domingo, 30 de abril de 2017

Marias


Marias

Lilian Rose Marques da Rocha



NEGRA
Negra
Palavra
Bendita
Que saiu
De tua boca
Como insulto
E que transcende
Em minha dança
Em minha história
Em minhas crenças
Em minha luta
Em minha vitória
Que corporifica
Em meu sorriso
De perplexidade
Da tua pobre
Medíocre ignorância!





LEMBRANÇAS
Lembranças
Roucas
De tua fala
Cansada...
Quantas vezes
Gritei
O teu nome
Cheguei
Até a sussurrar
Porém,
Viraste-me às costas
E saíste a caminhar.
Eu... também
Busquei outros caminhos
Com sutileza e precisão
Descobri outros afetos
O percurso da paixão.
Não grito mais
Nem tão pouco sussurro
Somente sinto
O Ritmo da voz pulsante
Do meu Eu
Que um dia
Já foi ao encontro
Do Teu!




CRIAÇÃO
Vibrei ao ver-te
Tão apaixonado
Pelas letras
Mal traçadas
Trêmulas
Em teu caderno
Amarelado e amassado
De tantas rasuras
E tentativas
No mundo mágico
Do abecedário.
Sorrias...
Aproximei-me
E vi o motivo
De tanta alegria:
A tua primeira redação
E no final
Em letras garrafais
A vitória justa
Registrada na história
Ontem, vulgo analfabeto
Sem registro, sem memória
Hoje, João da Silva,
Cidadão, sujeito
De sua própria criação.



MARIAS
Mulher
Um grito
Um gemido
Um aceno
Pulsante de Vida.
Um empurrão
Um olho roxo
Uma foto
No obituário
Do dia seguinte.
São Marias da Penha
Agoniadas
Pois a Justiça
Não chega!
O tempo
É escasso
E a foice da morte
É escondida
Embaixo da cama
De sua casa. 


  
DESPREZO
Respiro
Silencio
E engulo
O soco no estômago
Da frase maldita
Que gritaste
Ao meu ouvido
Porém a dor é tanta
Que vomito
Com rancor
Tudo aquilo
Que foi dito
E sorrio
Com desprezo
Pois o teu olhar
De espanto
É o meu prêmio favorito.


  

PIXAIM
Quem tem medo
Do meu cabelo pixaim?
Ele não espeta
Não tem mau cheiro
Simplesmente
Eleva-se ao céu
Feito seta
Tem direção certa
Símbolo da minha negritude.
Quem tem medo
Do meu cabelo pixaim?
Assim, assim
Também deve ter medo
Do meu falar alto,
Do suingue do meu corpo,
Da minha ancestralidade.
Quem tem medo
Do meu cabelo pixaim?
Não fique assim...
Sou eu que carrego a minha coroa
Cor de Ébano... sim
E não me venha ditar regras
De boa apresentação
O meu cabelo
É a minha libertação.





SOFRIMENTO
O que é Sofrimento?
Bombas, fome, sede
Violência, indiferença
Portas abertas
Ao desamor, ao egoísmo
Ao estranhamento de comportamentos
Desiguais, culturalizados
Em uma Terra globalizada
Pelo medo
E pela angústia da culpa
E distanciamento
Onde o ser
Mais próximo
É um chip.

  



CAPITÃO DO MATO
Capitão do mato
Por que matas
A tua consciência?
Com a matança
Dos teus
Eu só te pergunto
Afinal... quem morreu?
Reza a lenda
Que foi o teu EU!
  


XXX



Lilian Rose Marques da Rocha é natural de Porto Alegre- RS, Farmacêutica e Analista Clínica (UFRGS), Especialista em Homeopatia (ABH), Musicista (Liceu Palestrina), Poetisa, Facilitadora Didata de Biodanza (IBF). É autora dos livros A Vida Pulsa- Poesias e Reflexões, Editora Alternativa, 2013 e de Negra Soul, Editora Alternativa, 2016. Coorganizadora da Antologia Pretessência, Editora Libretos, 2016. Participante de inúmeras antologias poéticas brasileiras e portuguesas. Há 18 anos utiliza a Poesia como ferramenta em processos de Arte- Identidade em seus trabalhos de Ação Social, Biodanza e Educação Biocêntrica, com os mais variados grupos sociais pelo Brasil, América do Sul e Europa, reforçando a identidade e a capacidade de expressão do ser humano. Em 2012, começou a frequentar o Sarau Sopapo Poético e atualmente faz parte do Coletivo Sopapeiros. Seus poemas são publicados em vários sites, blogs, revistas e redes sociais. E-mail: lilian24@terra.com.br




4 comentários:

  1. Grata pela publicação, aqui estamos escrevendo as vivências do pulsar da Vida!

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  2. Lilian Rocha você nos representa. Parabéns!

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  3. Belo trabalho. Muito orgulhosa de te conhecer.

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  4. Belo trabalho. Muito orgulhosa de te conhecer.

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