quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Escrever primeiro, ler depois


Escrever primeiro, ler depois

Por Marta Barcellos

Entre os escritores parece ganhar corpo uma crítica/mágoa sobre não existirem hoje leitores “puros” da literatura brasileira contemporânea, que não sejam aspirantes, também eles, a escritor. É comum, ainda, entre os autores estabelecidos, alguma ironia a respeito desses candidatos não serem lá grandes leitores.

A regra implícita é: primeiro leia muito; leia os clássicos. Só depois, bem depois, tenha pretensões literárias.

Sou de uma geração em que isso fazia sentido. Como a maioria de meus contemporâneos, tive uma infância/adolescência de menina tímida enterrada nos livros, por sorte disponíveis na estante de meu pai. Descobri a literatura naquela época.

Mas as coisas mudam, e como mudam, quando estamos todos dentro do trem-bala acelerado da tecnologia (uma imagem que adotei do sociólogo Laymert Garcia dos Santos). As transformações são tão vertiginosas que mesmo os espaços de resistência precisam ser repensados. Em outras palavras, penso que nós, os escritores, podemos estar sendo conservadores. Ou, pior, corporativistas.

Da sociologia da tecnologia, passemos a Sêneca. Nos tempos em que o mercado de livros não era uma questão, o filósofo romano recomendava a seus discípulos que intercalassem igualmente as práticas de leitura e de escrita. Porque ler em demasia dispersa. E escrever em demasia esgota.

Acho perfeita a ideia de a leitura alimentar a escrita, e a escrita alimentar a leitura. Mas por que não começar pelo processo de escrita que alimenta a leitura, se todo mundo escreve hoje na internet, nas redes sociais?

As oficinas literárias estão lotadas de escritores iniciantes (jovens e velhos). Muitos só vão começar a serem leitores sofisticados a partir da experiência de aperfeiçoar a escrita, num ambiente em que as referências literárias surgem naturalmente. O escritor que lidera a oficina comenta: Clarice também tem um conto sobre isso. A menina, que só tinha lido a saga Crepúsculo, acaba estupefata pela descoberta da maior escritora brasileira. Gosto de imaginar que ela não se deixará paralisar pela “angústia da influência”, coisa também de outros tempos, e se apropriará da descoberta de um jeito novo e particular, jeito de quem começou pela escrita, e só depois descobriu a leitura (vejam que interessante: para onde isso vai nos levar?).

Particularmente, incentivo todo mundo, todo mundo mesmo, a ser escritor. Ter algum projeto literário – pode ser um blog, a biografia da avó, poemas para a namorada, ou ser o primeiro brasileiro a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. As pessoas que escrevem são melhores do que as que não escrevem. As pessoas que escrevem costumam ser melhores leitoras do que as que não escrevem.

Se queremos fazer da literatura um ato de resistência cultural, o querer-escrever pode ser uma ótima porta da entrada para este lugar. Que mal há se todos formos, ao mesmo tempo, leitores e escritores? E se todas as livrarias quem ainda existem/resistem tivessem um pequeno espaço para oficinas literárias? Por que os projetos governamentais de incentivo a literatura (caso ainda existam) não se utilizam desse desejo autoral presente até mesmo em quem (ainda) não lê?

Em vez de empurrar uma pilha de livros clássicos (talvez na esperança de afugentá-los) aos escritores iniciantes, vamos convidá-los a entrar na festa da literatura, sem preconceitos com suas parcas leituras ou com suas pretensões. Eles serão nossos leitores. E nós, quem sabe, um dia seremos leitores deles.

Xxx

Escritora e jornalista, Marta Barcellos foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015 e do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2016 com o livro de contos Antes que seque, já na segunda edição, pela editora Record. É carioca, formada em jornalismo pela UFRJ, e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Tem vários contos publicados, incluindo dois na coletânea Sábado na estação (Ed. Apicuri), organizada por Luiz Ruffato, e foi cronista por oito anos no portal Digestivo Cultural. Está escrevendo seu primeiro romance. Trabalhou 18 anos como repórter nos jornais O Globo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Atualmente é colaboradora do caderno EU&Fim de Semana, do Valor, e colunista na Revista Capital Aberto. Marta Barcellos participará da edição 2017 do Printemps Littéraire Brésilien





Um comentário:

  1. Faz todo o sentido. Wattpad tá ai, mostrando isso: novos autores despreparados e ansiosos por um sucesso duvidoso. Porém, como lá fora, todo autor precisa investir na sua carreira e em seu conteúdo. Um eterno aprendizado.

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