segunda-feira, 6 de março de 2017

A Galinha dos ovos de outro

Chambre 237, Christopher Chiappa

A Galinha dos ovos de outro
(Avareza)
Andrea Nunes

Jussara bateu com mais firmeza na porta do casarão sombrio que ficava na parte alta da rua. Conferiu discretamente o endereço que pesquisara, e concluiu que só podia ser ali mesmo, naquele fim de mundo.
Ajeitou o xale cafona por sobre os ombros e se preparou para incorporar sua nova personagem assim que a velha atendesse a porta.
Com uma folha corrida que intercalava atuações em peças medíocres, fugas de agiotas e detenções por estelionato, Jussara acreditava ter sido uma grande sorte ter sabido da história de dona Suzana, uma velha solitária que estava causando sensação na cidade. Suzana, diziam os vizinhos, enriquecera subitamente após a aquisição de uma misteriosa galinha, e passara a gastar em poucos meses mais do que gastara a vida inteira. 
Dizia-se à boca miúda na cidade que a velha Suzana  estava criando a galinha dos ovos de ouro, e mantinha o animal escondido de todos, sendo o galinheiro construído no lugar mais escondido do quintal do casarão, e os ovos da  ave também   nunca eram vistos.
Jussara era um golpista muito experiente para acreditar em bobagens como aquela, mas o simples fato de ter acesso a uma velha solitária, com dinheiro sobrando e recém-adquirido, era como acertar na loteria: uma rápida pesquisa em cartórios, a amizade com um parente distante da vítima e algumas buscas na internet tinham dado a ela todas as informações necessárias para aplicar seu novo golpe. 
Quando dona Suzana finalmente entreabriu a porta do casarão, com ar desconfiado, a estelionatária lacrimejou de modo afetado e enroscou as mãos na ponta do xale:
- Zaninha, minha querida! Meu Deus, você não mudou quase nada, sabia? Está um pouco mais magra e parece mais baixa, mas essa expressão nos olhos... oh, querida, eu a reconheceria em qualquer lugar!
A velha deu dois passos para trás , desconfiada:
-Zaninha? Faz mais de quarenta anos que ninguém me chama assim. Quem é você?
Jussara estalou a língua com ar indulgente:
- Ah, minha prima querida, seria muito esperar que você me reconhecesse, não é? Afinal, faz tanto tempo... Mas eu estou vendo que você ainda usa o mesmo medalhão, não é? Igual ao meu, veja!
Quando Jussara puxou de dentro do decote a réplica que fizera do medalhão de prata igual ao usado por Suzana, a velha saltou para frente arregalando os olhos:
- Lázara? É você, minha prima? – ela examinou a joia falsa com os dedos trêmulos e, depois de alguma hesitação, sem qualquer palavra , deu dois passos para a estelionatária entrar em sua casa. Não houve cumprimentos efusivos. Na verdade, não houve emoção alguma. Apenas uma resignação mansa e reverente pela chegada da parente inesperada.
Jussara se instalou na casa de Suzana com grande facilidade. Seu papel era o da única prima da idosa, que havia sido muito próxima dela na infância e adolescência, mas que, depois de adulta, desaparecera sem deixar vestígios. Suzana levava uma vida solitária e não tinha contato com familiares. O surgimento da galinha misteriosa e do súbito enriquecimento despertara a atenção de alguns malfeitores e curiosos, e o assunto acabou chegando ao conhecimento a estelionatária, que vivia na cidade vizinha.
No decorrer dos dias, o diálogo entre as primas era muito escasso. Encontravam-se apenas nas refeições, e havia uma prosa protocolar sobre assuntos corriqueiros. Jussara havia se preparado para algumas perguntas e reminiscências de infância das duas, claro. Mas percebeu com alívio que a sua anfitriã não tinha muito gosto em falar sobre a família ou o passado. Na verdade, começou a questionar se haviam sido tão próximas como apontava a pesquisa, já que a idosa parecia apenas tolerar sua presença e evitar contatos próximos.


Mas o importante ela estava conseguindo: descobriu que, de fato, a misteriosa galinha existia, e Suzana a chamava carinhosamente de Gelsa. O galinheiro era trancado com dois cadeados, e, como diziam as fofocas, os ovos não eram vistos nunca. Mas os sinais de súbita riqueza da velha eram evidentes, como a reforma do casarão com materiais caros e sofisticados, móveis novos e um automóvel zero quilômetro na garagem. Jussara imediatamente passou a aproveitar o tempo livre para vigiar, à distância, a famosa galinha. Ela era alimentada com esmero por Suzana, que de vez em quando saía furtivamente de casa com pacotes e voltava com novos objetos, como obras de arte valiosas e outras aquisições refinadas. Mas a galinha permanecia trancada durante suas saídas, de modo que não seria possível investigar o mistério.
Determinada, Jussara certo dia contratou Ciro, um vigarista conhecido seu para arrombar o galinheiro assim que Suzana se ausentasse em suas saídas misteriosas. Ciro examinou os cadeados e disse a Jussara que precisaria de, pelo menos, meia hora para resolver aquilo, pois eram cadeados de última geração, e ainda havia um alarme para ser desativado no galinheiro, que ela nem havia percebido.
Satisfeita com a competência do jagunço, Jussara aproveitou enquanto o homem trabalhava para inspecionar documentos pessoais de Suzana no primeiro andar, e acabou descobrindo nessa inspeção  fotos antigas que não tinha tido acesso, da velha e da prima verdadeira brincando num jardim, depois frequentando a mesma escola na adolescência, tudo documentado em álbuns bonitos, alguns com dedicatórias carinhosas e muita organização. Jussara concentrou-se em examinar todos os álbuns com interesse, intrigada com o porquê da frieza da velha, já que, de fato, tinha havido uma amizade próxima entre as primas.
De repente percebeu que tinha perdido a hora nesse exame, e desceu correndo as escadas direto para o galinheiro. Encontrou-o aberto, os cadeados arrebentados e nem sinal do vigarista. Com o coração aos pulos, correu do quintal para a entrada dos fundos, e já na cozinha, ela descobriu toda a cena:
Em cima da mesa de granito recém-adquirida por Suzana, a galinha Gelsa jazia inerte, brutalmente decepada e com as pernas arrancadas. Da sua cloaca se via uma incisão onde, a olhos vistos, havia sido violada, e ao seu lado, a imagem grotesca das vísceras retiradas há  pouco tempo.
Tremendo, Jussara sentou atordoada na cadeira junto ao animal retalhado. Não devia ter confiado a um pilantra como Ciro ter acesso à galinha sem que ela estivesse por perto. Lembrou que, na fábula da galinha dos ovos de ouro, a ganância e a curiosidade do dono haviam culminado com o ato insano de abrir a galinha para ver por dentro como se operava aquele milagre, e assim, a animal morrera e as pessoas se tornaram pobres de novo. Tendo finalmente pegado a galinha e constatado seu dom precioso, o estúpido do Ciro deve ter raciocinado do mesmo modo, abrindo a ave como a criança que quebra o brinquedo para ver por dentro a engrenagem da magia. Agora, a única possibilidade real de riqueza da vida de Jussara jazia morta à sua frente, abandonada após a constatação de sua anatomia comum, como um bicho sacrificado num altar pagão.
Suspirando e imbuída do necessário espírito prático que a situação exigia, ela lembrou que só lhe restava agora limpar aquela sujeira e tentar consertar as coisas a seu modo.
Após ligeira assepsia da cozinha, ela correu na granja mais próxima e adquiriu uma galinha da mesma cor e tamanho de Gelsa. Por sorte, a ave era um bicho com a cor das penas e a compleição comuns, com ela observara durante o seu período de hospedagem ali. Com os cadeados recuperados e o alarme reativado, subiu as escadas e , exausta, adormeceu antes mesmo da chegada da prima.
Veio acordar no dia seguinte assustada com a figura austera do padre à sua frente, segurando o envelope entre as mãos.
A casa estava silenciosa como sempre, mas o homem de batina negra a olhava consternado, estendendo o papel para ela.
- Onde esta minha prima Zaninha? – ela inquiriu com a voz fraca, saltando da cama e pegando o envelope. – O que o senhor está fazendo aqui?
O padre pigarreou e murmurou um pedido de desculpas por entrar sem bater, mas não havia empregados na casa e a situação era urgente.



Prima Lázara,
Se você recebeu essa cartinha, é provável que eu já esteja bem longe desse casarão mal-assombrado.
Me perdoe se a caligrafia está tão trêmula, é que nunca escrevi para pessoas que já morreram:  estou tão assustada que minha vontade era largar tudo e sair correndo, mas o dever familiar me obriga a  te dar algumas explicações.
Há aproximadamente uns seis meses, recebi uma  herança secreta do nosso avô, com a recomendação de que deveria ser dividida apenas entre nós duas, eu e você, suas únicas netas.  Era muito dinheiro, mas mesmo assim eu não mandei te avisar, porque estava precisando consertar o casarão, e me permitir alguns luxos que não tive ao longo da vida. Fui alvo de intrigas e especulações quando comecei a gastar o dinheiro que recebi dessa fortuna, portanto, tento manter um estilo de vida muito reservado desde então. Há muitas histórias fantasiosas nessa cidadezinha em que vivo, e  há quem ache até que meu súbito enriquecimento vem de uma fonte mágica, imagine você. Às vezes fico chateada com o pedido de vovô para nunca divulgarmos a origem dessa herança, já que somos suas netas em virtude de um relacionamento extraconjugal. Mas por outro lado, foi muito generoso da parte dele nos deixar tanto dinheiro sem ao menos nos conhecer, não é?
Como você deve ter percebido, a princípio fiquei desconfiada com sua chegada repentina depois de tantos anos. Tenho vergonha de dizer, mas cheguei a pensar que seria uma impostora. Depois me dei conta de que deveria ser você mesmo, pois a notícia da herança deveria ter chegado aos seus ouvidos e você vinha me cobrar o quinhão que lhe cabia e eu não te repassara. Confesso que fiquei comovida em descobrir que você não viera com raiva nem mágoas, e parecia querer uma reaproximação genuína comigo antes de tocar no assunto da herança. Afinal, fomos mesmo primas muito ligadas na infância.  Quando aceitei isso, fiquei tão contente que fui ao mercado comprar ingredientes para fazer um belo almoço de domingo em sua homenagem. Eu ia cozinhar Gelsa, aquela galinha de capoeira que você viu no quintal, que  estava engordando para uma ocasião especial.
Mas ao chegar na cidade, fui avisada que havia chegado uma carta para mim nos Correios com data de três meses atrás, que veio com atraso em virtude dessas greves de funcionários do serviço postal. Guardei a correspondência para abrir e ler com calma em casa, em virtude do adiantado da hora. Quando voltei, meu primeiro susto foi surpreender um ladrão tentando arrombar o galinheiro, veja você que audácia! Assim que me viu, o covarde fugiu. Aí, matei a galinha e comecei a tratar.  Botei o feijão no fogo para o almoço que seria no dia seguinte- no caso, hoje. Sentei na mesa e abri a carta. Então eu soube.
Fiquei transtornada quando li a carta e recebi de nossa tia Eufrasina a notícia de que você, Lázara,  já havia morrido há três meses. Três meses!  E eu só tomara conhecimento dessa tragédia  naquele momento, com sua alma penada bem ali, na minha casa. Você tinha vindo me assombrar, porque eu não avisara a você da nossa herança? Será que você morreu pobre, precisando desse dinheiro que nunca te dei? Ah, meu Deus, perdão! A primeira coisa que fiz foi correr à Igreja e rezar um terço pela sua alma, para que você retornasse ao mundo dos mortos. Você nem imagina minha surpresa, prima, quando voltei e encontrei a galinha Gelsa, que já tinha sido depenada e aberta, ciscando tranquilamente no galinheiro quintal. Nunca tinha visto alma penada de galinha depenada, e não achei certo rezar por alma de bicho. Aí compreendi que eu estava sendo era castigada pela minha avareza, com todas essas almas penadas me assombrando em casa. Só faltava vovô aparecer também e puxar minhas orelhas! Resolvi pegar toda a minha fortuna e doar para a Igreja, para caridade, e ir-me embora de vez daqui.
Deixei toda a fortuna da nossa herança na Igreja, com o padre, para caridade. Inclusive foi assim que essa cartinha chegou também às suas mãos, já que eu mesma entreguei a ele. Espero que você me perdoe não ter avisado da herança, prima Lázara – pense que, de todo modo, você não poderia usufruir dela, já que morreria logo em seguida também.
Descanse em paz, e por favor leve embora  com você Gelsa, a galinha penada,  quando partir de volta para o Além.
Com amor e arrependimento,
Suzana *

XXX


Andrea Nunes é Promotora de Justiça de combate à corrupção em Recife, e autora dos romances policiais O Código Numerati e A Corte Infiltrada, que já recebeu elogios de Raimundo Carrero e Mary del Priore. Ganhou em 2014 a menção honrosa de melhor escritora do Nordeste no Prêmio Dulce Chacon, da Academia Pernambucana de Letras. Participou das antologias Olhar Paris (2016) e Escrever Berlim (2017) ambas publicadas pela Editora Nós. Andrea Nunes participará das atividades do Printemps Littératire Brésilien 2017 em Lisboa.  



Conto publicado originalmente na antologia Sete Pecados capitais em Prosa e Verso, organizada por Cassio Cavalcanti.


2 comentários:

  1. Muito bom! Parabéns mais uma vez, amiga Andréa Nunes!

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  2. Texto fantástico! Atiçou minha curiosidade que não consegui tirar os olhos até chegar ao ponto final! Parabéns Andrea Nunes!

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