segunda-feira, 13 de março de 2017

Vidas minúsculas

                               
                             
                              Vidas minúsculas

Franklin Carvalho


Elemento ar

Soltava de vez em quando um suspiro que a desmontava, como se expulsasse do peito um anjo gordo:
- Ahhhhh (não havia pontuação ao final, não havia final, apenas o imaginávamos, mas o suspiro a aliviava, alma descarnada partindo num sopro, para sempre!)
E o desafogo, assim à vontade, não constrangia aquela dona, que sequer sentia ter bafejado. Continuava a conversa e coçava o quadril com as unhas grandes, ou com estas mesmas unhas partia os cabelos ralos e longos, expondo o couro da cabeça, quase azul de tão branco.
Em pé junto ao fogão praguejava contra a vida - essa roupa justíssima -, perdendo a vista entre os frascos de tempero. Quando coava o café, tragava-lhe o primeiro copo sob as auréolas da fumaça de um cigarro.
Depois que ela morreu, foi na minha cozinha e não na sua que a vi, no vidro de azeite quase cintilante, no frasco de pimenta que mesmo ardida mofa, e na prateleira repleta de rótulos vencidos. Chorei sobre a pia de pratos, lembrando de quando cozinhávamos, do óleo daqueles anos cheios de amigos. Chorei? Nem senti. Suspirei? Não vi. Não era eu, não estava ali.



O sono da razão

Ismael às vezes dorme. Aguenta um dia ou outro sem beber, sustentado por uma réstia de fé que atravessa a sua visão, e vara as longas horas das noites sóbrias como um santo faz penitência.
Nem planeja essas raras abstinências, mas as julga necessárias e bastantes, nas vésperas de visitar a mãe ou de tirar documento, ou de encontrar com médico. Simplesmente deita calado e adormece por um tempo o corpo de cinquentão gordo, inchado pela bebida de prática ordinária.
Ele tem seus pudores: no geral do cotidiano, disfarça a contumácia alcóolica que o devora e talha seus recursos. Trabalha duro numa loja escura, é amável com os vizinhos e jamais aparece nos bares do centro da cidade, onde mora. Compra longe as suas garrafas, e as leva escondidas para casa, metidas em sacos de cereais.
Mas mais estranho que Ismael são suas noites lúcidas que demoram a passar.
Em uma hora tardia, quando o último vagabundo do bairro desiste de proveito, e os ladrões se aquietam e as putas roncam sobre seus amantes verdadeiros, os que não têm dinheiro e dormem suados, e os padres do mosteiro ainda não acordaram para as laudes, e os porteiros de edifícios cochilam com o chiado de rádios roucos, nessa hora Ismael desperta insone.
Ele vem de sonhos confusos, os olhos miúdos esmagados pela imensidão escura que é o quarto, e está desarmado, nenhuma bebida. É uma vigília, um tributo.
Cheio de medos, senta-se na cama e espera pela volta de sua alma, que ainda vaga entre os ratos, na lama das tortas e imundas ruas do centro, do seu sonho, do centro, do seu sonho.
Além de ouvir nossas vozes, que nele falamos e o confundimos. Não dorme mais.

Ruídos

Tia Anita,  nós a sós no sofá em seu apartamento, explica que os ruídos no teto, as moedas que quicam, os passos no andar de cima e o som de móveis arrastados não são coisas dos vizinhos, mas tentações do além, a nos seguir aonde formos.
Mudamos de posição e lá no alto sentimos cair um peso – dito e feito!, na parte onde paramos. Fomos ao meio da sala, e logo algo estalou sobre o lustre. Cada qual tomou outro posto, pois, e o inimigo em dois se rendeu.
-Outro dia subi e falei com o casal do quinto andar. Ela  é  professora, é fina pele de pêssego,  dorme cedo, não ouve nada. O marido é argentino, músico e cozinheiro, vadia à noite, e o dia inteiro não aparece. Só agrada a moça se ela ameaça ir embora. Mas o pandemônio no prédio é o que pesa de vidas passadas. Ou futuras, eu não sei.
Olhei as rugas precoces da minha tia, cinquentona e solitária, amante do silêncio, a TV desligada. Após uma pausa, mirou o teto como se céu fosse:
- O além cabe aqui dentro, menino, se escora nestas paredes, venta as cortinas, sacode as esquadrias. O além só não me varre a casa. Mas de tudo faz um pouco, e muito bem.



Valores

Não conheço ninguém na Vila do Canto da Ema. No entanto, quando passei a pé, cruzando o chão seco de suas ruas sem sombras, uma velhinha miudíssima, acocorada ao longe, gritou:
- Oi…. Já casou?
- Nããããããõooo…. - Respondi, aceitando uma amizade eterna, que terá só esse histórico de conversa.
Continuei fugindo do calor do meio-dia, e não disse à velha como fui parar ali.
Viajava de ônibus para a cidade vizinha mas perdi o dinheiro.  Sem passagem, sem condição, sem condução, desci no meio do caminho. Já casou? Não, por isso viajo sozinho. Que lugar é esse, meu Deus, de rio de lama rachada, de asfalto torrado e duro, de gente que espia da janela o fulano perdido? Falei com os nativos da vila e contei a minha história, e aceitei uma cédula emprestada, e prometi voltar para devolvê-la. 
Então parou um carro repleto de estranhos e o motorista, simpático, se disse meu parente remoto e falou de convívio antigo.
- Sim, sou eu – Associei-me.
Após deixar na Ema o dinheiro que me confiaram, parti daquela terra árida. Voltei para casa ouvindo os hinos religiosos que o povo do carro entoava, com a sensação de tarde perdida, passada num lugar perdido, de uma hora em que Deus me viu despido, transpassado. Deus na glória, no céu, e eu com a boa vontade dos homens.

Carreira e prestígio

Vestia a mesma condição da infância: a pobreza, velha chaga, apesar de ter juntado algum dinheiro. Trajava-se mal e mal, com roupas tronchas como tiras repuxadas no dorso e nos quadris, e não gastava um tostão nos minuciosos e dolorosos tratamentos que quando não curam o corpo, a pele e o cabelo, ao menos lhes adiciona o brilho sedoso da seiva do papel moeda. Advogada sim, esforçada, mas no que cuidava de estética tinha mínima autoestima.
Era antes de tudo econômica. Comia neste restaurante e onde fosse mais barato, e achando os fartos pratos feitos dilatava a fita da cintura. Comprava revistas femininas mas não sabia virar as mulheres da capa, quase as mesmas mês a mês. Desavisada, dava-se aos refrigerantes gasosos achando neles seu maior gozo diário.
Não tinha amigos nem namorados, e o que é pior, nem colegas nem parceiros nos jogos sociais que satisfazem os interesses da advocacia. Falava apenas com as garçonetes que, honestas, tratam mal todos os clientes.
E por que me lembro tanto daquela dona que vinha aqui, nessa pocilga onde avio o jogo do bicho para o pessoal do Tribunal de Justiça? Só porque ela me dava seu jornal já lido, todos os dias, para eu passar a vista depois do almoço? Porque comigo uma vez, numa tarde de céu de chumbo, nós presos na chuva, me contou das bonecas quebradas e riscadas e imundas do seu tempo de menina?
Porque estou com saudades ou ciúmes da gorda que – soube agora mesmo – sumiu por ter se casado? Não, não é isso, e faz apenas duas semanas que ela não aparece. Mas me preocupo e indago se o seu marido (um pé-rapado da Xerox do Fórum) saberá amá-la e respeitá-la.
Aqueles olhos melancólicos se escondiam nas bochechas cheias de feijão. Aqueles olhos mudos e tristonhos se afogavam no mar de cabelos desgrenhados, que quase gritavam quando ela mastigava. Comer era a sua forma mais dolorosa de chorar.



Xxx




Franklin Carvalho é jornalista, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho e assessor de imprensa do Tribunal do Regional do Trabalho. O baiano é autor de dos livros de contos independentes “Câmara e Cadeia” (2004) e “O Encourado” (2009). Em 2015, recebeu o 2º lugar no Prêmio de Jornalismo Barbosa Lima Sobrinho - Direitos Humanos, da Seção Bahia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-BA), na categoria Webjornalismo. Em 2016, o seu romance Céus e Terra venceu o Prêmio Nacional de Literatura do Serviço Social do Comércio (Sesc), o mais importante do Brasil para autores inéditos na categoria. Franklin Carvalho participará da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien em Paris. 


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