sábado, 11 de março de 2017

Como aprender a amar

Como aprender a amar
Simone Paulino

“Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar.”
Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres


Amar, eis uns dos verbos mais difíceis de conjugar. Pois em geral confundimos amor com desejo, amor com necessidade, amor com segurança, amor com egoísmo, amor com medo.

Existe amor em Clarice. Mas na gramática clariceana, assim como a felicidade fácil não aparece, muito pouco ou quase nada encontraremos de amor romântico açucarado. O amor em Clarice é sempre algo mais latente e complexo. Um amor quase sempre conseguido a duras penas.

No livro Água viva, a personagem diz: “Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor”, admitindo para si mesma a sua falta de desenvoltura e sua necessidade de aprender a amar, de se iniciar na arte dos amores difíceis, conduzida pela mão de alguém mais apto, exatamente como Clarice parece querer nos conduzir.

Quando desisti de estudar Clarice na universidade, tive que escolher outro autor, como acontece com quem abandona o amor verdadeiro contra sua própria vontade e precisa aprender a amar uma outra pessoa que a vida coloca no seu caminho.

Na impossibilidade de estudar Clarice Lispector, estudei João Antônio. Um grande, mas pouco conhecido escritor brasileiro, que já foi chamado de “poeta dos escombros”, por ter retratado como ninguém as dores das camadas pobres da sociedade brasileira.

Durante parte da pesquisa realizada no acervo do autor, que está na Universidade Estadual Paulista (UNESP), na cidade de Assis, interior de São Paulo, encontrei entre os livros que pertenceram a João Antônio, um livro de Clarice, autografado. Nele estava escrito: “João Antônio, este livro é para aprender a amar. Você já sabe. Da sua, Clarice”.

Foi um momento de forte emoção encontrar aquelas palavras de Clarice para João. Um espanto ver ali unidos dois autores que me ensinaram tanto da vida. João Antonio me mostrando o que é viver ao rés do chão, e Clarice me mostrando a que alturas é possível chegar.

O fato é que, desde a descoberta do livro autografado, o romance, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, ganhou um significado muito maior para mim, em especial pela fala cristalina de Clarice ao classificá-lo como um livro “para aprender a amar”.

Clarice, sem meias palavras, explicitava ali a “intenção didática”, digamos assim, que havia por trás das suas palavras. E eu, como boa aluna que sempre fui, me coloquei na postura de quem desejava ardentemente ler para aprender.

Mas a verdade é que uma parte de mim não queria amar. Acreditei, desde muito cedo, que entre amar e ser amada, a melhor escolha era ser amada. Havia uma intuição muito fina de que amar era sinônimo de sofrer. Então, o mais inteligente, me parecia, era não amar. Como Lóri, a personagem do livro, talvez eu achasse até então que “eu te amo” fosse “uma farpa que não se podia tirar com um pinça”, que amar fosse “a farpa na parte coração dos pés”. Amar, uma dor. Então preferi não.

, até que amei.

No livro Uma aprendizagem, Ulisses ensina Lóri a amar, dizendo entre outras coisas: “Eu já poderia ter você com meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar”.

Eu, de minha parte, não sei se me faltava corpo ou alma para amar. Talvez, tudo já estivesse ali, pronto, à espera. Do quê? “O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão”. É o que diz Clarice (ou a personagem G.H.), já dona de algum entendimento, já de “alma formada”.

Talvez o amor já estivesse ali, faltava eu.

Mais tarde, em algum lugar, escrevi que o amor é quase sempre um erro de interpretação. E foi um espanto, quando, mais tarde ainda, li outra frase reveladora de Clarice: “Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente”.

Assim como passei a amar Clarice quando deixei de lado a pretensão de entendê-la, acho que só pude amar quando desisti de entender racionalmente o amor, quando abandonei os cálculos e aceitei o mistério e o risco.

Sim, porque amar é um risco. Em pleno dia, também se ama. E o amor pode sim estar ali na esquina, à espreita, à espera. Como saber? Acreditando que “é só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber” e que “por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece”.

Xxx



Simone Paulino é  jornalista, escritora e editora. Com mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP – Universidade de São Paulo, escreveu vários livros. Entre eles, o infantil O sonho secreto de Alice, o livro de contos Abraços Negados, e o gift book Minha Mãe, Meu Mundo, com mais de 400 mil exemplares vendidos. Participou das antologias Grafias Urbanas, Histórias Femininas, Olhar Paris e Escrever Berlim.  Desde 2015, colabora na realização da Primavera Literária Brasileira, promovida pelo Departamento de Estudos Lusófonos, da Université Paris-Sorbonne. Como Clarice Lispector pode mudar sua vida (2017, Buzz Editora) será lançado durante as atividades do Printemps Littéraire Brésilien 2017.



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