afeto, do grego), ou seja, uma distância irrigada pela ternura. Esses são os termos da relação entre Klaus, Irene e Thomas e também o contraponto ao paradigma genealógico que cerceia o personagem.


Escrita de si

         No dia em que descobre a morte do pai, Klaus é tomado por um dilema: embarcar para o Brasil ou enviar, pelos Correios, a carta-livro que escreve. Ele conclui que só pode optar por uma dessas alternativas: “Ou eu ou o livro. Ou, ou. A questão está, portanto, entre mim e o livro.  Ou um ou outro. Dois corpos que não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Ou vou eu ou vai o livro”. É pela escrita que emerge do sofrimento que a vida volta a pulsar em Klaus e, com ela, o desejo de completar a sua fuga. Enquanto escreve, ele dissipa o próprio sofrimento e enxerga a possibilidade de libertar-se de sua doença, a metáfora daquilo que o aprisionou dentro de si.
Tal processo, tão potente quanto inevitável, liberado ao escrever a si próprio, permite a Klaus, finalmente, entender o caminho para tornar-se o que se é. Um colar e o brinco de pérolas, tal qual no quadro de holandês Vermmer, materializam para o personagem a rota para a sua fuga. Ao atravessar a porta, com o colar de pérolas no pescoço, dessa vez, a fuga será perfeita e sem volta.



Sobre a escritora

         Quanto mais vezes se lê os romances de Marcia Tiburi, e eu recomendo no mínimo duas vezes, mais as nuances de sua escrita filosófico-poética revelam sentidos outros escondidos entre as metáforas e os temas que lhe são caros.  Nesse ponto, encontro uma aproximação com Clarice Lispector, tantas vezes acusada de hermetismo. Nem uma e nem outra o são. São autoras que penetram no mais íntimo, no indizível, removendo camadas soterradas da psique humana.
Os personagens de Tiburi sempre seguem rastros, vestígios, porque eles próprios constituem-se de restos a reclamar pelos outros fragmentos. A autora conecta os personagens à vida narrada com um vão na história, ligadas a uma temporalidade maior e única, como uma fita prestes a ser cortada. Imagens potentes atravessam suas obras, imprimindo à narrativa o papel de aterrorizar, perturbar, estigmatizar. Loucura, bastardia, morte estão entre os temas que catalisam as mudanças profundas nas personagens.
Em O Manto, publicado em 2009, a personagem central encontra nove fitas cassetes gravadas pela mãe, Berenice, que teria enlouquecido. São trechos de cartas, poesias, verbetes de dicionários, bulas de remédios, fragmentos filosóficos, que a narradora decide transcrever. A voz enigmática da mãe já morta é uma herança que a filha transformará em livro, assim com o Klaus, de Uma fuga perfeita é sem volta (2016) tenta dar a sua memória-sofrimento a materialidade de um livro.
A loucura é um elemento recorrente. Tanto Berenice quanto a mãe de Klaus são definidas como loucas e internadas em sanatórios. Escritora com forte flexão feminista, Tiburi não nos deixa esquecer o destino cruel das mulheres confinadas a uma vida que não escolheram, presas a um corpo de mulher que as impedia de exercer, com liberdade, seus desejos e aptidões.
O armário é outra imagem que ressurge. Assim como Berenice gravou as fitas escondida dentro um armário, Klaus também vive dentro do seu armário simbólico, que alude tanto ao trabalho na chapelaria do museu alemão, quahto à simbologia de uma vida que se esconde dos outros e de si.
Em suas obras, o sentimento de orfandade e bastardia é bastante presente, como é próprio dos romances que tematizam a filiação na contemporaneidade. Em Era meu esse rosto, romance publicado em 2012, o protagonista é filho ilegítimo de um pai que é apenas uma sobra, sendo resgatado pelo avô da condição miserável em que vivia. Um sentimento de falta, de incompletude, muito próximo ao do protagonista de Uma fuga perfeita é sem volta, que apesar de ter tido pais, sempre se sentiu órfão.
Buscar e fugir são dois movimentos opostos e complementares nos deslocamentos empreendidos pelos personagens, ressaltando a ambivalência que marca a prosa de Tiburi. Talvez a fuga seja o grande tema de suas obras, com todos os seus atalhos incompletos, loucura e armários, um desejo que o protagonista de Era meu esse rosto define como: “nada melhor para fugir do que buscar, assim como não há jeito melhor para buscar do que conhecer a própria fuga”. Ao tomar conhecimento sobre sua verdadeira fuga, Klaus abre a porta, toma seu rumo: “tenho tempo, não estou assim tão atrasado”.

xxx



Alessandra  Pajolla é doutoranda em Estudos Literários na Universidade Estadual de Maringá. Defenderá no dia 11 de Abril de 2017 sua tese de doutorado, intitulada Bastardia, Orfandade e Genealogias truncads (O romance de filiação e a(re) encenação das origens  na literatura brasileira contemporânea), sob a direção da Profa. Dra. Lucia Osana Zolin. Consulte abaixo o resumo da tese de Alessandra Pajolla.

Resumo da tese :
A desilusão com os projetos coletivos e ideologias, a crise do sujeito, as identidades fragmentadas na pós-modernidade são parte de um contexto que favorece as chamadas “narrativas do eu” no campo literário atual. A reconstituição das origens configura uma temática presente em diversas obras: o retorno ao passado despido de nostalgia, marcado pela tentativa de explicar por meio das origens (reais e imaginárias) as lacunas identitárias. Esta seria a gênese do romance de filiação, dinâmica narrativa que integra essa tendência e interroga a ascendência como um mecanismo de resolver enigmas do presente. Trata-se de um formato recorrente na literatura francesa a partir dos anos 1980 e que vem se expandindo também no Brasil, guardadas as especificidades de cada contexto cultural. As obras A chave de casa (2007), de Tatiana Salem Levy, Azul-corvo (2010), de Adriana Lisboa, e Era meu esse rosto (2012), de Marcia Tiburi, elencadas no corpus da presente tese, tematizam a filiação a partir de indagações contemporâneas e de questionamentos que desconstroem o paradigma genealógico sobre os quais se assentam as construções identitárias. Entram em cena narradores que escavam as origens em busca de uma espécie de herança recebida sem testamento, sujeitos que se sentem afetados por circunstâncias ligadas à genealogia e a partir daí empreendem deslocamentos geográficos e temporais em busca de autoconhecimento e, sobretudo, pertencimento. 

Marcia Tiburi, Rodrigo Ciriaco, Leonardo Tonus e Rui Zink

Ouçam o encontro com Marcia Tiburi, Rodrigo Ciriaco e Rui Zink realizado na Fondation Calouste Gulbenkian durante as atividades do Printemps Littéraire Brésilien 2017. Cliquem no link: Rencontre luso-brésilienne 


  

Nenhum comentário:

Postar um comentário