sábado, 18 de fevereiro de 2017

Navio Provisório


Orie, Lúcia Hiratsuka

Navio Provisório


                           Para Hugo e Renê

Tudo era pouco, mas havia a goiabeira do meio da roça.
E havíamos nós.

Meu irmão mais velho, meu primo e eu
Subíamos içados,
Cada um para o seu galho.

Proclamada navio, inventávamos,
E então ventava, o ar não tinha escolha.

Singrar. Mesmo sem saber dessa palavra,
A gente singrava.

Vivíamos do que se podia.
Algumas gaivotas vinham dar bicadas
Nos pescados de goiaba vermelha pendurados.
Naquele tempo, tinha o bastante para todos.

Bravia a água lá de baixo. Quem caísse
Seria tragado para sempre pelo infortúnio
E abandonado ao mar, já que o navio tinha que seguir.
Mas nenhum de nós caiu, nunca.

O mato cresceu muito. Aquele navio
Ficou inacessível para nós três.
E mesmo que se pudesse, tão pesados...

O navio foi o que teve que ser, a seu tempo.
Porque, leves que só, sequer notávamos
Que todo aquele verde era a corrente
Rumo ao nosso porto do futuro.

E hoje podemos, inclusive, plantar outros navios
Que venham embalar nossas crianças
Com aquele mesmo sonho que ventávamos.

(A musa diluída, Record, 2006)



O Trem


Na linha que seguia até sumir
Depois da curva ao longo desses trilhos
Eu esperava um trem que não passava
(Ou que passasse e, por alumbramento,

Sequer tenha notado, ou mesmo ouvido).
Restou, silente, a espera pelo próximo.



E tendo me escondido na estação
Com a distração dos outros passageiros
(Acompanhando as suas despedidas...),
Nas noites me encolhi de resignado.
Até quem em certo estio dessa angústia
Na curva um som de trem se aproximava.



Parado, tinha as portas semi-abertas
(Não sei se por algumas incertezas
De receber um novo passageiro;
Mas refletia a minha hesitação
Em ter de abandonar local seguro
E me lançar além do que enxergava.)



Já longe, à profusão dessa paisagem
- Paisagem que até hoje me acompanha –
Mesclou-se algo que, então, reconhecia.
Seguro e vulnerável no vagão,
Estranhamente eu me identificava:
(Achando-me-perdi, mineiramente.)



Tão nova e vaga e longa essa viagem...
Nem mar nem rio ou céu longínquo e claro
Ou qualquer ânsia onírica que fosse
Se equiparava àquela transcendência,
Que mesmo construindo uma distância,
Modificou a vida que eu levava.



Parti sem ter ciência do destino,
Ao qual me lancei cego e voluntário,
Sem pressa para qualquer desembarque.
Até que eu mesmo me tornei o trem,
Que vem se aproximando pelos trilhos,
Enquanto, na estação, você me espera.
( inédito)



homo ludens



te lanço o meu poema como um bumerangue
se volta a mim, eu pego e jogo novamente
mas quando cai nas tuas mãos, vem de repente
a sensação de um rico e belo bangue-bangue



e nesta avessa brincadeira, não se zangue
quando ele voa e escapa e vai passando rente
às mãos do pensamento que imagina e sente
o cheiro dessa lâmina sem corte ou sangue



te jogo o bumerangue feito de papel
que se desfaz na chuva, e apaga e rasga à toa...
(mas por ser leve e frágil é que ele tanto voa!)        



eu sei, não há poema e nem nada no céu...
mas finjo mesmo assim, pois nesta brincadeira
voa o bumerangue da minha vida inteira

(inédito)


XXX




Né à Rio de Janeiro en 1975, Henrique Rodrigues a suivi une formation en lettres ainsi qu’une spécialisation en journalisme culturel à l’UERJ. Il a soutenu son doctorat en littérature à la PUC de Rio de Janeiro et travaille actuellement au SESC en tant qu’assistant technique en littérature où il coordonne des projets qui promeuvent la lecture et la diffusion d’évènements littéraires. Il est l’auteur de plusieurs anthologies de poèmes pour adultes (A musa diluída, Record, 2006) et pour la jeunesse : Versos par um livro antigo (Pinakotheke 2007), Machado de Assis : O Rio de Janeiro de seus personagens ( Pinakotheke, 2008), O segredo da gravata mágica e o segredo da bolsa mágica (Memória Visual 2009), Sofia e o dente de leite (Memória Visual 2011) et Alho por alho, dente por dente ( avec André Moura, Memória Visual 2012). Il a participé aux anthologies Prosas cariocas : uma nova cartografia do Rio de Janeiro (Casa da Palavra, 2004), Dicionário amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Escritores escritor (Flâneur, 2010) Humor Vermelho vol 2 ( Vermelho Marino, 2010) Brasil-Haiti (Garimpo, 2010), Amar, verbo atemporal (Rocco 2012) et Vou te contar : 20 histórias ao som de Tom Jobim. Il est le coauteur (ou concepteur) des livres Quatro estações : o trevo ( Independente, 1999) ;  Como se não houvesse amanhã : 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana (Record 2010) et de O livro branco : 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bonus track ( record 2012). Henrique Rodrigues vient de publier son premier roman, intitulé O próximo da fila ( Record 2015).  Henrique Rodrigues participera de la 4ème édition du Printemps Littéraire Brésilien. 


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