quinta-feira, 27 de abril de 2017

Lições de casa




Lições de casa

por Maria Nilda de Carvalho Mota ( Dinha) 
  



Três lições de casa

Lição primeira: como nomear seu bebê

Era o primeiro neto
Destinado a ser mais velho
De uma linhagem de uns trinta.
A mãe resolvera chamá-lo
Aristides Ricardo
Nome imponente de filósofo
E rei – unidos numa nova
Personalidade.
Era o ano de mil
Novecentos e noventa e dois
Explodia nas rádios uma música
De uma alegria patética:
“Biluzinho tetéia”.
E o menino era tao gutiguti ti fofula nenê gluglu
Que o imponente Aristides
Ficou apenas

Bilu.

Lição segunda: como lidar com o fim do mundo 


Era o ano de mil
novecentos e noventa e nove.

Pairava no ar uma angústia
dizia-se que o mundo

ia se acabar.
No ano seguinte o menino

começaria a ir  à escola.
Que ele queria ser padre.

Só que, de vez em quando,
se via nele uns gestos

de inquietação profunda:
Era um engolir em seco

um pescoço que se retorcia duro
as pernas que se balançavam muito.

Angústia menina e calada.
Que foi, Bilu? Não quero

Ir para a escola.
Mas a escola é legal

você vai aprender muita coisa
e pérolas e diamantes

os segredos mais profundos
saíam da minha boca

viajavam sete mares
dormiam em tantos castelos

planetas e povos distantes
mas não entravam em suas orelhas.

E aquela carga rara
esse mundo que se abria

mais pesava nos seus ombros.
Aristides resistia.

Contei sobre o mundo todo
que se escondia embaixo

das letras no subterrâneo
das confusas linhas dos livros.

Falei-lhe de amigos novos
e das chaves que estariam

à sua disposição na vida.
Ele olhou bem nos meus olhos

eu via
a angústia – sapo gordo

dançando na sua língua.
O menino engoliu com cuidado

antes de gritar aos prantos
a sua sentença única:

Mas eu não sei LEEEEEEEEEER!!!!!

Eu ri.
Mas chorei junto.


Lição terceira: como ressuscitar seus meninos 


Era o ano de dois mil
e seis.
Aristides Ricardo Bilu

Não virara padre.
Aristides Ricardo
não virara filósofo.

Aristides Ricardo ganhara
uma certidão de óbito
com seu nome impresso em caixa alta.

Um dia, me contara com tristeza
que "o tempo passa devagar na escola"
e isso lhe destruía

e o ABC que aprendera. Aprendera
com a vida. Lição de morte,
com a polícia. Pássaro que voa

de noite e de dia.
Aristides Ricardo Bilu
Virou símbolo na família

do garoto que queríamos
e nenhum de nós podia
Ajudar.

Aristides Ricardo Bilu
de filósofo rei gutiguti
virou símbolo da luta

que ainda temos por fazer
pra tornar nossas escolas
espaços de vida, não morte

espaços de encanto
não cortes
onde o sonho, não a sorte

prolonguem as vidas
e perpetuem as memórias
dos nossos.


Ode ao Zé Povo

(Cantiga de zéporvinhar)

Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão.
Zé Povo, Zé Polvo, Zé Porvim, Zé Polvim, Zé Povim, Zé Porvinhar:

Ze Porvim ninguém te gosta.
Ninguém vai teadorar.
Mesmo assim é verbo novo:
zé porvim ↔ zéporvinhar.

Eu zéporvinho
Tu zéporvinha

Ele zéporvinha
Nós zéporvinhamo
Vois zéporvinhais
Eles zeporvinha


E são muitos os nomes
sentido
é um só
Zé povo que nasce
a qualquer hora
em qualquer lugar.


Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão
danado, sarnento,
se espalha no vento e
brota do chão.

É verbo agora
ação nomeada
conjugada
esperada
rimada
(bem pobre
- zé povo do rico
é repórter)

Zé Povo do povo
não recebe ordens
faz conta de tudo
só pelo gostinho
de zéporvinhar.

Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão.

Tem pouco problema o Zé Povo do povo
- seu problema é o dos outros.
"Comunitária inspiração".

Zé Povo nos cuida
Zé Povo protege
se vem a polícia
Zé Povo percebe
e fica de olho
atento à novela
(Terror na Esquina
de farda e revólver)

Zé povo e seus olhos de câmeras digitais
Zé povo sem fio, internet a milhão
Zé povo e o ouvido microfone fantástico
Zé povo e a boca amplificadora de voz
Zé povo e a tomada ligada pra sempre
Zé povo lan house
ambulante
telecentro da paz
observa e inventaria
griot sem amparo
homem-otário
mulheres sem rádio
como nós,
todos nós.

XXX




Maria Nilda de Carvalho Mota, Dinha, é poeta, autora dos livros De passagem mas não a passeio (2006/2008), Onde escondemos o ouro (2013/2017) e Zero a zero: Quinze poemas contra o genocídio da população negra.

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