segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O escritor

Life Writer, Laurent Mignonneau & Christa Sommerer - 2006

O escritor
Para Milton Hatoum

Por Marcelo Nocelli

Foi no Festival Literário da Mantiqueira, em 2007, que o vi, pessoalmente, pela primeira vez. Já havia lido dois livros seus que, imediatamente, passaram a fazer parte da minha lista de preferidos. Eu sabia quem ele era. Ele, claro, não tinha a menor ideia de quem eu era. Não fomos apresentados, e fui agraciado com a oportunidade de permanecer anônimo, apenas observando, sossegado, seu jeito admirável. Eu estava almoçando sozinho quando o percebi discreto, na mesa ao lado. Ele estava com a família:
mulher, dois filhos pequenos e uma babá. Algumas pessoas pararam, puxavam conversa, pediram autógrafos em livros. Não deixavam o escritor almoçar tranquilo. Mas ele parecia não se importar. Atendia a todos com atenção. Apresentava sua família, inclusive a babá. Pacientemente autografou livros, tirou fotos e sorriu, como um monge. Sua mulher também foi extremamente gentil com todos. Eu fiquei lá, observando e de alguma maneira, tentando permanecer solidário. Sabia que ele precisava abreviar o almoço, tinha uma mesa na Tenda dos Autores esperando por ele. Não poderia se atrasar. Logo depois entraria o convidado de honra do evento para fechar à tarde literária; um outro escritor muito mais popular. Eu estava ali para vender meus livros na rua de mão em mão e para assistir as palestras.
Quando o escritor terminou seu almoço, sua mulher o beijou carinhosamente e desejou “uma boa mesa”. Ele levantou, pagou sua conta, disse até breve para a família e seguiu caminhando para o local onde aconteceria a palestra. Eu fui atrás. Escoltando seus passos serenos pelas ruas de São Francisco Xavier. A tarde começava a cair, a neblina e o frio da Mantiqueira junto ao pôr-do-sol compunham uma linda paisagem que eu e o escritor admirávamos. Talvez, ele, assim como eu, estivesse imaginando uma boa história para narrar naquele belo cenário.
Quando o escritor ocupou seu lugar, eu sentei na primeira fila. Esperamos. As pessoas foram entrando. Ocupando os lugares enquanto ele permanecia calado, discreto e paciente. Retirou de uma sacola um livro que não consegui identificar, e passou a folheá-lo. Era clara sua postura distante de qualquer tipo de badalação, mas ao mesmo tempo, visível sua gentileza com as pessoas que solicitavam sua atenção, mesmo com aqueles que insistiam em cumprimentá-lo como se fossem velhos conhecidos. Eu me senti um pouco mais forte, de alguma maneira, com coragem para quando saísse dali, oferecer meus livros na rua de cabeça erguida. O que antes fazia com muita timidez.
O auditório não chegou a ficar completamente lotado. A fila lá fora, para a palestra do próximo escritor era muito maior. Ninguém dessa outra fila quis entrar. Não queriam perder seu lugar para ver o escritor famoso e badalado. Depois que o mediador o apresentou, ele começou a falar, pausadamente. O tema era: “O escritor por ele mesmo”. Primeiro discorreu sobre sua origem libanesa. Depois sobre sua infância em Manaus. Concluiu a palestra comentando sobre os dois anos em que viveu nos Estados Unidos, quando foi convidado para lecionar Literatura Inglesa na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Pouco falou sobre seus livros. Comentou muito mais sobre sua admiração por Machado de Assis e Graciliano Ramos. Quando terminou, ele seguiu para a sessão de autógrafos. (Naquela época, do seu quarto livro).Completei o pequeno lucro que havia conseguido com as poucas vendas dos meus livros, e comprei os dois dele que ainda não tinha. Depois segui para a pequena fila. Enquanto ele fazia a dedicatória, eu aproveitei para elogiar seu trabalho. Quando me entregou o livro, ele levantou a cabeça, sorriu e agradeceu minha presença e a oportunidade de ter-me como leitor. Eu não consegui dizer nada. Fui embora pensando em tudo que eu gostaria de ter dito ao escritor, nas perguntas que planejei mentalmente na fila, e que não tive coragem de fazer...


No ano seguinte, nos encontramos na Flip, em Paraty. Um encontro rápido na Casa de Cultura, onde ele falou com toda propriedade sobre Euclides da Cunha. Cumprimentei-o, e mais uma vez não soube o que dizer. Mais um ano se passou e em 2009 o encontrei, novamente, na Flip. Dessa vez, ele já era um dos principais convidados, numa mesa badalada, ao lado de Chico Buarque que elogiou muito seu trabalho, inclusive, proferindo se tratar do maior escritor brasileiro em atividade. Eu fiquei orgulhoso por isso, pensava o mesmo  desde a leitura dos primeiros livros e das colunas semanais que acompanhava no jornal O Estado de S. Paulo.
Alguns anos depois, encontramos de novo, dessa vez em Poços de Caldas. Eu estava entre os “novos autores” e ele chegou para a cerimônia de encerramento do evento, ao lado de Rubem Alves, do prefeito da cidade e do governador de Minas Gerais. Dessa vez, pude conversar um pouco com o escritor, por dez ou quinze minutos, enquanto tomávamos um café. O prefeito o aguardava para jantar. Falamos sobre a cidade e, claro, sobre literatura. Tive até a oportunidade de falar rapidamente sobre o meu projeto literário. Depois perguntei por que era tão difícil encontrá-lo nos eventos literários e ele me respondeu com a calma de sempre: “Porque o que tem que se destacar são os livros. Um escritor não pode ser mais importante que seus textos.”
Soube que seu livro: Dois irmãos será filmado em minissérie para a Rede Globo, mas o escritor não quis falar sobre isso. Disse que seu único feito foi ter escrito o livro. A minissérie era com os diretores e atores. Ele não teria nenhum envolvimento. Disse que tinha lido em algum lugar que esse mesmo livro, foi eleito o melhor romance brasileiro dos últimos vinte anos. Mas ele também não quis falar sobre isso, apenas se restringiu a dizer que existiam outros romances tão bons quanto e até melhores. Antes de nos despedirmos, como um adolescente diante de um ídolo, eu ainda perguntei, de forma quase infantil, o que ele poderia aconselhar a um escritor com um projeto literário em formação. Ele sorriu e disse: “Não tenha pressa. Continue escrevendo e, sobretudo, lendo. Leia muito. Leia mais do que escreve, e lembre-se: a pressa em publicar é a maior inimiga da boa produção. ”

XXX



Marcelo Nocelli é escritor, editor e técnico gráfico. Formado em tecnologia eletrônica gráfica (1996) e Licenciado em Letras (2010). Atua há mais de 20 anos na indústria gráfica livreira, é sócio editor nas editoras Reformatório e Pasavento. Autor de contos e crônicas publicados em revistas e sites especializados no Brasil, Alemanha e Itália, é autor dos romances O Espúrio, 2007 (traduzido e publicado na Alemanha em 2013), O Corifeu Assassino, 2009 (traduzido e publicado na Itália em 2014), ambos pela LCTE Editora, e Reminiscências, 2013, editora Reformatório. Em 2014 organizou os livros Grenzelos, antologia de contos que reuniu 25 autores brasileiros inéditos com idade até 40 anos, publicado na Alemanha pela Editora Arara-Verlag e Crônicas da UBE, antologia de crônicas com 29 autores brasileiros filiados a UBE – União Brasileira de Escritores, publicado pela Editora Pasavento. Foi Secretário Geral da UBE – União Brasileira dos Escritores durante a gestão 2013/15. Em 2015 integrou a Comissão Julgadora do ProAC de Literatura nas categorias Autores Inéditos e Coleções de Editoras.





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