segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Peres e eu.

Jorge Macchi, Rendez-vous


Peres e eu.
Marcos Peres

Devo à conjuntura de amigos e cervejas o descobrimento das Edições Katchadjian. Na última Festa Literária de Paraty, fazíamos – eu, Henrique Rodrigues, Marcelo Moutinho, Rodrigo Casarin e Leonardo Tonus – nossa própria programação literária no Bar Coupê. Em algum obscuro ponto desta noite, ao ser indagado sobre a demora de uma cerveja, um garçom foi truculento. Recordo-me que, querendo impressionar meus amigos, disse que o garçom, e o bar, e a situação, e a nossa sede eram todos atributos de uma história kafkiana. O Henrique respondeu com um infame trocadilho, alguém disse que o cotidiano era repleto de situações kafkianas. O Tonus concluiu que, recentemente, lera o seguinte argumento de um romance: um presidente de um país do Leste Europeu recebe um e-mail ameaçador. Todos os seus podres foram interceptados e serão divulgados no Wikileaks. Os capítulos subsequentes tratam da aflição do Chefe de estado; a desconfiança de amigos, familiares, as crises de ansiedade; e, por fim, a angústia maior ao perceber que, dia após dia, nada acontece.

“Interessante”, falei. “De quem é?”

“Isso é o mais interessante, Comendador. A obra é assinada por ninguém menos que Kafka. O livro foi encontrado na biblioteca da Universidade. Chegou até minhas mãos porque está escrito em português, mas a editora, parece, é da Ilha da Madeira...”

Rimos, mudamos de assunto, de cerveja, de bar. No fim da noite, embriagado, pedi para ver o apócrifo romance. Dois meses depois, fui surpreendido com um envelope remetido de Sorbonne. ‘Para o Comendador com um grande abraço. Leo’ estava escrito no bilhete, ao lado do volume carmim desbotado; o título, em letras douradas, soava verossímil: O vazamento. Subtrai do enredo as referências temporais e conclui que o escritor de Funchal detinha um amplo conhecimento do autor de Praga: mudadas duas ou três circunstâncias, alterado o recebimento de um e-mail pelos mensageiros de O Castelo ou pelos oficiais de Justiça de O Processo, o tomo poderia ser facilmente (falsamente!) atribuído ao autor de A colônia penal. Escondida pela brochura, uma nota de rodapé explicava que o romance fora importado de Portugal por um estabelecimento de Ciudad del Este chamado Katchadjian. Ou coisa parecida.

Laurent Kropf, Dimanche, 2012

Esqueci de O Vazamento, até que, ao participar da Semana Literária do Sesc, em Foz do Iguaçu, lembrei-me de Katchadjian. Curioso, decidi atravessar a Ponte da Amizade; evitei o comércio fácil da Avenida Central, esgueirei-me pelo labirinto roto da cidade e fui levado pela sorte. Inútil dizer aos que não conhecem a região: convergem, na tríplice fronteira, judeus ortodoxos e muçulmanos que se ajoelham em direção a Meca. Coabitam – dividindo narguilés, cuias de mate e aguardentes de cereais – turcos, coreanos e índios guaranis. O criollo e o colonizador. O capitalista e o explorado. Tríplice, santa, também pecadora, feita de comércio, não só dos três deuses que ali habitam, mas também da carne de meninas, muitas delas impúberes. Aliás, foi por uma jovem que tive a primeira pista: ela me ofereceu companhia, respondi que procurava um local que vendia livros; por dez reais, guiou-me até um ocre estabelecimento de celulares usados. Um senhor de olhos grises respondeu-me com silenciosa aquiescência quando pedi por Katchadjian; entrou por um corredor estreito e me mostrou, enfim.

Depois de algum tempo, compreendi meu desapontamento. Esperava encontrar uma biblioteca feita de hexágonos, de um iterativo jogo da leitura e cópia de cânones. No entanto, a sala contígua era feita por prateleiras e pen-drives expostos sem ordem alguma. Perguntei pelo dono do empreendimento, e o senhor de olhos grises me respondeu que Katchadjian nunca se deixava ser visto. Vive percorrendo o mundo conferindo o trabalho dos escritores, a organização de seus prepostos. 

“A coisa é tão grande assim?”

“Si, por supuesto”, disse, como se eu tivesse perguntado uma obviedade. Voltei ao Brasil com pisco Mistral, Pringles, um Scotch – e com pen-drives que o senhor de olhos opacos garantia, por ele, carajo, serem de Dostoievski, Cervantes e Pessoa. Conectei o pen-drive em um notebook, servi-me das batatas, do scotch e li quase a primeira metade do livro atribuído ao russo – um caudaloso romance que tinha como protagonista um idoso Gorbatchev após a queda do império soviético; sob o título O último companheiro, pululava um febril monólogo interior, ironias azeitadas e um pensamento límpido, poderoso, digno de ser traduzido para algumas dezenas de línguas.

Aliás, faço aqui uma intervenção: o kafkiano O vazamento não fora escrito na Madeira; havia sido feito na região da Boemia e, depois, vertido ao português em Funchal. Estratagema semelhante foi empregado em O último companheiro: escrito em São Petersburgo, ganhou tradução portuguesa em Recife e depois foi levado até Ciudad del Este para se juntar aos outros romances apócrifos. Isso foi o que me garantiu o preposto da loja.

No dia seguinte, com ressaca e curiosidade, atravessei novamente a ponte, fiz o sinuoso caminho, entrei no estabelecimento de celulares e falei a senha – que se confundia com o nome do sujeito que não se deixava ver em hipótese alguma.



 “Tem literatura brasileira?” Perguntei, e o homem estendeu uma caixa de sapatos com pouquíssimos pen-drives.

Escolhi dois romances: um do Machado, outro de Moacyr Scliar. E, antes de pagar, fiz a temida pergunta: “Há algo de Marcos Peres?” O sujeito disse que não, mas poderia conferir na central. Não deixei de rir da minha ingenuidade.

Já no hotel, tomei uma ducha gelada, deitei-me e abri o arquivo atribuído a Machado – Os arcos da discórdia, um romance entre dois primos, um político e um magistrado, que se confrontam nos jogos olímpicos de 2016. Sem filtros de traduções, era ainda mais impactante ler um original, que era tudo, menos um original. Um romance ousado, uma profundidade psicológica invejável, um clássico em minhas mãos, senti, porém o paradoxo de um clássico adornado de referências atuais, de redes sociais, de nomes de futebolistas da moda. O Scliar adulterado, no entanto, foi decepcionante. Tratava-se do mesmíssimo argumento de Max e os felinos: um sujeito se lança em alto-mar e se vê em uma embarcação com um felino iracundo. O que Scliar falaria de uma cópia tão grosseira?

Dias depois, retornei para o modorrento serviço público, e o que se passou depois foi embaçado, feito talvez do mesmo tecido de que são feitas as ilusões. No meio de uma tarde, recebo um telefonema; o interlocutor diz que encontrou na central (na seção dos não relevantes, reiterou) um tal Marcos Peres. Perguntou-me se eu ainda tinha interesse.

“Sim, claro”, respondi, confuso. E em poucos dias um pen-drive chega até a minha casa. Com o coração acelerado, conecto-o ao computador e abro o arquivo: se o nome do autor era familiar, o título, no entanto, era exageradamente impreciso, exageradamente violento, exageradamente ruim para que eu pudesse dar credibilidade: “Quem tem fogo no cu?

Acho que ri, aliviado. Eu escreveria qualquer coisa, menos um romance inquirindo donos de ânus em chamas. Assim, deixei-me perder no texto que, logo em seu começo, anunciava um sumiço. Um romance policial, claro. Superficial. Óbvio. Em muitos pontos, soava como um pastiche, evocando desaparições e soluções clichês. Esperei, com sinceridade, que o meu romance paraguaio evocasse o mordomo como o assassino no final. No entanto, meu eu falsificado escolheu outro desfecho.
A diatribe feita por mim, para mim, não tem exagero. O que guarda a crítica em mordacidade, tem uma secreta face de alívio: me vi em um espelho deformado e me julguei melhor, como Dorian Gray diante de seu retrato. No entanto, só fui compreender o real significado do livro quando li um posfácio, escrito pelo próprio autor. Enfim, vi Peres.

O autor de Quem tem fogo no cu? se justifica em um pós-escrito e se apresenta como um tardio vanguardista. Um filho pródigo do experimentalismo. No romance, o sumiço é uma metáfora para a ausência de uma letra que não foi empregada, a vogal ‘A’. Nenhum argumento original aqui, apenas, como disse Peres no posfácio, “o ato de homenagear um autor que admiro muito”. Creio que nesse ponto alguns já adivinharam quem é o homenageado: George Perec, expoente da Oulipo (ouvroir de littérature potentielle), admirador de imbricações da matemática na literatura, escritor de La Disparition (O sumiço), em que não utiliza a vogal E.

Aqui chego à outra importante indagação: como admiro Perec se nunca li Perec? Tive que reler o romance Quem tem fogo no cu? (que, como viram, não contém a letra a) para chegar até a(s) resposta(s).

Primeiramente, compreendi que o tom de pastiche usado em todo o texto foi proposital. Um realce de que uma letra estava obliterada. Também credito o tom exagerado pela ausência de habilidade do autor em driblar a imposição de escrever sem o “a”.



Assim, compreendendo as limitações e os objetivos do Peres paraguaio, criei outro romance, recolocando a vogal suprimida – e alterando, consequentemente, palavras, orações, sintaxe. A conclusão foi impressionante: era como se eu já tivesse lido aquilo. Era como se o conteúdo já estivesse preso em alguma entranha do meu cérebro. Reconheci não apenas a voz, mas os truques de estilo, as simplórias comparações. Reconheci – e reprovei – as premissas de um autor que não se aprofundou (mais, que não quis se aprofundar!) naquilo em que devia estar imerso. Não há dúvidas que os mais execráveis defeitos são os que reconhecemos, nos outros, os que praticamos. De Quem tem fogo no cu? não pude reconhecer nenhuma virtude (porque, afinal, não conheço Perec), mas sim os defeitos, as imperfeições, as tautologias, os cacófatos, as falácias, as negligências. Kafka disse que brigar em um processo assim significa que você já perdeu – não me recordo se a sentença foi dita pelo autor original ou o falsificado.

Foi falado  muito, mas não foi explicado como meu eu falsificado admira um autor que nunca li. A resposta, apesar de abominável, não pode ser outra: Eu não li Perec. Eu lerei Perec. Ergo, admirarei Perec. Da mesma maneira que o Wikileaks e os jogos olímpicos seriam temas para cânones, se aqui estivessem. Julguei, assim, que os textos falsificados destinam-se ao impossível futuro dos autores copiados. Da mesma maneira que os temas sobrevivem, mas não os autores. Inútil dizer que, neste ponto, compreendi que o Peres oulipiano falava comigo de outro tempo – em que meu corpo já está, certamente, decomposto no cemitério municipal de Maringá.

Com temor, escrevo o nome Katchadjian no Google e vejo que há poucas informações; uma mulher (acredito que herdeira de algum escritor) descobriu o funcionamento das falsificações. Armou-se de advogados, ameaçou processar a empresa. A empreitada, claro, não foi frutífera. Katchadjian pode ser processado uma ou cem vezes, mas o negócio é maior que isso, por supuesto. Não é visto, não é reconhecível, muitos são seus prepostos, inúmeras são as linhas do cuidadoso esquema de sua máquina de falsarias. Se for condenado em uma ou outra instância, não significa que deixará de atuar. Não significa que não existirá.

Aos que ainda duvidam, justifico a existência do sistema de falsificações com dois argumentos, um de ordem geral, outro específico.

Ítalo Calvino descobriu que estava sendo falsificado por Katchadjian. Expôs o ocorrido em seu romance de romances Se um viajante numa noite de inverno:
“Há um complô de livros apócrifos que se estende em ramificações por toda parte. (...)”
E:

“Declarou-se indignado com o fato de que alguém pudesse fazer mau uso de meu nome (...), mas acrescentou que, afinal, não havia motivo para escandalizar-se, pois, segundo ele, a literatura vale por seu poder de mistificação e só na mistificação encontra sua verdade; assim, um produto falso, como mistificação de uma mistificação, equivale a uma verdade elevada à segunda potência”.

Por sua vez, Umberto Eco expôs em Sobre a Literatura:

A precede B cronologicamente, (...) por isso a discussão diz respeito somente à influência de A sobre B.
Todavia, não se pode falar do conceito de influência em literatura, em filosofia e até mesmo na pesquisa cientifica, se não se põe, no topo do triangulo, um X. podemos chamar esse X de cultura, de cadeia de influências precedentes? Para sermos coerentes com nossos discursos destes dias, chamá-lo-emos de universo da enciclopédia. (ou Katchadjian?)

A relação A/B pode colocar-se de várias maneiras: (1) B encontra alguma coisa na obra de A e não sabe que por trás existe X; (2) B encontra alguma coisa na obra de A e através de A remonta a X; (3) B refere-se a X e somente depois percebe que X está na obra de A.

Com isso tudo, fui demovido da ideia de mover um processo. Katchadjian se mistura com a literatura: é uma entidade invisível, atemporal, feitas de um novo amalgamar de antigas peças do tabuleiro.



De maneira afetada, copiei, neste texto, o estilo narrativo e famosos expedientes de um cânone literário que admiro (expedientes que assim poderiam ser resumidos: 1. O conhecimento de algo inusitado através de amigos e de um objeto – cervejas, um espelho ou uma enciclopédia. 2. O lento migrar para uma zona limítrofe entre realidade e ficção, utilizando-se, para tanto, o descrever de paisagens e pessoas reais em contato com o fantástico; 3. O uso de incertezas e imprecisões na narração, justamente para evocar verossimilhança e confluência entre o escrito e o vivido; 4 corroborar o inusitado com passagens de outros textos etc.).

Deliberadamente, não mencionei o nome deste cânone. É a resposta que dou a Katchadjian. Aliás, é a única resposta possível: confrontar o fabuloso tabuleiro já criado e, humildoso, tentar alterar algumas peças. Não me venham dizer que nada disse de novo. De novo, e de novo. Somos feitos, se não do sangue, ao menos dos resquícios da tinta de tantos Shakespeares. E de tantos Katchadjian.

Para Pablo K.
Para Maria K.

Xxx


Marcos Peres nasceu em Maringá. É bacharel em direito e atualmente trabalha no Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. Por sua estreia, O evangelho segundo Hitler (Record 2013), recebeu o prêmio SESC de Literatura de 2012/2013 e o Prêmio São Paulo de Literatura em 2014, sendo também finalista do Prêmio Jabuti 2014. Que fim levou Juliana Klein?, seu novo livro, um romance policial, foi lançado em julho de 2015, também pela editora Record. Marcos Peres é um dos convidados da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien.







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