sexta-feira, 21 de abril de 2017

Pixaim elétrico


Pixaim elétrico
                                                                          Cristiane Sobral


Petardo

Escrevi aquela estória escura sim
Soltei o meu grito crioulo sem medo
Pra você saber
Faço questão de ser negra nesta cidade descolorida
Doa a quem doer
Faço questão de empinar o meu cabelo cheio de poder
Encresparei sempre em meio a esta noite embriagada de trejeitos brancos e fúteis
Escrevi aquele conto negro bem sóbria
Pra você perceber de uma vez por todas
Que entre a minha pele e o papel que embrulha os seus cadernos
Não há comparação parda cabível
Há um oceano
O mesmo mar cemitério que abriga os meus antepassados assassinados
Por esta mesma escravidão que ainda nos oprime
Escrevi
Escrevo
Escreverei
Com letras garrafais
Vermelho vivo
Pra você lembrar que jorrou muito sangue.





Sonho de consumo

Se você me quiser vai ser com o cabelo trançado
Resposta na ponta da língua
Teste de HIV na mão
Se você me quiser desligue a televisão
Leia filosofia e decore o Kama-Sutra
Muito bem!

Se você me quiser esteja em casa,
Retorne as ligações, e traga flores
Não venha com teorias sobre ereção
Ou centímetros a mais

Nem sempre vou querer sexo
Nem sempre vou dizer tudo, ou acender a luz
Posso usar ternos ou aventais
Qual a diferença?
As noites serão sempre intensas à luz de velas

Se você realmente me quiser,
Ouse digerir a contradição
Ajude-me a ser uma mulher,
Diante de um homem

Quem disse que seria fácil?


Não vou mais lavar os pratos

Não vou mais lavar os pratos
Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito
Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal

Sinto muito
Depois de ler percebi a estética dos pratos
A estética dos traços, a ética, a estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros
Mãos bem mais macias que antes
Sinto que posso começar a ser a todo instante
Sinto qualquer coisa

Não vou mais lavar
Nem levar
Seus tapetes para lavar a seco
Tenho os olhos rasos d’água
Agora que comecei a ler quero entender
O porquê, por quê? E o por que

Existem coisas
Eu li, e li, e li
Eu até sorri
E deixei o feijão queimar...
Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto
Considere que os tempos agora são outros

Ah, esqueci de dizer
Não vou mais
Resolvi ficar um tempo comigo
Resolvi ler sobre o que se passa conosco
Você nem me espere
 Você nem me chame
 Não vou

De tudo o que jamais li
De tudo o que jamais entendi
Você foi o que passou
Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto
Desalfabetizou
Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira
Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá
Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis
Não tocarei no álcool
Depois de tantos anos alfabetizada, aprendi a ler
Depois de tanto tempo juntos, aprendi a separar

Meu tênis do seu sapato
Minha gaveta das suas gravatas
Meu perfume do seu cheiro
Minha tela da sua moldura
Sendo assim, não lavo mais nada, e olho a sujeira
No fundo do copo

Sempre chega o momento
De sacudir, de investir, de traduzir
Não lavo mais pratos
Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo
Em letras tamanho 18
Espaço duplo
Aboli

Não lavo mais os pratos
Quero travessas de prata
Cozinhas de luxo
E jóias de ouro
Legítimas
Está decretada a lei áurea.



Pixaim elétrico

Naquele dia
Meu pixaim elétrico gritava alto
Provocava sem alisar ninguém.
Meu cabelo estava cheio de si

Naquele dia
Preparei a carapinha para enfrentar
a monotonia da paisagem da estrada
Soltei os grampos e segui
de cara pro vento, bem desaforada...
Sem esconder volumes nem negar raízes.

Pura filosofia
Meu cabelo escuro, crespo, alto e grave...
Quase um caso de polícia
Em meio à pasmaceira da cidade
Incomodou identidades e pariu novas cabeças

Abaixo a demagogia
Soltei as amarras e recusei qualquer relaxante
Assumi as minhas raízes
Ainda que brincasse com alguns matizes
Confrontando o meu pixaim elétrico
 Com as cores pálidas do dia.
Pixaim, elétrico!




Flor

Tenho uma cicatriz incandescente de dor
Mas é só por dentro
Por fora desenhei uma flor



A mão e a luva

Eu hoje comi um poema com pão
Seco
Ontem não fiz nenhuma refeição
Amanhã talvez uma sopa de letrinhas
Há dias que não brota poema algum
Acordo e mantenho o jejum
Até que anoiteça
Mas as palavras um dia brotam
Como água dos rios
Como chuva
Há poemas que caem
Há poemas que cabem
Como uma luva
E alimentam a alma.



Retina negra

Sou preta fujona
Recuso diariamente o espelho
Que tenta me massacrar por dentro
Que tenta me iludir com mentiras brancas
Que tenta me descolorir com os seus feixes de luz

Sou preta fujona
Preparada para enfrentar o sistema
Empino o black sem problema
Invado a cena

Sou preta fujona
Defendo um escurecimento necessário
Tiro qualquer racista do armário
Enfio o pé na porta da casa grande
E entro.




Sustento

Quero uma poesia pão
Muito além da refeição
Como alimento da alma

Quero uma poesia carne
Que fatie problemas no cerne
E cale o grito dos que tem fome.

Brisa

É preciso resgatar
Das mulheres a delicadeza
A flor mais preciosa
E perfumada
Transformar em suave canto
O grito grudado na garganta
O anseio inesperado
A fúria desmedida
Nas águas repousar o corpo
E entregar os caminhos.


Voo livre

Mulher é bicho esquisito e poderoso
Faz o que dá na telha desde a criação
Ninguém segura mulher não.


Xxx




Cristiane Sobral é carioca e vive em Brasília desde 1990. Escritora, atriz e professora de teatro.  Mestre em Teatro pela Universidade de Brasília, com pesquisa sobre a estética nos teatros negros brasileiros. Dirigiu a Cia de Arte Negra Cabeça Feita, (Teatro) por 15 anos. Imortal cadeira 34 da Academia de Letras do Brasil. Diretora de literatura afro-brasileira no Sindicato dos Escritores.

Publicações:
O tapete voador, contos, ed. Malê, 1ª Ed, RJ, 2016;
Não vou mais lavar os pratos,  poesia, 3ª ed. revisada e ampliada, ed. Garcia, SP, 2016;
Só por hoje vou deixar meu cabelo em paz, poesia, 1ª Ed, ed. Teixeira, DF, 2014;
Espelhos, Miradouros, Dialéticas da Percepção, contos, Ed. Dulcina, 1ª Ed , DF, 2011.
Publica em prosa e poesia desde 2000 na antologia Cadernos Negros, Ed. Quilombhoje (SP), já publicou nos volumes 23-25, 29, 30, 32-38.




3 comentários:

  1. Emocionada com seus poemas! Lindos!

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  2. Que mulher formidável!Poeta e professora de teatro em Brasília.Muito brio,muito talento.

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