segunda-feira, 24 de abril de 2017

Toca tambor...toca




Toca tambor...toca

Isabete Fagundes Almeida


LANCEIROS NEGROS

Ao longe já podíamos ver a grande multidão de faces preta
Lanças longas e olhar firme de guerreiros
Podíamos sentir a energia daqueles combatentes
Que entraram em uma guerra com os verdadeiros ideais
“A conquista da liberdade”
Lutando ao lado dos Farroupilhas
Foram colocados como buchas de canhão
...........Habilidosos guerreiros
Mantiveram-se implacáveis até aquele fatídico dia
- No conflito poupe o sangue brasileiro,
Particularmente da gente branca...
E assim aconteceu na noite de 14 de novembro
“O Massacre de Porongos”
A história nos ensinou a reverenciar outros heróis
Mas na resistência e informações
Vamos construindo a verdadeira versão
Temos no piquete Lanceiros Negros
A patroa Araci e o patrão Centeno
e outras centenas de pessoas fazendo essa conscientização
da marcha a chama que clama o reconhecimento e reparação



OBSTÁCULOS

Sou negra...
Sou mulher...
Sou guerreira...
Pele suada... surrada
Que não desiste...
Insiste em assumir sua negritude.
Que ama, mas não é só prazer
É muito mais... é determinação!
Esta alma guerreira
De Dandaras, Anastácias e N’zingas
Que me habitam em mim
Inquieta-me
Explora meu corpo... aflora...
E a cada curva bem ou mal delineada
Vai superando obstáculos...
Nessa Guerra
Contra todas as formas de violência.
Sou negra...  Guerreira
Sou mulher...
Sou ancestralidade!
Tenho uma história de sacrifício, vitórias e superação
 Exijo respeito!


CAROLINA GUERREIRA

Nasceu de pele preta, pobre, favelada
Nasceu como muitos...
Fazendo parte dessa escravidão moderna
“A fome”

Nasceu, negra, mulher, guerreira
Não se acomodou diante de tanta miséria
 E fez de seu dia a dia uma batalha de sobrevivência

Nasceu para viver em uma sociedade desigual... cruel.

Nasceu para ser ignorada
Sem oportunidades de ascensão social

E são tantas que nascem “Carolinas”
Algumas são de Jesus
E outras tantas “nem tanto”

São as Carolinas, Marias Guerreiras
Que com a persistência e a garra
Do nosso “povo negro” vão vivendo
Sobrevivendo... morrendo.
Em eternos “quartos de despejo”



SOMOS TODOS GUERREIROS !

É na roda ... é no circulo...mantendo a tradição,
Que estamos reunidos fazendo a transformação.
Somos todos descendentes da força e luta dos Háussais,
Zumbi, Luiza Mahin e tantos outros.

Somos aqueles que cantam, que dançam, que escrevem, que declamam..mas que também, brigam, questionam, vão as ruas.

Somos  todos “Oliveira Silveira” numa busca contínua de maior conscientização.

As lutas de nossos antepassados não foram em vão
Nós de alguma forma continuamos fazendo as insurreições,
na conquista de um ( ayê )  mais igualitário

Toca tambor... toca
Toca no fundo do coração
Faz emergir essa força
Empodera essa nação

Que os Orixás nos acompanhe....
 e  Oxalá nos ilumine
Asé,  paz,  Asé!


Xxx



Isabete Fagundes Almeida, Gaúcha de Porto Alegre, formada em pedagogia pela PUCRS e pós graduada em Neuropsicopedagogia, coordenadora do grupo Haja Luz – Acervo Cultural Afrodescendente e poeta, participante do Sopapo Poético Ponto Negro de Poesia com poemas publicados no livro Pretassência.



2 comentários:

  1. Quem te conhece, sabe o quanto tua poesia reflete a luta pela igualdade social. Que os orixás te permitam dizer essas belas letras em nome da igualdade por muitos anos e por todos os cantos do mundo. Parabéns!

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  2. E como afrodescentente fico feliz em ler estas lindas poesias. Meus antepassados ficaram silenciosos, mas ao longo do tempo nossos gritos estão sendo ouvidos, através de várias manifestações como as lindas poesias desta admirável amiga, Isabete Fagundes Almeida, pessoa que nunca desiste de seu propósito e enfrenta oobstáculos que surgem em seu caminho, tudo para que nossa voz não se cale diante das diferenças raciais e também dizer que nunca estamos só. Com isso trazendo a tona a sabedoria e as informações que estiveram escondidas durante anos sobre a condição negra e sua importância cultural para uma sociedade mais igualitária e justa. Parabéns. Como é válido é bom ter inspiração como você.

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