quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Professor Monteiro


Professor Monteiro

Por Marcelo Moutinho

O Professor Monteiro sempre gostou de fazer sauna. É relaxante, quebra o estresse, e o suor leva para fora do corpo as impurezas todas, disse, quando tentava convencer a esposa a topar o projeto de construir, no quarto de empregada, uma pequena sauna particular. Conseguiu. Há dois dezembros, o décimo terceiro salário foi todinho empregado na obra.
Dora, a esposa, não curtia sauna. Achava abafado, agoniante. Aos sábados, enquanto o Professor Monteiro suava no vapor, ela jogava buraco com as amigas. Ou via TV.
Titular da cadeira de ciências contábeis havia quase trinta anos, o Professor Monteiro era um dos mais notáveis docentes da universidade. Seu rigor na cobrança da matéria e a discrição no trato com os alunos legaram-lhe o cargo de chefe de departamento.
“Merecidíssimo”, comentou a esposa. A pesada carga horária não lhe permitia grandes arroubos de lazer, mas ele não deixava de cumprir um ritual secreto. Toda quarta-feira, aproveitando o tempo livre de uma hora entre duas disciplinas, ia da sede da universidade, em Botafogo, até a Rua Correia Dutra, no Catete, onde fica a Sauna 69.
O professor costumava chegar por volta de duas e meia da tarde, quando o lugar estava bem vazio. Comprava um jornal esportivo na banca em frente ao prédio e, certificando-se de que na rua havia pouco movimento, caminhava ligeiro até a portaria.
“Boa tarde”, limitava-se a dizer ao recepcionista ao pagar a entrada, vetando, no desenho da expressão fechada, qualquer conversa extra.
Com a chave do armário à mão, o Professor Monteiro encaminhava-se até o vestiário para tirar a roupa, guardar seus pertences e vestir o roupão atoalhado. Antes de ir para a sauna propriamente dita, ele passava no bar. Um uísque, com gelo. Um só não tem problema porque o álcool sai no suor.
Além do bar e da área da sauna, a 69 tinha jacuzzi, uma sala de TV, espaço para massagens e um quarto sem luz que é chamado de dark room, mas ele nunca esteve nessas dependências. Depois de tomar seu uísque, rumava para a sauna sem falar com ninguém. No corredor, se alguma mão tentava tocá-lo, esquivava-se sem apelar para a violência.
O Professor Monteiro, ao contrário de muitos dos frequentadores da 69, não gostava de ficar nu na sauna. Mantinha o roupão, apesar do calor. Mas gostava de ver os outros sem roupa. Admiro o que é belo, dizia para si mesmo ao sentir tão próximo o cheiro daqueles corpos e perceber o suor ressaltando o contorno dos músculos, serenando os pelos do peito, das pernas.
Embora não se permitisse maiores interações, ele conhecia bem os códigos do lugar. Olhar retribuído é senha para aproximação. Mão sobre o ventre é convite direto. A recusa pode se dar com uma simples virada de rosto.
Essa regra o Professor Monteiro manejava como ninguém. Ele não gostava de viadagem. Sou bem casado, muito bem casado, repetia volta e meia a quem quisesse ouvir.
E a esposa concordava. Nos quase trinta anos de matrimônio, foram poucas as vezes em que os dois não passaram juntos as horas de folga. Talvez por isso naquele sábado o Professor Monteiro estivesse se sentindo tão desnorteado. Dora iria participar de uma excursão a Araruama com as amigas da turma de hidroginástica. Passeio vetado aos maridos.
Ela saiu bem cedo, antes das sete, para não perder o ônibus. Ficou feliz ao perceber que o Professor Monteiro havia preparado um café da manhã especial, fez até omelete. Após se despedir de Dora, ele foi ler o jornal.
Sem a esposa em casa, o dia parecia ter encompridado. As horas não passavam e o Professor Monteiro pensou que seria bom fazer uma sauna. Era sábado, afinal.
Tirou a mesa, lavou as louças do café. Ao retornar à sala, viu o baralho em cima do buffet.
Não haveria carteado naquele dia, e o Professor Monteiro se sentiu livre, uma liberdade inédita, cheia de possibilidades. Hoje vou fazer algo diferente, decretou.

Trecho inédido do conto que Professor Monteiro que integra a antologia Ferrugem.

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Marcelo Moutinho é autor dos livros Ferrugem (Record, 2017) Na dobra do dia (Rocco, 2015), A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006) e Memória dos barcos (7Letras, 2001), além do infantil A menina que perdeu as cores (Pallas, 2013). Organizou as antologias O meu lugar (com Luiz Antonio Simas, Mórula, 2015), Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Contos sobre tela (Pinakotheke, 2006) e Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio (com Flavio Izhaki, Casa da Palavra, 2004), das quais é também coautor, e a seleta de ensaios Canções do Rio – A cidade em letra e música (Casa da Palavra, 2010). Seus textos foram traduzidos para França, Alemanha, Estados Unidos e Argentina, entre outros países.

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Lançamentos da antologia Ferrugem

Rio de Janeiro
31 de janeiro, às 19h
Livraria da Travessa de Botafogo

São Paulo
2 de fevereiro, às 19h
Livraria da Vila da Fradique Coutinho



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