sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

À Procura de Hemingway

À Procura de Hemingway

Por Fábio Pereira Ribeiro


Procuro uma cadeira, sei que vou ter que esperar. Pego um livro da mochila para passar o tempo. Começo a ler Pileques – drinques e outras bebedeira de F. Scott Fitzgerald. Engraçado e prático, principalmente de um escritor amigo de Hemingway que bebeu e viveu, não necessariamente nessa ordem. Lendo o texto Manuseie com cuidado, me deparo com uma frase interessante e convergente com tudo o que está acontecendo. Scott afirma: Ao longo de trinta e nove anos, meu olho observador aprendeu a detectar onde o leite é batizado com água, onde se põe areia no açúcar, onde o diamante é falso e o estuque passa por pedra. É Scott, estamos no mesmo barco com os nossos trinta e nove anos. Dizem que entre trinta e nove anos e quarenta anos uma vida inteira passará pela sua cabeça. Será que a leitura de Scott é mais um sinal sobre tudo o que está acontecendo, ou prestes a acontecer? Enquanto espero aquela leitura, aquele livro parece conversar comigo. Parece que ao pensar em tudo o que está acontecendo Scott tenta falar algo diretamente para mim através daquele texto.  Scott dispara mais uma, O velho sonho de ser um homem por inteiro, por tradição de Goethe, Byron e Shaw, com um opulento toque americano, uma espécie de combinação de J.P. Morgan, Topham Beauclerk e São Francisco de Assis, foi relegado à lixeira onde vão parar as ombreiras usadas por um dia pelos calouros no campo de futebol americano de Princeton e o quepe da Força Expedicionária Americana que nunca chegou a ser usado. E daí? Eis o que penso hoje: o estado natural de um adulto senciente é uma infelicidade com reservas. Querer ser algo, principalmente algo que não é verdadeiro e no fim só faz sentido para os padrões da sociedade, na verdade só lhe trará infelicidade. Literalmente Scott escreveu aquele texto para mim. Bem no dia que terei uma revelação, espero eu. O próprio texto era um sinal? Pelo menos me dava uma direção. Eu pensava no que realmente faria sentido para mim. Estou com os meus trinta e nove anos e cheguei a um momento onde tudo o que fiz, salvo os bons lances da vida, o resto não tinha mais sentido algum. Nós só devemos fazer o que realmente nos dá prazer. Devemos ter um cuidado imenso para não entrar no jogo da vida comum, pois depois para sair, é mais do que óbvio que nós magoaremos muitos jogadores que vivem a mesma mediocridade que você. Não podemos nos enganar, precisamos ser mais fortes e enfrentar a partir de uma escolha que realmente faça sentido para nós.


− O senhor pode subir! – fala a atendente para mim.
− Você me acompanha?
− Não, a faxineira irá lhe acompanhar lá no andar. Por favor suba a escada, ela estará na porta da suíte 14 lhe aguardando.
− Obrigado. – agradeço.

Meu coração dispara. Esta porra de ansiedade um dia me matará. Subo as escadas como um moleque. Praticamente um salto para cada 5 degraus. Entro naquele pequeno corredor e avisto a faxineira me esperando com uma chave na mão. [...] Encosto a porta, e vou direto para o armário e avisto o cofre. Bingo, o mesmo está fechado. Abro-o rapidamente com a chave enviada e pego o único envelope que havia. Dobro-o e enfio na calça, tento esconder o máximo. Tranco novamente o cofre e escondo a chave no bolso. Vou até a janela e observo o ambiente. Respiro fundo e abro a porta do quarto. [...]



Vou até algum lugar para ler o conteúdo do envelope. Já são onze e trinta, vi que esperei bastante no hotel. Preciso comer algo, pois só estou com um café e uma água com gás no estômago. Já que vou para Saint-German-dés-Prés aproveito e como algo no Le Procope. O restaurante é uma instituição parisiense. Entro na Rue de L’Ancienne Comédie e logo encontro o mesmo. É considerado o mais antigo de Paris ainda em atividade. Foi aberto em 1686 e tem muita história. Os “pais” dos Estados Unidos estiveram aqui. Entro no restaurante, peço uma mesa. A recepcionista me leva até uma sala coberta de ornamentos. Sento, e por incrível que pareça, o garçom é muito simpático, coisa rara em Paris. Antes dele me mostrar o cardápio, já peço o prato do dia, sem saber o que seria, e uma taça de champagne Pommery, para mim, além da Veuve Clicquot, uma das melhores champagnes da França. Junto uma garrafa de água. Prontamente o garçom já percebeu que não estou para delongas.

Abro o envelope e encontro uma carta. Uma só folha. Sem chave ou outro enigma. Passo o olhar rapidamente e vejo que parece ser dirigida para mim mesmo. O texto começa assim:

Paris, 14 de outubro de 1921.

Ao Amigo do Futuro,

Caro Amigo, eu tinha certeza que iria lhe encontrar um dia. Mesmo que tarde, mas na vida o “tarde antes do que nunca”. Sei que você me procura, e também sei que posso te ajudar na sua busca, pois a sua procura não é pela minha pessoa mas sim pela sua própria pessoa. Você se encontra em um momento sem sentido para a sua vida. É natural. Mas entenda que os nossos diálogos precisarão ser francos! Só a verdade lhe ajudará. E eu preciso ter confiança em você. Não alarde e não alerte para nada. Deixe nossa conversa fluir. Seu desafio é encontrar o verdadeiro sentido para a sua vida, e você terá que escrever sobre isso, é a minha condição. Escreva só a verdade, e deixe a mesma fluir em sua mente. Seja firme, e não deixe o medo tomar conta de você. Esteja amanhã as quatro horas da tarde no 74 da Rue Cardinal Lemoine. Era onde eu morava. Em frente tem um bar. Peça uma garrafa de vinho tinto, bem seco. E me aguarde. Deixe o dia livre. Perderemos e ganharemos muito tempo.

Outra coisa, esqueça Gertrude Stein, tudo não passa de uma tremenda bobagem, além da arrogância natural.
Um grande prazer! E nos veremos amanhã!

EMH

Li, reli, li novamente. Nem percebi que o garçom já tinha colocado a entrada na mesa. Porra, o que está acontecendo? Observo que a recepcionista me olha atônita. Será que ela acha que vi fantasma? Vi sim! Que carta estranha esta. Eu sempre imaginei que nos textos de Ernest Hemingway encontraria muitas respostas para os problemas da minha vida. E no momento que vivo, chegando aos quarenta anos, não imaginava que os meus pensamentos poderiam tomar corpo real. Entrei no jogo, agora vou até o fim. Leio de novo a carta. Mas poxa, Hemingway está morto. Tem alguém brincando comigo? Literalmente devoro o prato. Não deu nem tempo do garçom virar as costas. Preciso sair daquele restaurante, por mais história que tenha, deixo para um outro dia. Agora é hora de refletir, preciso andar, ou melhor flanar por Paris. A cidade me ajuda a pensar e refletir. Será que já é hora de por no papel como Hemingway me instruiu? *

Xxx


Vice-Presidente de Estratégia do Grupo Educacional CAELIS, Fábio Pereira Ribeiro foi sócio-diretor do pólo Santos do IBMEC on line e Diretor de Marketing e Relações Internacionais do Grupo Anima e da Strong/FGV. Viajou o mundo ministrando palestras e desenvolvendo programas educacionais, em especial na África de Língua Portuguesa. É autor de quatro livros. Um dry Martini para Hemingway é o seu  primeiro romance. Fabio Pereira Ribeiro participara da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 



*Trecho do romance Um dry Martini para Hemingway (Editora Simonsen, 2016)






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